sábado, 30 de dezembro de 2017

Retrospetiva do ano

Nestes anos todos de luta 2017 foi, sem dúvida, aquele que mais me colocou à prova a diversos níveis. Quase todos os meses estiveram associados à causa da infertilidade. Fosse em preparação de transferências, esperas por beta, colheitas de sangue, ecografias, abortos e hemorragias, parece que não aconteceu mais nada. Devo ter chegado perto da casa dos milhares de comprimidos num só ano. Pensei que finalmente no início de 2018 ia poder contar, a quem me é próximo, que a probabilidade de ampliarmos a família era uma realidade possivelmente exequível.

Casei nuns minutos de intervalo, pois a TEC era prioridade, fiquei sem embriões, voltei à estaca zero.

O ano resumiu-se a 6 embriões transferidos, 2 degenerados, 1 TEC negativa, a segunda gravidez que se chegou a julgar ectópica, a terceira gravidez, com um saquinho perfeito, que terminou com uma aspiração.

Hoje, pela primeira vez em muitos dias, não perdi sangue. Há tanto tempo que isso não sucedia, parece que tenho dificuldade em acreditar que esse episódio interminável finalmente chegou ao fim. Nos primeiros dois dias após a aspiração tinha umas perdas ligeiras que pareciam de sangue diluído contudo, na véspera de Natal, acordei com o pijama ensanguentado.

Recuso-me a fazer resoluções para 2018 ou pedir desejos vãos para mim. Às resistentes que lutam e sonham como eu com o dia em que este pesadelo termina, só queria ter o poder de vos dizer o dia e a hora exata em que isso vai acontecer para atenuar a vossa dor. Não vos queria ver a passar por esta provação.

Há uma música cujo título me recordo muitas vezes, "Killing me softly", que traduz aquilo que a infertilidade me tem feito. Esta espécie de masoquismo está a chegar ao fim, seja pela via do sucesso ou pela constatação que este campeonato não vai trazer frutos. Estou cada vez mais próxima de me libertar deste fardo que tenho carregado.

Uns dias após o término do ano virá o meu aniversário e quase de seguida a última FIV. Aguardo sem euforias o ano de 2018.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Acerca da aspiração

Desloquei-me à urgência de obstetrícia de manhã e fui recebida no consultório por dois médicos e uma médica. Quiseram saber o que aconteceu, pelo que sintetizei a situação. Com uma postura algo rude um dos médicos perguntou-me o que me foi dito na última vez que tinha ido àquele serviço. Respondi que ficou combinado ir lá no dia 28 de dezembro para fazer a raspagem, contudo como continuava a libertar coágulos e a hemorragia estava aumentar novamente, comuniquei a situação à equipa de Medicina de Reprodução. A indicação que a Diretora tinha dado era que deveria proceder imediatamente à raspagem, não podendo ficar a aguardar até ao dia 28. Obtive como resposta "Quem decide se faz agora ou não, somos nós". Fizeram-me ecografia através da qual viram que de facto ainda havia conteúdo espalhado em várias zonas, um dos vestígios tinha 15 mm. Concluíram que iria fazer aspiração. Por precaução questionei se o conteúdo ia para análise. Parecia que estavam a estranhar a minha pergunta, então referi que havia a suspeição de que o embrião tivesse uma anomalia genética. O médico com a postura resistente disse "vocês não fizeram estudo de cariótipos?". Respondi afirmativamente, foi das primeiras coisas que se despistou antes de iniciar lá os tratamentos e ambos são normais. Ouvi da parte dele "então os vossos embriões não têm alterações se está tudo bem convosco".

Os meus conhecimentos de biologia ao nível da divisão celular e de genética datam de uma aprendizagem realizada já no século passado mas, se não estou enganada, podem ocorrer erros na meiose, assim como nos processos de replicação, transcrição e tradução do ADN, que geram mutações. Pareceu-me que assumir que cariótipos normais geram sempre embriões sem anomalias terá sido um erro. Como não sou expert, vou tornar a estudar o assunto.

Frisei que era o terceiro aborto e está previsto realizar a última FIV em fevereiro. A equipa médica de PMA salientou que precisa ter esse esclarecimento antes de se fazer novo tratamento. O médico disse então que a amostra iria ser enviada para análise. Como na urgência há dois blocos que naquele momento estavam a ser usados e um tem de estar sempre disponível para grávidas (senti-me reduzida a pó), teria de voltar às 13 horas para se proceder à aspiração, mantendo o jejum. A última refeição que tinha feito fora o jantar do dia anterior.

À hora indicada apresentámo-nos novamente na urgência, entrámos para uma sala onde se encontravam parturientes com os respetivos companheiros, em camas separadas por cortinas. Eu e o meu marido ficámos sentados em dois cadeirões na entrada desse espaço. Mesmo ao meu lado, para lá da cortina, havia uma grávida cujo filho tinha os seus batimentos cardíacos a serem monitorizados. Era um ruído frenético, em que se notava por vezes alguma arritmia como vieram a confirmar. Fora isso, e os momentos em que as enfermeiras falavam de forma mais agitada, não imaginava que uma concentração de mulheres em trabalho de parto se traduzisse numa calma e sossego daquela dimensão. Uma a uma foram administrando a epidural. Enquanto isso nós aguardávamos que um bloco ficasse disponível para deitar para fora o oposto da vida. Estava com as mãos e pés gelados, com fome, a ouvir por um lado, um rádio que tocava baixinho naquela sala, por outro gritos de bebés que tinham acabado de nascer nos blocos. Comentavam que era um dia atípico pela quantidade de nascimentos. Os bebés tinham decidido antecipar a época festiva. O meu Natal tinha acabado umas semanas antes. Para aumentar o sentimento de inutilidade estava ali a testemunhar o milagre da vida enquanto aguardava pela limpeza dos restos que já eram nocivos para o meu equilíbrio. Tranquilizava-me a ideia de haver finalmente uma amostra para analisar para compensar a frustração de não ter conseguido salvar nenhuma naquele maldito dia. Nada me garante que o resultado vá ser conclusivo, pois passou muito tempo desde o aborto.

Numa brecha que as enfermeiras tiveram, lembraram-se que estávamos nos cadeirões. Perguntaram-me quando é que tinha comido pela última vez, pois supunham que tivesse sido há muito tempo. Quando respondi que tinha sido no jantar do dia anterior conversaram entre si para decidir se podiam colocar-me a soro. Acharam que sim e passado talvez mais de meia hora, já depois das 16 horas, apareceram com o material. Começou a caça à veia nas duas mãos. Como referi anteriormente, tinha as mãos frias, que não é habitual em mim. As minhas veias são finas por natureza, com frio pior ainda. Mesmo com garrote e pancadinhas elas não dilatavam. Umas das enfermeiras procurou e não encontrou nada. Outra aventurou-se e começou a introduzir o catéter numa que se revelou timidamente. A veia rebentou logo, já não podia ser usada. A alternativa encontrada foi aquecer-me. Foram buscar um lençol aquecido e um saco de soro quente para colocar por cima da outra mão e do braço. Estive assim durante algum tempo até chegar a hora de nova caça. As veias continuavam escondidas, então veio outra enfermeira tentar a investida. A solução estava numa veia na parte lateral do pulso que, pessoalmente, é mais doloroso para mim. Muito devagarinho ela foi introduzindo o catéter, quase no limiar de rebentar nova veia. Conseguiu completar com sucesso, todos nos sentimos aliviados por se ter colocado o catéter. Fui colocada a soro para atenuar a fome e permaneci no cadeirão até quase às 17 horas. Quando finalmente um bloco ficou disponível fui chamada e encaminhada para outro cadeirão no meio de uma zona de passagem ampla entre várias salas. O anestesista veio ter comigo para fazer as perguntas da praxe. Voltei a falar da importância de os tecidos serem analisados, então tranquilizou-me dizendo que ia reforçar ao médico que ia fazer a aspiração. Fui para o bloco onde me deparei com uma marquesa de ginecologia um pouco mais complexa do que o habitual. As pernas ficaram elevadas nuns apoios azuis almofadados que as envolviam quase até ao joelho. Dava para aquecer um pouco daquele frio da sala. Cada braço ficou em suportes, igualmente envolvidos. Tinha oxímetro num dedo e medidor de tensão no outro braço. Foram colocados os elétrodos para monitorização cardíaca e um lençol quentinho a cobrir peito e braços. Prepararam as luzes e uma das enfermeiras queria trazer o aspirador para o bloco. Comentou que não gostava de o fazer com as pacientes acordadas, então acharam melhor sedar-me. O anestesista avisou-me que me iam adormecer, colocou-me uma máscara à frente e pediu para que inalasse profundamente. À medida que inalava sentia o líquido anestésico a circular no braço e a visão a duplicar. A última coisa que ouvi foi para pensar em coisas boas. Não tive tempo...

Acordei no recobro com um aquecedor a ventilar para o interior do lençol. Senti imediatamente dores, a enfermeira estava ao meu lado e perguntou se estava tudo bem. Queixei-me das dores, ela disse que era normal e perguntei se me podia virar para o lado. Como não havia problema fi-lo e ajudou a aliviar. Tentei dormir mais um pouco, embora não tenha conseguido, aquele bocadinho em que mantive os olhos fechados serviram para que deixasse de sentir dor. A cada 15 minutos era feita monitorização automática da tensão. Inicialmente ignorei, mais tarde comecei a espreitar. Chegou a estar 8/6. De vez em quando perguntavam-me se me sentia bem. A dada altura vi uma enfermeira sair muito rapidamente do bloco de partos com um bebé nos braços para a sala de reanimação. Ele estava sôfrego a chorar. Passado pouco tempo, na cama ao meu lado chegam a recém-mamã e o pai desse bebé. Era o que estava com arritmia. Levaram-no para junto dos pais, então a enfermeira perguntou se eu sentia frio. Disse-lhe que não e ela levou o aquecedor para junto deles. Ao mesmo tempo que esse casal ouvi aqueles dados que os recém-papás querem saber sempre sobre os seus rebentos - o peso, tamanho e perímetro cefálico. A enfermeira trouxe-me em seguida chá com bolachas, o frasco do fármaco tinha terminado e voltou a colocar o soro. Permaneci no recobro mais algum tempo. A bexiga começou a encher muito rapidamente até que já incomodava. Aproveitei a passagem da enfermeira para pedir para ir à casa de banho. Sentei-me durante um pouco na beira da cama e pude voltar para a zona dos cadeirões e grávidas em trabalho de parto onde se encontrava o meu marido, porque ia ter alta. Já eram 19h30, estava a levantar-se para perguntar por mim quando cheguei ao pé dele. Fui à casa de banho, vesti-me, enquanto isso a enfermeira foi saber junto do médico se podia ir embora. Ele veio ter comigo e disse que correu tudo bem, os tecidos foram enviados para análise citogenética e à partida não iria ter grandes perdas por causa da aspiração, nem deveria sentir dores. Fomos com a enfermeira retirar o catéter e finalmente viemos embora.

Em diversas circunstâncias em que estive em ambiente de ambulatório, agora ou no passado, assisti a discussões entre profissionais de saúde dentro da mesma categoria profissional ou com funções diferentes, que não se coíbem de se afirmar hierarquicamente, em tom de voz elevado, sem se preocuparem se os utentes estão ou não a prestar atenção. Faz-me confusão esse tipo de atitude, a meu ver desagradável.

Daqui a três semanas ligo para o piso 3 para relembrar que fiz a aspiração, assim as médicas vão-se mantendo atentas ao computador para ver quando saem os resultados e avisam-me logo que saibam alguma coisa. Parece-me que o meu caso está a chamar a atenção pela complexidade.

Um dos aspetos que me está a causar algum incómodo é que provavelmente vou saber se o embrião era de um menino ou menina. Esse pormenor torna tudo mais próximo e doloroso porque, de certa forma, personifica mais aquele que apelidava de mini-nós. Seria o meu filho ou a minha filha que nunca iremos conhecer e para o/a qual não tivemos tempo nem coragem de perspetivar nada para o seu futuro.

Todos os dias penso que 6 de junho de 2017, 2 de fevereiro de 2018 e 17 de julho de 2018 poderiam ser datas tão significativas para nós... O destino tem-nos fintado com esperanças medíocres. Acena-nos com uma cenourinha para, logo de seguida, começar a fugir com os nossos sonhos. Pensei que fosse ficar mais perturbada por estar no meio de um ambiente oposto ao do piso 3. Mas que foi irónico, isso foi. Vou interpretar este episódio como a última partida de mau gosto que o ano de 2017 me pregou.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Fim de mais um capítulo

Por fim terminado. O ponto final tardou em chegar, agora posso fazer o meu luto em paz.

O dia foi longo. Estou fisicamente cansada e a começar a ter algumas dores, por isso vou ser muito breve. Cheguei a casa há duas horas, fui depois jantar, agora vou repousar.

Não foi feita raspagem, mas sim aspiração e os tecidos removidos foram para análise citogenética. Hoje nasceram vários bebés, o pessoal de enfermagem estava admirado com a quantidade de rebentos que decidiu antecipar o Natal. Tive de esperar por não sei quantos partos em jejum desde o jantar de ontem até perto das 17 horas.

Amanhã desenvolvo o que aconteceu, tenho de descansar.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Vem o inevitável

Ontem continuei a expulsar coágulos e como passaram 4 semanas, liguei no final desta manhã para o piso de Medicina da Reprodução que me aconselhou a ir à urgência de obstetrícia, porque caso fosse necessário fazer análises, lá têm mais facilidade em obter o resultado de forma célere.

Cheguei por volta das 13h30, ainda não tinha almoçado, e como o atendimento estava a demorar fui à máquina de snacks comprar uma saqueta de maçã desidratada e um chocolate. Quando fui chamada para o consultório fiz o resumo do que aconteceu e foi feita a primeira ecografia. A médica observou, mediu, passado algum tempo disse que parecia ter visto algo na parte superior do útero. Pediu-me autorização para chamar um colega para dar uma segunda opinião. Veio então outra médica, fez nova ecografia, referiu que podia estar a menstruar, ao que respondi que normalmente só acontece se tomar medicação. Justificou que as mudanças hormonais podem ter provocado a vinda da menstruação. Concluiu que ainda não saiu tudo. Uma imagem de coágulos é idêntica à de restos de tecido embrionário, mas de facto continuo a ter material no útero.

Quando me estava a vestir perguntaram-me há quanto tempo não comia. Percebi logo a intenção. Voltei para junto das médicas, então calcularam que só às 21h estaria em jejum e podia fazer uma curetagem. Não me perguntaram se estava acompanhada. O meu marido estava a trabalhar e tinha de sair mais cedo para ter uma consulta no Hospital de Gaia. Para me prevenir tinha ido de autocarro em vez de carro, porque não sabia o que iam fazer. Deram também a opção de aguardar mais uma semana para libertar mais alguma coisa e fazer logo a seguir a curetagem. Primeiro sugeriram o dia de Natal, depois o dia de Ano Novo. Viram melhor a previsão de serviço e apontaram o dia 28. Ficou combinado para essa data. Quando saí da urgência desci um piso e fui dar feedback do que aconteceu junto da Medicina da Reprodução. A Diretora disse que dia 28 é demasiado tarde, ainda para mais se continuam a sair coágulos. Ficou estipulado esta quinta-feira voltar à urgência em jejum, dizer que continua a sair muito sangue, que já me sinto fraca e que no piso 3 me aconselharam a fazer imediatamente a raspagem. No meio da experiência que vou viver há pelo menos um ponto positivo a reter. O material vai ser analisado, o que significa que, à partida, vou saber se havia alguma anomalia genética no embrião. É nisto que a médica se quer focar por enquanto. O resultado demora um mês a ficar pronto e a última FIV está prevista para fevereiro.

As festividades são em minha casa e praticamente tudo recai sobre mim. Estava a tentar orientar-me como é que ia ser se tivesse de ir no Natal ou Ano Novo para o hospital.

Este processo de expulsão está a ser mais moroso que a própria gravidez. Todas as transferências tiveram finais diferentes. Tantas coisas ainda podem acontecer em futuras TECs, nem quero pensar muito no assunto...

Ho! Ho! Ho! Vai ser um Natal memorável.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Farta de sangue!

No próximo domingo vai fazer 4 semanas que tive a hemorragia surreal que ditou o fim de mais uma gravidez. Desde aí que tenho perdas e há cerca de duas semanas limitavam-se a um corrimento castanho com libertação esporádica de coágulos. Esta noite, porém, acordei com dores na zona dos rins que se prolongaram durante algumas horas. Quando me levantei regressou a expulsão de vários coágulos e sangue vivo, tal como naquela fatídica tarde de domingo. Ainda não tem a mesma abundância mas o ato de me levantar significa saída de conteúdo. Lamento a descrição mas é a realidade com que estou a dar de caras.

Pensava que na altura do Natal a situação estivesse sanada e pudesse "esquecer" um pouco o assunto. Ao invés de sentir uma felicidade interior por faltar pouco tempo para atingir as 12 semanas de gravidez, de cada vez que vou à casa de banho ou me mexo, recordo-me que mais uma vez perdi um filho.

Participo no fórum demaeparamae e hoje li uma notícia muito triste de uma lutadora que há 9 anos tenta ser mãe. No último tratamento que podia fazer pelo SNS engravidou de gémeos. Está a passar por uma dor inimaginável e neste momento resta uma mãe destroçada e uma pequena bebé a lutar por se manter mais algum tempo a desenvolver no útero. ju-ju-ju não sei se vais ler este post mas desejo, do fundo do coração, que agora tudo corra pelo melhor.

São estes episódios que tiram toda a tranquilidade a positivos e barreiras de 3 meses. Convença-se quem faz estas caminhadas que um positivo tem pouco significado.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Aniversário do blogue

Hoje, dia 6 de dezembro de 2017, continuo a ver as evidências físicas da terceira perda de um filho. A hemorragia está na fase em que parece ter cessado mas as manchas persistem em não dar tréguas. Tenho em mente alguns pontos que irei falar com as médicas na próxima consulta para ver se a última FIV e possíveis transferências que posso fazer no público, ocorrem nas mais perfeitas condições.

Este mês assinala-se o segundo aniversário deste espaço no qual tenho vindo a exprimir ideias mais ou menos desconexas e, principalmente, libertar-me. Nunca imaginei que o alcance das minhas palavras fosse chegar a tantas pessoas, nos mais variados pontos do mundo. No meio dos inúmeros aspetos negativos que a internet tem, a ferramenta dos blogues pode ter impacto positivo e terapêutico tanto para quem lê como para quem neles escreve. Não tive qualquer pretensão de caráter comercial ao criá-lo e optei, desde que o idealizei, por dar relevância apenas a conteúdo escrito, sem qualquer imagem. Ao contrário da ponderação que exijo a mim mesma em tudo o que faço, a materialização do blogue surgiu num impulso, motivado por uma fase em que já não sabia como me libertar da dor que a infertilidade me infligia (e ainda continua). Olhando para trás, vejo que a escrita tem substituído muitas lágrimas que outrora derramava. Não vou mentir e dizer que deixei de chorar. Ainda acontece, embora de forma residual. As minhas almofadas têm agradecido imenso esta mudança. Eram as minhas maiores confidentes, o que me deixava mais abatida pela impessoalidade envolvida. Sei quão difícil é levar esta bofetada da vida e quis que o meu potencial futuro filho conhecesse a sua história com as emoções que senti em cada momento, muito antes de ele sequer existir.

Seja qual for o idioma que fale quem me lê e a forma como veio aqui parar, acredito que para a maioria a infertilidade diz-lhes alguma coisa devido à experiência pessoal ou por alguém que lhes é próximo e esteja a enfrentá-la. Gostava de poder anunciar que finalmente existem técnicas 100% fiáveis e seguras de ultrapassar a infertilidade. Infelizmente a utopia ainda é nota dominante e tenho sérias dúvidas que alguma vez se torne um facto real.

Há dois anos que escrevo aqui e o título do blogue continua, também ele, uma utopia.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Nota de rodapé

Não me esqueci da minha claque :) Vou responder a todas, logo que tenha a disponibilidade habitual. A minha miúda de bigodes longos está doentita e tenho precisado de gerir o tempo de outra forma para ver se ela volta ao seu estado (a)normal.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Ecografia de 6 semanas, mas não para mim

Fui picar ponto, mais uma vez, para fazer aquela que seria a ecografia das primeiras grandes emoções, se a vida fosse bela. Como o sol nasceu para outros lados que não o meu, limitei-me a ver o útero com ar heterogéneo, ainda com restos no cenário que outrora acolhera vida. A hemorragia continua vigorosa, no entanto consigo fazer uma vida minimamente normal se recorrer a apêndices XL em tamanho e capacidade de absorção, caso queira passar mais do que alguns minutos sem fazer visita à casa de banho. O momento ecografia/consulta foi ao estilo do que o HSJ já me habituou. É quase como se estivesse de passagem, com uma conversa rápida, porque há muito serviço à espera lá fora. Sem nos ser perguntado se pretendemos arriscar mais uma estimulação, uma vez que carregamos uma bagagem penosa, a médica tratou logo de delinear o programa das próximas festas. Vou deixar terminar esta hemorragia, menstruar outra vez e aí vai ser apurado se o organismo foi eficiente na limpeza ou permaneceu alguma coisa. Se tudo estiver em ordem reanalisa-se todo o trajeto para procurar alguma ponta solta e parte-se para nova estimulação. Simples, certo? Eu acho assustador este pragmatismo que resulta de não se saber muito bem quem se tem à frente...

Perguntou-me várias vezes se se chegou a ver saquinho. Eu disse que sim, no entanto como ainda era cedo não se via o embrião. Rematou em seguida com uma afirmação que me deixou pensativa. Disse que o valor do beta foi baixinho, sendo preferível que ultrapasse 90. Com aquele resultado reduzido seria provável que o embrião tivesse anomalias nos cromossomas. Questionei se não era estranho acontecer nas três vezes em que engravidei. Ela não quis desenvolver mais o assunto, porque todo o processo tem de ser visto com atenção. Não houve nenhuma amostra que fosse para análise, por isso há menos pistas.

Domingo senti-me verdadeiramente impotente e revoltada. Tentava não me movimentar muito devido à ideia parva de achar que o embrião podia resolver fixar-se outra vez e conseguisse reverter a situação. Ficava aterrada de cada vez que ia à casa de banho e aqueles imensos e numerosos coágulos caiam automaticamente para o fundo da sanita sem ter qualquer hipótese de recolher, sei lá como, tudo o que saía dentro de mim para poder levar para análise. Sentia uma culpa gigantesca por nem sequer ter a capacidade de reservar a miséria que era expulsa do meu corpo. Mais uma vez pairava sobre mim a palavra "falhada", nem para isso servia. Cada centímetro que mexesse no corpo significava que a torneira abria sem piedade, o que reduzia as hipóteses de esclarecer o mistério da anomalia do embrião. Na única vez em que não houve dúvidas da existência de um saco gestacional, perdi a oportunidade de saber mais acerca dele. É irónico como este organismo que me define não tem iniciativa para menstruar mas a abortar é exímio.

Bom, parece que vêm aí novas temporadas desta novela surreal em que se tornou a infertilidade. I'll be back!

domingo, 19 de novembro de 2017

Malditos domingos

Vi o meu pai a sucumbir à vida num maldito domingo à tarde, outros dois domingos, sensivelmente à mesma hora, foram brindados com um dilúvio que ditava o fim de dois filhos meus. Hoje foi um desses dias.

Vim há pouco das urgências e o que resta no meu útero são coágulos. Estou com uma hemorragia como nunca tive. Cada movimento que faço é sinónimo de jatos de coágulos e sangue.

Depois das perdas que tive na quarta-feira elas cessaram e tudo corria harmoniosamente até ao início desta tarde em que, ao limpar-me, o papel ficou todo pintado. Duas horas mais tarde veio o inacreditável. Jorros e mais jorros de coágulos, um escorrer contínuo de sangue, sempre que dou um passo sai mais um jato. À partida o processo vai deixar o útero sem vestígios de gravidez.

Antes de ser chamada para o gabinete da médica fui à enfermeira que me perguntou se era a primeira gravidez. Disse-lhe que era a terceira, então quis saber que tipo de parto tive nas gravidezes anteriores. Quando respondi que nenhuma chegou ao fim ela lembrou-se que já lá tinha estado. No consultório após a confirmação do aborto, a médica aconselhou a que enquanto tivesse oportunidade de fazer ciclos de tratamento para não desistir. Este foi o passo mais longo que dei até ao momento, uma vez que já foi visto um saco. Preciso que chegue o dia 23 para dar um pouco de luz a toda a confusão que tenho dentro da cabeça.

Estou com dores e a desfazer-me. Por que é que tenho de passar por isto?

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Gostava de estar otimista, a sério que gostava

A tensão mamária chegou, o peito encontra-se ainda maior do que o habitual, o meu coração está dilacerado. Não consigo estar de outra forma. As perdas de sangue têm vindo a aumentar e se até ontem só se manifestavam vermelhas de manhã, sempre após o repouso noturno, hoje acordei com dois pequenos coágulos. Fiquei alarmada, não em demasia, até às 17h. O pior veio nessa altura quando passei a pingar sangue e caiu um coágulo com algo que me pareceu o meu pequeno saquinho. Estou de rastos, não tenho coragem de fazer beta ou outra ecografia até ao dia 23. Não há nada que consiga fazer para reverter a situação se realmente o que expulsei foi o nosso mini-nós.


O meu marido disse que se de facto abortei novamente temos de repensar o que realmente queremos e vamos fazer. Se optamos por uma pausa (na minha idade não faz sentido, não se deve ter lembrado), se arriscamos logo que possível outra FIV ou se ficamos por aqui. Apoia-me se me sentir psicologicamente pronta para continuar ou dar por terminada a maldita luta. Ele fica perplexo como é possível com 12 embriões e 5 transferências não resultar. Comigo não seria de esperar outra coisa.

Com toda a honestidade, se no dia 23 se confirmar o aborto, a minha disposição atual é encerrar definitivamente este assunto.

Para nós, enquanto casal, é algo que nos envolve há 6 anos, com muito sofrimento. Para mim, é uma questão que me perturba mensalmente há 23 anos. A maior parte da vida tenho convivido sistematicamente com a anormalidade que transformou o meu desenvolvimento numa coisa completamente artificial. Dei por mim hoje a pensar que gostava que o tempo avançasse uns 12 anos para estar na menopausa e finalmente sentir-me "em casa".


Hiperestimular novamente com 38 anos, fazer um determinado número de transferências, perder mais sabe-se lá quantos filhos, condicionar a vida em função de uma causa perdida vai ser demasiado para mim. Chamem-me fraca ou desistente, não me importo. Só quem calçou os meus sapatos pode emitir um juízo de valor. Não duvido das minhas competências como mãe, ia falhar em muitas coisas como qualquer ser humano, mas acho que teria tudo para cumprir muito bem esse papel. Vou viver com a eterna mágoa de não crescer a esse nível, nem de possibilitar que o meu marido tenha outro filho que possa amar. Tenho de ser racional e o mais sensato está à vista. Penso que será a primeira vez que vou desistir de algo e vai ser justamente naquilo que eu mais perspetivava que fosse fazer sentido na minha existência.

Possivelmente vou concluir no dia 23 que não podia ter falhado mais na escolha do nome deste blogue. Não o vou fazer desaparecer, é um registo de uma parte da minha história. Tenho de pensar que rumo dar a este espaço que tão bem me tem feito.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Para já, hipótese 2

Esta manhã voltei a ter sangue vermelho, ao longo do dia tornou a ser castanho. Regressei há pouco das urgências e, pela primeira vez, vi um saco gestacional. Tem 4 mm, segundo as médicas o seu tamanho é compatível com o tempo de gestação. Como entrei nas 5 semanas ainda não foi possível ver mais nada. As trompas estavam limpas, por isso tenho comigo apenas um mini-nós. Não há nada que possa fazer a não ser aguardar pelo dia 23 para ver se a evolução continua a ser regular. A forma do saco é normal, nunca gostei tanto de ver uma mancha preta num ecrã. Mal a médica começou a fazer a ecografia vi-o, foi mesmo especial, tenho pena que o meu marido estivesse do outro lado da cortina.

Disseram que já estou a tomar tanta coisa que não é necessário acrescentar mais nada. Segue-se outro período de 11 dias tal como o tempo de espera pelo beta. Este sim, vai parecer interminável. Nunca passei por um momento assim, nem acredito que tenho um saquinho! Eu vi-o, estava lá!

Aproveito mais uma vez para agradecer todas as mensagens e apoio, vocês são incansáveis e mais crentes que eu. Tenho levado tanto pontapé em relação a este assunto que me custa acreditar que alguma coisa boa possa acontecer. Quero tanto que as próximas 35 semanas me tragam alegria...

Peço desculpa por todo o alarmismo, devia ter-me contido, mas estas perdas não diferem dos episódios tristes do passado. Agora é continuar o dia-a-dia.

domingo, 12 de novembro de 2017

Confusão mental

Estes fenómenos (par)anormais tiram o equilíbrio que tanto prezo. O sangramento de ontem começou repentinamente em tons de vermelho, tive algumas dores menstruais e cheguei a pensar que iria começar o dilúvio. O fenómeno apocalíptico não aconteceu, foi substituído pelo fim das dores e um corrimento castanho que perdura. Dificilmente isto terminará bem, vai acontecer como na TEC 2.

Que ideias já tive acerca disto?

1 - acabou, à semelhança das outras vezes;
2 - é daqueles sangramentos fantasma que ninguém sabe ao certo o que significam, mas que não comprometem a gravidez;
3 - o meu útero está a passar por um processo de mega expansão;
4 - tratava-se de uma gravidez gemelar que ficou reduzida a um embrião;
5 - houve algum descolamento.

A hipótese 1 parece-me a mais óbvia. Mantenho toda a medicação que inclui 1 ovinho de Progeffik a cada 8h. Pior que a espera pelo beta são os dias que antecedem a primeira ecografia em que nunca foi encontrado nada que se assemelhasse a vida. O dia 23 nunca mais chega. Se calhar até lá a natureza dá o golpe final para não restarem dúvidas.

sábado, 11 de novembro de 2017

Sem surpresas...

À semelhança da primeira gravidez, quatro dias depois do beta despeço-me das horas que privei com o meu filho. Sem qualquer aviso prévio, chegou o maldito fluido vermelho. As dores menstruais estão também a começar a manifestar-se. Daqui a menos de uma hora devem vir os jorros com os resquícios de ex-vida que me fez companhia desde o dia 27 de outubro.

Não vale a pena alimentar ilusões com betas na próxima semana, porque a hormona ainda vai continuar por cá uns dias. Já sei que dia 23 vão querer que faça colheita para dar por encerrado o assunto.

Estou furiosa com a vida.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Estranho estado

É a terceira gravidez em pouco mais de um ano e o que me apraz dizer sobre o assunto? Não tenho aquela fome louca das outras vezes, o intestino trabalha bem melhor que o habitual. Aquelas dores fortes incomodam-me cada vez menos e de há dois dias para cá sinto uma leve náusea. A tensão mamária ainda não se manifestou, a gastrite desperta às vezes. Estou naquela fase em que duvido de que haja vida a crescer dentro de mim por ainda ser muito cedo detetar outro tipo de manifestação. Vou fazer outro beta em meados da próxima semana. Já fiz as contas de valores previsíveis para os próximos dias. Acho que está mais que na hora de conseguirmos ter o(s) nosso(s) filho(s).

Mantenho o mesmo ritmo de trabalho, o que me deixa abstraída de pensamentos e sentimentos sobre o resultado desta TEC.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

De pés assentes na terra

Antes de desenvolver o que quer que seja quero agradecer, do fundo do coração, todas as felicitações e sinais de esperança de quem é mais que bem vindo a esta humilde casa. Vocês conseguem trazer-me aquele calorzinho aconchegante de que precisava nesta altura. Não tenho passado por momentos fáceis, a revolta tem andado a consumir-me e a tornar-me insensível.

De facto, fazendo todos os cálculos comparativos dos positivos obtidos até então, este é o melhor resultado. Poderei na próxima semana fazer outro beta para ter uma ideia intermédia de como estão a correr as coisas enquanto não chega o dia da ecografia. Não quero, contudo, ficar obcecada nem deslumbrada. Isto é um tímido começo que rapidamente pode terminar. Tenho de ser contida nas expectativas mas ao mesmo tempo deixar de lado a tendência derrotista que me leva a achar que vai correr sempre mal. Quando se está escaldado é difícil ver que o sol também pode nascer para nós.

Admito que suspeitava da gravidez, custou mais foi saber o valor. Mesmo tendo ideia de que viria um positivo estava determinada em avançar para outra FIV para a consciência ficar definitivamente tranquila. Uma das áreas da minha formação de base é a Química e é nela que neste momento estou a depositar as minhas esperanças para que o meu filho não seja rejeitado.

Beta -TEC 5

Estranhamente não sonhei com nada relacionado com o dia de hoje.

Fiz colheita, soube o resultado e não sei o que pensar. O valor foi 62,74. Tudo bem que só passaram 11 dias. A médica estava mais otimista que eu. Dia 23 faço a ecografia e até lá vou limitar-me a cumprir as coisas sem refletir muito sobre o assunto. Disseram que nem sempre vai correr mal, oxalá estejam certas. Mantenho toda a medicação, serenidade e neutralidade para não me deixar afetar muito.

Dia 11 - TEC 5

Está a terminar o processo FIV e suas respetivas TEC. Recapitulando no que se transformou, aqui vai uma síntese:

- Hiperestimulação;
- Punção de 25 folículos - fevereiro 2016;
- 3 degeneraram;
- 13 fecundaram;
- 10 criopreservados em D3;
- 2 criopreservados em D5;
- 1ª TEC maio 2016 (2 embriões) - negativa;
- 2ª TEC setembro 2016 (2 embriões) - gravidez bioquímica;
- 3ª TEC janeiro 2017 (2 embriões) - negativa;
- 4ª TEC maio 2017 (2 embriões) - AE às 8 semanas (embrião com desenvolvimento muito lento);
- 5ª TEC outubro 2017 (2 embriões) - descongelados 4 últimos embriões.

As perdas de sangue desapareceram, foram mesmo muito reduzidas, quase nem se notaram. Hoje ainda tive daquelas dores fortes mas não tantas vezes como ontem.

Venha de lá o resultado para poder assumir um pouco mais o controlo à vida, ou não...

Não estou nada nervosa com isto, é estranho. No dia da TEC fiquei calada durante algum tempo, talvez por ter sido confrontada com a realidade de já não haver mais embriões. A verdade é que fui bastante sortuda por ter conseguido transferir 10. Cheguei a um patamar que muitas mulheres gostariam de atingir e não têm essa possibilidade. Posso não ter posto uma criança no mundo mas durante algumas semanas tive a oportunidade de ter células de 10 filhos nossos em contacto comigo. Tenho pena que os outros dois mini-nós não tenham conhecido um ambiente diferente do laboratorial. Para mim eram todos muito especiais, a minha dúzia de pequenos lutadores.

Às 8h00 vou fazer a colheita, por volta da hora de almoço devo saber o resultado. Daqui a umas horas dou novidades.

domingo, 5 de novembro de 2017

6 anos

Em novembro de 2011 tomámos a decisão de enfrentar o fantasma da infertilidade que pairava à minha volta desde 1994. Partimos logo para o pedido de ajuda especializada. No meu caso seria perda de tempo ficar aquele período regulamentar nos chamados "treinos" infrutíferos antes de pensar em procurar soluções.
Vários cancelamentos, negativos, abortos e 12 embriões depois, eis-nos em vésperas de saber o resultado da última TEC possível para a FIV realizada há 1 ano e 9 meses.

Naquela altura ainda tinha 31 anos, daqui a uns dois meses completarei 38. Se há alturas em que me sinto muito próxima de concretizar o nosso sonho, noutros momentos parece que vejo a esperança a escapar por entre os dedos. Não tem sido nada fácil, é a maior dificuldade que tenho enfrentado na vida. A nossa rotina, o meu percurso profissional, muitas das escolhas que temos feito giram em torno dos tratamentos e da possibilidade de passarmos a ser mais moradores em casa. Quando se faz o balanço de todos os sacrifícios não se vê nada. Quer dizer, vê-se o desgaste provocado pela medicação, pela frustração, tudo aquilo de que se abdicou em prol de uma ideia.

Apesar de tudo, não me arrependo de ter embarcado nesta aventura. Aprendi há muito tempo que há coisas que não surgem de mão beijada, carecem de muita luta. A realidade é que nem sempre se conseguem alcançar. Se me perguntassem há 6 anos se achava que o processo ia ser mais fácil, eu tinha consciência de que ia dar muito trabalho e desilusões.

Passou mais de meia década e o meu colo está vazio.

Dia 10 - TEC 5

Precipitei-me ontem quando falei da ausência de perdas. Para já são muito ténues mas estão lá. As dores fortes não se restringem apenas aos segundos que sucedem depois de me levantar. Se estiver em pé, aparecem mesmo que não faça nada de especial. Optei por passar a tarde deitada. Por enquanto, mesmo que esteja sentada, ainda não tenho dores.

Antevejo semanas de incerteza.

Dia 9 (update)

Pouco depois de ter publicado o post anterior fui colocar Progeffik. Quando cheguei à casa de banho vi um pequeno vestígio de sangue acastanhado. Veio umas horas mais tarde que da outra vez. Espero que não se repita o que aconteceu na última TEC, se é para passar pelo mesmo, prefiro logo um negativo.

sábado, 4 de novembro de 2017

Dia 9 - TEC 5

A contagem decrescente está a terminar. Não houve sinais de sangramento mas repetidas vezes, quando me levanto, sou invadida por uma dor bastante aguda no baixo ventre, que incide um bocadinho à direita. O corrimento líquido incolor e inodoro já se instalou e a gastrite deu alguns sinais. Se acho que o resultado vai ser positivo? Não! Tive outrora dores com resultado negativo, assim como o corrimento líquido. A tensão mamária é cada vez mais tardia e ainda é impercetível.

Pensei que a toma prolongada do corticóide me fosse deixar com um ar insuflado como quando era criança e tinha de usar a bomba para a asma. Curiosamente não noto que esteja fisicamente diferente em relação à TEC 4, por exemplo. Na TEC 3 o volume abdominal aumentou significativamente, contudo essa mudança deveu-se apenas à medicação, como veio a ser confirmado no beta.

Em 3 dias, por esta hora, o mistério estará desvendado. À semelhança do que referi em outras ocasiões um positivo não me basta. Não sinto confiança suficiente para lançar foguetes e achar que o assunto está resolvido. Tanta coisa pode acontecer...

Apenas a quem me acompanha por aqui e num dos locais onde trabalho dei conhecimento da existência desta TEC. Mais ninguém que eu conheça sabe. Depois de tanta desilusão o meu marido quis que mantivéssemos de fora a família e amigos no acompanhamento de transferências até haver algo concreto e com uma margem de conforto significativa para podermos anunciar uma boa nova. Esse dia poderá nunca chegar porém manteremos a mágoa entre nós.

Dia 8 - TEC 5

Aproxima-se o dia do beta e os níveis de ansiedade são mínimos. Em raras ocasiões tenho dores idênticas às menstruais que duram alguns segundos apenas. Tenho-me queixado tanto do abuso químico a que estou sujeita mas gostava que a minha malinha fosse despejando nas próximas semanas, era muito bom sinal.

Mais uma vez surge a vontade de fazer planos para os próximos tempos mas, como tem sido costume nestes 6 anos, é complicado. Será fácil resolver essa questão se o resultado do beta for negativo e encerrar definitivamente a luta. Tenho de pensar se estou disposta a abdicar de cerca de mais 2 anos de um curso" normal" de vida em benefício de outra saga. A ver bem as coisas, nem sei ao certo o que é isso da normalidade na vida. Se o meu futuro passar pelo envelhecimento sem conhecer o real sentido da maternidade vou ter de aprender a conhecer-me, porque tenho vivido para uma causa fictícia. Tenho privado com o improviso com tanta frequência, logo eu que gosto de sentir controlo sobre o meu quotidiano. Parece que anda tudo do avesso, respondo a solicitações constantes, no entanto sinto-me incapaz de pedir ajuda. Sempre tentei desenrascar-me o melhor que conseguia pelos meus meios, porque quando precisava de realizar alguma coisa que pressupunha a participação de outras pessoas, deparava-me com laxismo ou falta de sentido de responsabilidade. Esta dependência de um sistema que envolve várias pessoas para a concretização do objetivo de sermos pais é exatamente o oposto do que tenho feito na minha existência e isso deixa-me ainda mais frustrada. Isto está a testar os meus limites de tolerância que, diga-se de passagem, têm uma amplitude significativa.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Dia 7 - TEC 5

Aproxima-se aquele período em que na última transferência me apercebi do início das perdas de sangue. Só aconteceu na TEC 4, se algo semelhante suceder, será por volta de sábado. Não houve nada de diferente em relação a ontem, aqueles instantes de pressão súbita no útero ocorrem, no máximo, umas três vezes por dia.

Amanhã terá passado uma semana, não tem sido complicado passar o tempo. Os mini-nós resistentes, made in fevereiro de 2016 chegaram a conhecer um 2017 sinistro. Tenho as minhas sérias dúvidas de que fiquem por cá até julho de 2018. Por vezes parece que estou a fazer um estudo científico em que a cobaia que nunca dá em nada sou eu, mesmo assim persisto... persisto... sempre a cometer o erro parvo de me sujeitar ao que é praticamente óbvio: a infertilidade está a ganhar-me a léguas e não a irei vencer.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dia 6 - TEC 5

Dia 1 de novembro, especialmente para quem vive no norte, sabe o que isso significa. Pelo menos deu para distrair do estado pré-beta e privei algum tempo com a minha mais recente sobrinha de 4 patas, uma pequena rebelde que gosta de deixar as suas marquinhas. É irresistível como o facto de só olharmos para ela é motivo suficiente para partir para o ataque. Tinha saudades de estar com uma gatinha tão pequenina.

Os efeitos da medicação começam a sentir-se. Ligeiro aumento do volume mamário, uma vez por outra alguma pressão no útero devido ao estado "nuvem fofa" em que se deve encontrar. Não é nada que nunca tenha acontecido antes, foi assim em todas as transferências.

Estou a meio do percurso desta TEC, o tempo tem passado relativamente rápido, provavelmente por estar quase sempre ocupada. Tem sido nestes diários que tenho dedicado um pouco dos meus pensamentos TECofílicos. E não, ainda não tomei aquela decisão, nem me tenho debruçado sobre o assunto.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Dia 5 - TEC 5

Eis-me! Boa noite e obrigada! É mais ou menos isto...

O trabalho rola, a rotina medicamentosa está completamente instalada, a vida segue controlada ao minuto para não descarrilar, pois desenvolvo a minha atividade em vários sítios. Não há muito tempo para analisar se o coração continua a bater, ainda que de forma irregular, como descobri há uns meses, se há pontadas, tensão ou algum sinal de fumo que indique que algo se passa. Ainda bem que está a ser assim, preciso de concentração, porque o meu trabalho é essencialmente intelectual. A única "queixa" que tenho é que no final da manhã senti cansaço na zona dos gémeos, como se tivesse tido cãimbras durante a noite. Acumulo medicação diversa que pode interagir e tem os seus efeitos secundários. Com tanta coisa que tomo estou admirada por me sentir tão bem aliás, a gastrite praticamente não se tem manifestado.

Há alguns pensamentos que tenho sobre o rumo desta TEC. A sequência do meu histórico tem sido: negativo - positivo - negativo - positivo. O que me parece lógico, porque procuramos sempre um sentido para este caos interior é que, obviamente, é a vez do negativo. Se, por alguma exceção, voltar a ser positivo, remato automaticamente a ideia com um destino fatal que ainda não experienciei e, nesse âmbito traço diversas possibilidades que não vale a pena referir neste momento. Como se pode ver, nunca concluo o cenário com um final idílico, não consigo.

Mantenho o processo de procrastinação, porque falta-me descobrir o momento ideal para tomar a minha decisão definitiva. Então vou adiando... adiando... Ups! A deadline é daqui a uma semana! Preocupa-me mais esse aspeto do que o resultado do beta, o que é estranho. Tenho de fazer um esforço para ponderar o futuro, analisando o passado. Há alturas em que me irrita ser adulta e esta é uma delas.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Dia 4 - TEC 5

Mais um dia passou em que praticamente deu para esquecer que fiz uma transferência. É muito melhor enfrentar o período que antecede o beta se nos distrairmos o máximo possível. Salvo indicação contrária, não voltaria a repetir aqueles dias consecutivos de repouso no sossego do lar, em que a cabeça não faz mais que procurar sintomas, pensar no número de células dos embriões, ficar indecisa entre fazer ou não teste de gravidez. A meu ver, é um tremendo erro. Nem falo dos benefícios físicos da movimentação.

"O psicológico", muitas vezes empregue erradamente como substantivo, quando o que se pretende é falar da condição psicológica, tem uma fatia preponderante na forma como encaramos todos os processos associados ao tratamento da infertilidade. Não estou a ter apoio especializado nesse âmbito, nem tenho conhecimento no terreno que me permita dizer que o mesmo me traria benefícios. Acredito que haja quem lhe reconheça vantagens, assim como quem lhe seja averso por ideias pré-concebidas, como por experiências negativas ou ausência de melhorias. No meu caso, simplesmente não sinto necessidade.

De uma coisa tenho conhecimento de causa, isto não é pêra doce. É uma verdadeira provação que põe em causa toda a harmonia e estabilidade que procuramos. Abala relações, pode destruí-las ou torná-las mais coesas, mexe com a dinâmica do casal, as relações familiares, de amizade e até mesmo com o ambiente profissional. Ou seja, toda a esfera que circunda os agentes envolvidos é revirada e o Eu sente uma sobrecarga difícil de suportar, que pode piorar quando surge o insucesso. A infertilidade dói e é subestimada. É preciso mais sensibilidade para dar um real apoio àqueles corações que sangram de cada vez que tropeçam em mais uma pedra.

Fisicamente comigo está tudo igual, não há sinais de sangue. A minha revolta atenuou um bocadinho, talvez por ter escrito este post.

domingo, 29 de outubro de 2017

Dia 3 - TEC 5

Estive numa festa de aniversário de um menino maravilhoso que nasceu no mês anterior ao início da minha novela no mundo da infertilidade. Muitas crianças estiveram presentes, a maioria mais novos que ele, com idade para serem amiguinhos das várias crias que eu já poderia ter posto no mundo, desde que entrei nesta luta. Não me incomodou partilhar o mesmo espaço, talvez por estar mentalizada que essa dinâmica frenética faz parte de um mundo paralelo ao meu em que a biologia decretou que sou persona non grata. Pouco depois de chegarmos fomos surpreendidos com um jogo em que eu e o meu marido, na qualidade de recém casados, tivemos de segurar uma pequena bola com as nossas testas enquanto percorríamos uma pista desenhada no chão. Ouvi por duas dolorosas vezes, alto e bom som, por parte de alguém que não faz a mínima ideia da nossa história "de cada vez que a bola cair são trigémeos que vêm!" Claro que não houve qualquer maledicência na expressão daquelas palavras, é apenas fruto da assunção de que as pessoas estão automaticamente aptas a pôr cá fora ranchos de filhos com a mesma facilidade com que se bebe um copo de água. Contudo, na fase em que me encontro, preferia não ter de me lembrar novamente da minha especificidade.

Pelos vistos fiz uma transferência na sexta-feira passada, até vi os dois pontinhos brilhantes a serem colocados no apartamento. Não há nada a assinalar sobre o assunto. Ainda não sinto efeitos da medicação, por vezes a gastrite faz as suas gracinhas mas, regra geral, estou bem. A única coisa que tenho reparado é que passo a vida a abrir embalagens de medicamentos. Tenho um necéssaire destinado apenas a caixas dedicadas à infertilidade que não fecha de tão abarrotado que está. O meu corpo é um contentor de pequenos cilindros e ovinhos que se vão consumindo num organismo que, de natural, já tem muito pouco.

sábado, 28 de outubro de 2017

Dia 2 - TEC 5

Nada como fazer uma vida, o mais normal possível, para esquecer que mais uma TEC entrou no meu currículo. Ando tão alheia ao processo que só hoje me apercebi que o beta está marcado apenas 11 dias após a transferência. Isto é o 8 e o 80. Da última vez foi 15 dias depois.

Faço diariamente um esforço para me recordar de tudo o que tenho de tomar ou se, eventualmente, já tomei. Não costumava ser assim.

Sei que tenho uma decisão a tomar. Estou só a procrastinar um bocadinho para não correr o risco de me precipitar.

Gostava de estar otimista, carregada de esperança, mas não consigo. É só mais um processo que se instalou no meu quotidiano, até estava a estranhar passar tanto tempo ausente da sala de espera do piso 3. Desenvolvi um género de Síndrome de Estocolmo em relação a estes rituais. Recuso-me a equacionar como estarão os embriões, acho que não faz sentido. Quero manter-me neutra, a roçar o fria, como mecanismo de defesa. Evito depositar emoções coloridas pois a infertilidade tem pintado o ânimo em tons de cinzento. Disse em tempos que a desprezava, nada mudou.

Ontem esqueci-me de atualizar a terapêutica que mantenho. É então Eutirox 100, 3 comprimidos de Estrofem, 1 comprimido de Acfol, Projefikk a cada 8h, 1 comprimido de Cartia, 1 comprimido de Lepicortinolo e terça repito 1 comprimido de Molinar. Coisa pouca...

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

TEC 5

Mais uma transferência feita, a última que resultou da FIV de fevereiro de 2016. Sim, a última. Pela primeira vez houve problemas na descongelação. Tinha 2 palhetas com 2 embriões em cada uma. Numa das palhetas um dos embriões degenerou. Na segunda palheta um embrião revelou um desenvolvimento anómalo. Tenho comigo um mini-nós em início de compactação e outro já compactado.

Confesso que me passou pela cabeça que esta seria a última TEC da ronda. Não me sinto animada. Até porque tenho de tomar uma decisão até dia 7 de novembro, que é a data do beta. É-me dada a possibilidade de fazer mais uma FIV. A questão é que ainda não sei se tenho estofo para recomeçar. Se durante anos esperei pela oportunidade de fazer tratamentos, agora constato que me sinto esgotada.

Pelo meu marido, enquanto nos forem dadas oportunidades avançamos sempre, desde que eu esteja disposta. Até ao momento foram 13 possibilidades, a maioria delas canceladas. Os 8 cancelamentos não superam os 10 ou 12 embriões perdidos. Estou a tomar atualmente 10 comprimidos por dia e pergunto-me qual o sentido disto? Se calhar a esta hora já não habita vida dentro de mim, ando a persistir numa ideia que nunca irá ter concretização, para no final a vida rolar com um sentimento de incapacidade por não conseguir levar para a frente algo tão primitivo.

Estou a ter verdadeiramente um conflito interior. Tenho raiva de mim, da minha inutilidade, de pensar que todos estes anos não me vão servir de nada e que a minha estúpida teimosia me tem arruinado aos poucos, quando já estava mais que sabido que a maternidade não é para mim. Não devo merecer conhecer esse lado da vida, a pedra no sapato que me incomoda desde os 14 anos vai lembrar-me todos os dias que fui destinada a ser falhada.

Ontem casámo-nos, foi especial, hoje voltei a ser assombrada pela maldita infertilidade que se apoderou de nós. Tenho de pensar o que farei e não me apetece ter de refletir acerca disso. O momento chegou uns meses mais cedo do que supunha e apetece-me ficar letárgica.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Mudança de data

Perto das 14 horas recebi uma chamada da enfermeira. Quando se identificou pensei logo que era para dizer que nenhum dos 4 embriões tinha sobrevivido. Afinal não foi. Era para se certificar do dia em que iniciei o Progeffik. Respondi que foi na segunda à tarde, então tive de aguardar que me contactasse outra vez, porque ia falar com a bióloga. A segunda chamada foi para confirmar que a TEC 5 será na sexta e não amanhã como estava previsto.

Sendo assim, amanhã caso, à tarde vou trabalhar. Sexta faço a TEC, à tarde fico por casa e sábado trabalho. Se não fizesse transferência tínhamos um fim de semana a dois planeado. Como houve este desenvolvimento decidimos não arriscar fazer algumas centenas de quilómetros. Certamente surgirão muitas oportunidades para tirarmos um pequenino tempo apenas para nós, sem preocupações.

Mais uma vez nos deparámos com mudanças de planos. Sinto que vivo na base do improviso, o meu quotidiano é rodeado de planos a, b, c... Esse foi um dos fatores que nos levou a optar por um casamento no extremo da simplicidade. Estamos saturados e a ausência de stress que quisemos impor ao casamento tornam-no especial para nós. Queremos tranquilidade e o facto de termos procedido à remarcação devido à greve da função pública já nos bastou. Por acaso não havia qualquer logística associada à celebração da cerimónia, nem convidados, mas esse pormenorzinho podia ser fonte de grandes complicações.

Sinto-me em paz, era o que mais queria nesta altura.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Dois em um

Foi dia de eco e segundo a complicada terminologia médica para estes assuntos de infertilidade, o endométrio está na categoria de "bonito".

A TEC foi marcada adivinhe-se para quando? 26 de outubro, dia em que nos vamos casar! Quando dissemos à médica que era o dia do nosso enlace ela perguntou se queríamos fazer no dia seguinte uma vez que a TEC é programada. Não quisemos adiar, já marcámos a hora de abertura da Conservatória a contar com essa possibilidade, por isso seguimos com a nossa decisão. A brincar respondeu que poderemos vir a dizer que engravidámos no dia do nosso casamento. Era bom que assim fosse e, já agora, que resultasse numa gravidez bem sucedida.

Ando bem disposta, estou feliz!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Declaro aberta nova temporada!

A manhã não foi tão dramática como inicialmente pensei. Consegui sair do hospital às 11h45, o que é excelente em relação ao que é habitual. O endométrio está no sítio, os ovários estão sempre mascarados da mesma forma, ou seja, são dois monos que andam ali a ocupar espaço, o meu ânimo está num nível de nulidade.

Agora vem a lista do que se espera ser uma receita milagrosa, com uma percentagem relevante de empirismo.

De manhã:

- 1 comprimido de Eutirox 100 (eu e ele somos um só até ao fim dos meus dias);
- 1 comprimido de Acfol;
- 1 comprimido de Molinar (vitamina D) daqui a 15 dias tomo mais um comprimido;
- 1 comprimido de Estrofem;
- 1 comprimido de Cartia;
- 1 comprimido de Lepicortinolo (corticóide).

À noite:

- 1 comprimido de Estrofem.

Isto é só o aquecimento, na próxima semana vem mais. Paralelamente estou a tratar da primeira constipação do ano letivo. Trabalhar com alunos tem destas coisas e como sou uma pessoa muito solidária, sempre que algum jovem está constipado, uns dois dias depois comungo do mesmo estado.

Perguntei se era oportuno tomar a vacina da gripe nesta altura em que a TEC está à porta e a médica desaconselhou. Fixe, as próximas semanas prometem.

Vou tomar Molinar e Acfol em vez daqueles suplementos como o Natalben e Matervita, porque na composição têm iodo que para mim não é bom. A minha tiróide que está controlada há tantos anos podia não tolerar muito bem.

Segunda-feira regresso ao hospital para nova ecografia. Pelo meio de tudo isto vou casar durante a próxima semana. Está marcado para o horário de abertura da Conservatória para não atrapalhar muito a vida se tiver de ir ao hospital. Se não for também o dia da TEC ainda vou trabalhar de tarde até à hora de jantar. Tive de alterar a data do casamento, porque os sindicatos da função pública decidiram emitir um pré-aviso de greve no dia em que estava inicialmente agendado. Seria desagradável batermos com o nariz na porta, então não quisemos arriscar. O meu quase oficial marido vai usufruir de licença de casamento, a minha pessoa não pode. Como se pode ver, a vida está um oásis!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Quinta ronda...

Amanhã adivinha-se uma daquelas manhãs que me vai ocupar várias horas entre salas de espera no HSJ. Quando consegui contactar o piso de Medicina da Reprodução (após umas vinte tentativas realizadas num período de duas horas e meia) fui avisada que amanhã vai ser um dia complicado - como é quase sempre. Mesmo assim, a ecografia ficou marcada para as 9h30. Como é habitual seguir-se-á consulta e eventualmente conversa com a enfermeira sobre o plano terapêutico.

Vou ser honesta no que toca ao meu grau de motivação relativamente a este período. Quero despachar isto. Esta situação está a tornar-se um fardo para mim. Tanto tempo, sacrifício e desgosto estão a esmagar-me aos poucos. Não quero desistir antes de esgotar os embriões que me restam mas também não quero investir mais de mim numa nova estimulação. Como ninguém me pode garantir que a solução milagrosa estará nalgum embrião que resulte de nova FIV, colocarei um ponto final na minha caminhada quando a minha dúzia de mini-nós terminar.

Sei que esta minha decisão é contrária à busca de conforto por parte de quem me lê, contudo estes 6 anos a que somo mais uns 17 (pela minha história clínica) têm-me provocado um desgaste que só eu tenho capacidade para compreender como me afetam.

Para agilizar a TEC 5 é bom que o endométrio cresça devidamente, os embriões descongelem favoravelmente, a medicação surta os efeitos desejados, a nidação seja perfeita. Quanto ao resultado, evidentemente que seja positivo, mas sinceramente estou a borrifar-me para os valores, fiquei traumatizada com isso. O que importa é que desta vez o princípio, meio e fim sejam o que sempre sonhei.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Falta pouco

Sábado inicio o Provera para induzir o ciclo que marcará a TEC 5. Tomei o antibiótico durante 16 dias e com este surgiram efeitos secundários quase imediatos que perduram, se bem que o primeiro está quase resolvido e outro está a manifestar-se. Tive a amarga experiência de conhecer a Cândida, a Albicans, logo no segundo dia da terapêutica com o antibiótico. Houve poucas ocasiões da minha vida em que tomei este tipo de medicamento e desconhecia que um dos efeitos adversos mais frequentes era precisamente esta "amiga" manifestar-se com todo o seu esplendor. Tive de a aniquilar e findo o tratamento com aquelas bazucas do primo da penicilina deparo-me com um problema de urticária nas pernas e braços. Espero que isto passe rapidamente e me dê o sossego necessário para encarar a TEC.

Está previsto ser um ataque feroz, com uma miscelânia de químicos que vai combater muitas frentes. Pretendo voltar a dar cumprimento ao esquema de repouso da última vez que é de ficar por casa apenas no dia da transferência, sem me deitar. Digamos que esta TEC e, eventualmente a próxima, serão o tira-teimas, o vai ou racha com que me deverei despedir desta batalha.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Endonews

Como referi ontem, pretendia ir ao hospital esta manhã e assim aconteceu. O resultado da biópsia não estava no sistema, o meu processo estava na secretária da Drª S com a indicação de ver com urgência se havia novidades.

Ainda era cedo quando lá fui e a médica não tinha chegado. A uns metros de casa, no regresso, recebi uma SMS com uma receita eletrónica. Verifiquei na Plataforma de Dados da Saúde (recomendo o registo) a que dizia respeito. Ainda equacionei que tivesse sido a minha médica de família, porque enviei-lhe na semana passada uns relatórios de exames. Não foi, vi que a receita era do HSJ com a prescrição de duas embalagens de ácido clavulâmico + amoxicilina, de 12 em 12h, que associei logo a antibiótico. A primeira ideia que me ocorreu era que o relatório acusava uma endometrite, que normalmente é tratada com antibiótico durante duas semanas. Fui logo à farmácia e aguardei que me telefonassem, pois seria de esperar que me fossem dadas instruções. Eram 13h e ainda nada tinha sido dito, então telefonei eu. Parece que uma enfermeira estava incumbida de me contactar mas antecipei-me. A técnica administrativa (sempre impecável, sem qualquer ironia) foi consultar o meu processo e viu que o relatório mencionava a presença de uns "bichitos" que ela não percebeu muito o que era e o antibiótico servirá como prevenção. O relatório já estava pronto, no entanto o laboratório ainda não o tinha validado no sistema informático, logo não estava acessível às médicas.

O plano de ataque para os próximos dias é cumprir a terapêutica do antibiótico, deixar passar cerca de uma semana e voltar a tomar Provera. Quando menstruar é o costume, ligar a avisar, marcar eco para o 3º dia and so on, and so on...

Enquanto não tenho a consulta do 3º dia do próximo ciclo fico na incógnita acerca do zoo que para aqui anda a causar perturbação.
Frequentemente leio artigos acerca das maleitas relacionadas com a infertilidade e encontrei este que merece leitura http://smegineco.com.br/doc-artigos/50-Femina_v40n6_319-324.pdf

Quando fiz a histeroscopia não foi observado nada relevante, contudo a biópsia tem elevada importância. Posso ter sofrido horrores nessa parte mas só por este resultado já valeu a pena toda a dor. Isto permite-me concluir que a videohisteroscopia, por si só, pode não acrescentar nada na procura de respostas. O conselho que posso dar a este nível é não descartar a biópsia.

A TEC 5 não será este mês no entanto, tendo em conta a notícia de hoje, não me rala. Quero tratar da chacina da bicheza, não é esse tipo de população que quero a habitar o meu hotel.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Impasse TEC 5

Julgava que as coisas estavam orientadas, agora está uma incógnita.

A menstruação decidiu aparecer na segunda-feira, 5 dias depois de terminar o Provera, quando o normal é 4. Pode ser resultado das biópsias que originaram uma hemorragia prolongada que me deve ter deixado o endométrio muito fino. Liguei nesse dia para o hospital e a técnica administrativa disse que a médica que estava de serviço ia verificar se o resultado da biópsia estava pronto para ver se teria de fazer alguma coisa antes de dar início à preparação da TEC. Não se pôde agendar ecografia na sequência desse pormenor. Fiquei a aguardar chamada ainda nesse dia para receber orientações. O telefonema não aconteceu.

Ontem de manhã voltei a ligar para saber o que fazer e, pelos vistos, alguém mexeu no processo e das duas, uma: ou o resultado ainda não chegou ou a médica esqueceu-se de telefonar. A técnica administrativa informou que estava um casal no gabinete da médica e quando saísse falaria com a Dra L para ver o que se passava. Comprometeu-se a ligar-me logo de seguida. Mais uma chamada que não foi feita...

Para não ser considerada uma melga hoje decidi não dizer nada para ver se alguém tomava iniciativa. Foi o terceiro dia do ciclo, deveria ter feito ecografia e iniciado a medicação, no entanto o meu telemóvel não tocou.

Se o resultado ainda não está pronto podiam dizer-mo que eu compreendia. Deixarem-me pendurada à espera de chamada e não cumprir é muito mau.

Amanhã a chata, em vez de telefonar, vai deslocar-se ao piso 3. Tenho as minhas dúvidas que a TEC seja neste mês.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Quase em campo

Realizados os exames que tinha planeado fazer, com diagnóstico de algumas coisitas que não são relevantes para a TEC, estou a tomar Provera desde sábado. Isto significa que no próximo domingo vou menstruar, por isso dia 12 de setembro devo fazer ecografia e começar a parafernália de medicamentos aos quais se deve juntar um corticóide.

A médica de família disse que tenho baixo nível de vitamina D. Na TEC anterior isso foi compensado com o Natalben, no entanto não é o mais indicado para mim, pois contém iodo. Esse suplemento pode interferir com a minha tiróide que trabalha a meio gás se não for controlada com o Eutirox. Vou resolver isso de outra forma para não comprometer o funcionamento da dita cuja.

Agora que estou mais tranquila com os rastreios que realizei estou quase a postos para me focar na TEC número... 5...

Durante este período passado entre umas micro-férias, seguido de consultas e exames foi-me perguntado, pelo menos duas vezes, se já estive grávida e quantas vezes. O meu cérebro bloqueou durante uma fração de segundos quando isso aconteceu. A primeira ideia que me veio à cabeça foi "considero uma, duas vezes ou nenhuma?" Nem eu sei muito bem, porque no primeiro caso foi gravidez bioquímica, no segundo houve uma imagem sugestiva de saco embrionário sem grandes certezas. Respondi em ambas as ocasiões que estive grávida duas vezes e antes que fosse assumido que tinha dois filhos, tratei logo de fazer a ressalva que nos dois casos terminou mal. Uma questão aparentemente rotineira e inofensiva faz-me sentir uma incompetente. O assunto não está bem resolvido no meu cérebro e acho impossível que alguma vez venha a estar.

Que expectativas tenho em relação à(s) próxima(s) TEC(s)? Muito próximo de zero, é essa a realidade. Ainda não houve problemas com a desvitrificação, os mini-nós têm-se aguentado sempre bem nesse processo. Não é garantido que continue a ser assim, penso que estou preparada para quase tudo. De uma coisa estou cada vez mais certa, a minha capacidade de andar para a frente está a chegar ao limite.

Perguntaram-me se sinto alguma pressão social para ter filhos. Não, nem por isso. Aliás, ignoro algum tipo de insinuação. Como respondi, é uma vontade intrínseca sem qualquer interferência externa. Outra questão colocada foi se me consigo imaginar a seguir a vida sem filhos. Sim, perfeitamente, é a realidade que melhor conheço, embora de há uns anos para cá com muita frustração. Este estado anímico é, no entanto, fruto de tudo o que tem acontecido nestes quase 6 anos. Acredito que se decidir colocar um ponto final nisto vai haver um período de luto profundo a que se seguirá mais um virar de página em que poderei fazer mudanças na minha existência. No meu caso não se colocará a questão de "privar" o meu marido da oportunidade de viver a paternidade, pois ele é pai há muito tempo. O que poderá acontecer é não termos oportunidade de colocarmos no mundo os nossos filhos. Não serei mãe, aquela visão inquietante de ser velhinha e à minha volta não haver gerações que provieram da minha luta a traçarem o seu projeto de vida angustia-me. Mesmo que o meu marido não tivesse já uma filha, jamais poderia ter sentimento de culpa pela privação desse milagre. A meu ver a união de duas pessoas não tem como fim último a sucessão. Antes dos filhos estamos nós casal que, por alguma razão, decidiu que fazia sentido seguir um caminho comum. Para não criar falsas expectativas fui franca desde o início em relação ao conhecimento que tinha da minha infertilidade, seria desonesta se não o fizesse. Pouco a pouco estou a começar a fazer as pazes comigo mesma e a entrar num processo de aceitação do fracasso que aumenta na mesma proporção da diminuição da esperança.

Se em tempos acreditava que a minha cria ia chegar, infelizmente não posso dizer o mesmo agora.

Após este alongado desabafo ia-me esquecendo de referir que as biópsias feitas na histeroscopia resultaram numa hemorragia que durou 9 dias! Não pensava que fosse durar o mesmo que a menstruação.

Termino este post com aquilo que disse à enfermeira que me fez o teste de gravidez no dia da histeroscopia. A probabilidade de eu ganhar o Euromilhões é maior do que a de conseguir trazer uma criança ao mundo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Check-up

Tenho aproveitado este período entre TECs para fazer uma revisão tipo carro, mas ao meu corpito, porque estava mais que na hora. Desde muito nova que o faço, porque o meu historial clínico e familiar obriga-me a ter esse cuidado. No ano passado não o fiz e este ano estou a deparar-me com notícias pouco animadoras. Planeava tomar o Provera já no dia 26 para dar início à preparação da TEC, contudo decidi adiar umas duas semanas para dar tempo de receber uns resultados. Espero que depois de tudo estar esclarecido possa dedicar-me à TEC, pois será bom sinal.

Confesso que estou com medo, pela primeira vez na vida, do resultado de um exame que tenho de repetir e de outros que vou fazer. A palavra de seis letras começada por C que assombra a minha família e a tem vindo a dizimar, anda a rondar. Tenho vindo a agir no sentido de, na eventualidade de ela andar aqui pelos meus lados, conseguir resolver o assunto para poder cá andar mais uns anos. Ontem uma médica disse-me "boa sorte", a propósito do exame que vou realizar novamente. Foi estranho e preocupante ouvi-lo.

Não seria maluca de me aventurar a realizar outra TEC com este tipo de problema pendente. Antes de proceder ao milagre da vida tenho de garantir que a minha está íntegra. Em vez de fazer a transferência em meados de setembro, deixo para quando souber que está tudo seguro.

É importante não descurarmos a própria saúde, assim como não esquecer que os mesmos fármacos que tomamos para levar os tratamentos a bom porto podem ter efeitos adversos no nosso organismo. Ando também a investigar se os milhares de comprimidos e injetáveis que passaram por mim deixaram sequelas.

Não está a ser uma fase muito entusiasmante...

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Histeroscopia

Outra etapa foi cumprida, falta saber os resultados. Fiz a primeira histeroscopia da minha vida e fiquei a conhecer ao vivo e a cores mais uma entranha do meu corpo. Antes de me preparar para colocar na marquesa tive de fazer um teste de urina para verificar se não estava grávida, porque a última vez que menstruei foi quando abortei. Depois de se concluir que não houve milagre fui pôr-me a postos. Do ponto de vista morfológico não há nada que comprometa uma gravidez, está tudo normal. A histeroscopia foi suportável e o facto de estarmos a visualizar as imagens funciona como elemento distrator tornando a sua realização um pouco mais facilitada. Das biópsias não posso dizer o mesmo... Foram feitas duas, uma a fresco e outra para ser conservada em formol. Sem papas na língua vou dizer que doeu muito. Não consigo descrever o que senti. Se tiver de comparar esta dor com a das colonoscopias que já fiz sem sedação, não sei como organizar o top. O meu marido assistiu a tudo. Tentei manter-me o mais quieta possível para facilitar a recolha das amostras. Estava ciente que aquela dor não se devia a quem estava a executar. A opção pelas biópsias deveu-se às falhas de implantação, sendo também corroborada pelo aspeto normal do útero.

Depois de findo o massacre fiquei durante algum tempo sentada para ver como me sentia. Quando pensava que devia estar quase em condições para me levantar comecei a ficar enjoada e tonta. A enfermeira despejou-me açúcar debaixo da língua, voltou a colocar o oxímetro no dedo e fiquei mais algum tempo sentada para ver se melhorava. Comecei a sentir dores do género das menstruais, continuava fraca. Disseram para me deitar um pouco na cama que se encontra na sala. Pensei que ia desmaiar, via as coisas turvas à minha volta enquanto as pernas tinham dificuldade em sustentar o corpo. Algum tempo após ficar na horizontal comecei a transpirar e a enfermeira deixou a cortina parcialmente aberta para receber um pouco do ar condicionado. A visão foi ficando nítida e as dores no útero intensificaram um pouco. O meu marido foi para a sala de espera, desinfetaram a área onde se faz a histeroscopia e fecharam a cortina para poder chamar outra senhora enquanto eu repousava. Quando concluíram o exame da utente que entrou já me sentia bem.

Levei o relatório para o piso 3 da Medicina de Reprodução, perguntei quando irei realizar a próxima TEC. Se não houver nada que justifique adiamento, em setembro volto ao ataque. O meu processo já estava no arquivo do próximo mês. Será mais cedo do que esperava, tenho de fazer contas para ver quando começo o Provera para menstruar. Neste momento tenho uma hemorragia semelhante à menstruação. Não sei quanto tempo vai durar, felizmente o sofrimento ficou no hospital.

Organizei há pouco o meu historial desde que estou a ser acompanhada no HSJ. Desloquei-me ao mesmo 45 vezes desde dezembro de 2014. No âmbito das consultas de infertilidade, no Pedro Hispano, devo ter ido umas 10 vezes. Se tiver em conta que quase sempre passo uma manhã inteira no hospital foram alguns, os dias da minha vida, que fiquei plantada em salas de espera com a esperança que algum dia isto possa dar certo. A realidade neste momento é que estou cada vez mais convencida que o meu futuro não passará pela maternidade. O útero morfologicamente imaculado deixa-me com a triste ideia de que os embriões devem ter anomalias genéticas. Esgotaremos os 4 que nos restam. Se não resultar, não me sinto com disposição para fazer nova estimulação. Como se diz na gíria, será "chover no molhado" e uma PGS está fora de questão.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Viver na/para/com infertilidade

No meio de toda a confusão de folhetos promocionais que recheavam a minha caixa de correio, encontrava-se o envelope cujo conteúdo me fez recordar pela milésima vez (hoje) que a infertilidade não me larga.

Dia 10 de agosto farei a histeroscopia. Ela será realizada a 3 meses de completar 6 anos desta novela que deve ser patrocinada por uma conhecida marca de pilhas. Tenho lido umas coisas acerca do que se poderá encontrar aqui no meu t0. Não tenho qualquer pista, por isso estou bastante curiosa em relação ao assunto. O resultado será um abre-olhos e uma etapa determinante nas tomadas de decisão a realizar nos próximos meses.

Ainda não há previsões de quando se irá realizar a TEC 5, mas tenho a indicação que é pouco provável que seja antes de outubro.

Fazendo uma rebobinagem ao que sucedeu nos últimos meses vejo que em abril contactei o hospital para ter luz verde para iniciar o ciclo da TEC, em maio este iniciou, vieram as monitorizações e a TEC. Em junho chegou o primeiro beta e tudo o que seguiu de mau. Em julho continuava a saga dos betas e a definição de nova estratégia. Em agosto vem a histeroscopia... Mais de um terço do ano só para esta parte. Se voltar ainda mais atrás o mês de janeiro também esteve em destaque.

Não estamos no fim do ano e a infertilidade tem sido nota dominante das minhas horas. Vivo-a, respiro-a, sinto-a, desprezo-a.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Beta 8 - fim de mais um capítulo

Ontem foi feita a derradeira colheita de sangue mas o hospital deve ter-se esquecido de me contactar, então hoje telefonei para saber se finalmente se confirmava um resultado negativo. De facto a hormona já cá não circula.

Estava a supor que não tivesse beta-hCG no sangue, porque acredite-se ou não, a minha gata é um detetor muito eficiente. Durante a fase em que a hormona apresentava valores positivos ela massajava-me a barriga e deitava-se ao longo da mesma, quando o seu hábito é deitar-se no meu peito. As massagens costuma normalmente reservá-las para o meu pescoço ou cabelo. Desde meados da semana passada deixou de dar prestar atenção à barriga.

Quinta-feira vou assinar o consentimento para a realização da histeroscopia e só então poderá ser feito o seu pedido.

A hemorragia cessou definitivamente no domingo, ou seja, durou 17 dias desde o início das perdas que anunciavam o aborto até ao fim de semana passado.

Dou por encerrada a TEC 4 e a ilusão de que o fim da tortura era possível.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Beta 7

Pensava que ia agendar a histeroscopia mas o beta ainda está em 621. Daqui a uma semana faço a oitava colheita deste filme interminável que já ultrapassa a série Rocky. Tendo em conta que a hormona pode demorar até 6 semanas a desaparecer do corpo, poderei ter de fazer mais análises. É como se fosse picar o cartão ao hospital. Quando finalmente puder ser agendada a histeroscopia ainda terei de lá ir assinar um consentimento, porque esse exame é considerado ato cirúrgico.

A hemorragia está nos restinhos, daqui a dois dias já não deve haver vestígios de nada.

Aquilo que queria neste momento era encerrar definitivamente este capítulo para o luto não perpetuar indefinidamente. Posso dizer que estou bem, mas há situações que exigem um ponto final para proporcionar mais alívio. Esta é uma delas...

Outra coisa em que tenho pensado é que, o que me traria mais alguma esperança seria que na histeroscopia fosse encontrada alguma anomalia (pólipos ou miomas não detetados nas ecografias), de fácil resolução e que tivesse sido essa a causa das falhas de implantação. Se atender à hereditariedade não é impossível (a minha mãe tinha) e eu mesma tenho desenvolvido pólipos no estômago há muitos anos. Dar-me-ia mais alento esse diagnóstico do que estar tudo bem e ficar a pensar que o problema pode estar centrado nos mini-nós. A dúvida a esse nível persistirá sempre, porque não tenho condições financeiras para embarcar em tudo o que envolve uma PGS.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Nova consulta

Uma vez que ontem fiz ecografia e o sexto beta, hoje a médica analisou as informações deixadas pelos colegas da urgência e achou que não era necessário repetir ecografia. Enquanto o beta não for negativo não poderá ser marcada a histeroscopia. Daqui a uma semana faço o sétimo e espero que seja o último beta desta jornada. Ficou a recomendação de que se tiver dores fortes ou aumento significativo da hemorragia, voltar à urgência.

Desta vez as dores menstruais estão bem presentes. De todas as menstruações que tive depois de uma TEC esta é, sem sombra de dúvidas, a mais abundante e dolorosa. Parece a primeira e única vez que menstruei espontaneamente, lá pelo ano de 1994. Este mau estar está a deixar-me mais abatida, pois faz-me pensar no motivo que o causou.

Somam-se 8 mini-nós nesta conta interminável. "Basta um" ouve-se e lê-se em todo o lado, "à terceira é de vez", "quando menos esperares, acontece". Sou adepta do "ver para crer"...

domingo, 25 de junho de 2017

Bravo guerreiro

Como tinha referido na sexta-feira passada comecei a ter perdas. Iniciaram com um tom castanho, seguido de uma pasta com textura de creme de chocolate, ontem chegaram umas leves cólicas menstruais e hoje, após o almoço, o sangue vivo com vários coágulos. As dores aumentaram de intensidade, há muito tempo que não as sentia assim. Aguentei-me na terrinha até às 18h e quando regressei fui à urgência para me certificar que a proveniência da hemorragia era do útero e não de outro sítio qualquer.

A jovem médica que me atendeu, depois de observar e sentir as entranhas que libertavam coágulos fez ecografia e encontrou uma imagem que lhe parecia um pequeno saco com um descolamento. Mediu-o, procurou batimentos cardíacos mas não estava certa do que tinha à frente. Perguntou-me se não me importava que um colega mais velho viesse dar opinião. Não me importei, obviamente, então entrou um colega que devia ser quase da mesma idade, ambos mais novos que eu certamente. Ele parecia mais seguro que a colega e disse que aquelas manchas seriam coágulos a descolar, não havia líquido que indiciasse gravidez ectópica e o mais indicado seria fazer outro beta. O médico perguntou se já tínhamos jantado pois, como o resultado da análise ainda demorava pelo menos umas 2 horas, podíamos comer alguma coisa no centro comercial junto ao hospital. Assim o fizemos e regressámos à urgência. Neste momento o beta está em 1028, ou seja, estou a abortar. Amanhã de manhã estava previsto fazer ecografia, agora deverá ser encerrar este capítulo e marcar histeroscopia. As dores menstruais são contínuas, podiam dar algumas tréguas.

Este fim de semana tinha entrado nas hipotéticas 8 semanas. O meu bravo guerreiro aguentou-me muito tempo. Foi discreto, um pedacinho de coragem que ousou desafiar as probabilidades e quase me levou a crer em coisas transcendentais. Tornou-se a mais próxima materialização de um filho.

Enquanto lidava com a perda, iam chegando grávidas de 37 e 38 semanas com contrações, que suspeitavam encontrar-se em trabalho de parto e uma mulher bastante decidida que disse querer fazer uma IVG.

A vida, a morte (involuntária ou planeada) num mesmo piso, com expectativas e receios distintos. Um dia marcante na vida de uma pessoa, a rotina de quem lá trabalha.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Consulta

Foi o dia da consulta que marquei antes de saber em que filme esta gravidez se ia tornar. Primeiro fizemos o balanço do que sucedeu nestas últimas semanas. A prioridade é descobrir se a gravidez é ectópica. Caso não o seja, que cenários poderão esperar-se, sendo que o menos provável é o desenvolvimento normal da gravidez. A diretora ainda referiu a possibilidade de ser uma gravidez natural mas expliquei-lhe o motivo de ser impossível e ela concordou comigo.

Depois de analisada a situação da gravidez disse-lhe que marquei a consulta para vermos o que poderá ser feito, partindo do princípio que não tarda muito seguir-se-á outra TEC. Perguntei se havia limitações do hospital para se estudarem as causas deste insucesso ou se teria que o fazer fora. Ela respondeu que o que se faz fora também pode ser realizado lá. A questão é que não há muito a investigar. As trombofilias estão analisadas e o Cartia já foi prescrito empiricamente por não haver uma evidência que justificasse a sua extrema necessidade.
Outra questão que coloquei foi relativa à hipótese do meu sistema imunitário estar a rejeitar os embriões. Algo a tentar futuramente, é adicionar um corticoide, novamente numa base empírica.
No que diz respeito ao endométrio nunca houve problemas em este atingir a morfologia ideal para receber embriões. Foi-me questionado se já fiz histeroscopia e isso ainda não aconteceu. O próximo passo depois de mudar de capítulo vai ser fazer esse exame.

Uma causa para as falhas de implantação poderia ser a qualidade dos embriões, que não se aplica ao meu caso. São sempre bons e nunca houve problemas depois de serem retirados da criopreservação. Não significa, no entanto, que não tenham uma alteração nos cromossomas. Como tanto eu como o meu marido não temos nenhuma doença genética conhecida, o que nos restaria seria a PGS (Pre-implantation Genetic Screening). Desde logo a médica disse que o HSJ, nem qualquer outro hospital público tem dotação financeira para fazer esta técnica que ronda os 10 000 euros. Consiste em fazer-se uma estimulação e aos embriões resultantes retirar algumas células que serão posteriormente estudadas. Até aqui em nada difere de um DGPI. Em seguida recorrendo a marcadores tentam encontrar-se genes para as doenças mais comuns. É então feita a seleção dos embriões com mais hipóteses de sucesso. Pode dar-se a situação de haver embriões com alterações completamente compatíveis com uma vida normal. O que esse estudo não garante, como em qualquer transferência, é que vá resultar numa gravidez bem sucedida.

Um facto é que não são normais todas estas falhas, a Dra S. admitiu-o e agora eu e o meu marido vamos refletir acerca disto tudo.

Depois da consulta fui almoçar qualquer coisa à pressa. Quando cheguei ao trabalho fui à casa de banho e vi o que não queria. Estou com perdas iguais às que tive quando abortei da primeira vez. É noite de S. João com familiares do lado do meu marido, amanhã ele faz anos e domingo vou à terrinha ver a minha mãe com quem não estou desde a semana anterior à Páscoa.

Segunda-feira provavelmente já não se vai encontrar nada na ecografia.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Beta 5

À semelhança do que aconteceu nas análises anteriores o beta aumentou outra vez. Agora está em 1233, com uma evolução a uma taxa aproximada à que se tem verificado desde o beta 2. Ficou definido fazer nova ecografia na próxima segunda-feira pelas 9h, para acautelar a possibilidade de ter de ficar no hospital.

Suponho que a estratégia que elas delinearam foi dar tempo que o beta evolua até um valor que garanta um saco gestacional de boas dimensões, que não dê lugar a ambiguidades na sua localização. A questão do possível internamento ocorrerá provavelmente se se confirmar gravidez ectópica, anembrionária ou ausência de batimentos cardíacos no meu pequeno Nemo.

Mantém-se o plano de contingência a adotar em situação de dor aguda, desmaio ou hemorragia abundante.

A luta está feroz e de todas as fases que têm envolvido a TEC 4 esta é a que me está a dar mais força. Mesmo que não termine da melhor forma, dá-me mais ânimo para enfrentar novas batalhas.

terça-feira, 20 de junho de 2017

À procura de...

Ainda não há total certeza de onde pára o embrião. A imagem não foi conclusiva para gravidez ectópica e no útero apareceu algo que poderá ser sugestivo de um saco gestacional, mas sem garantias. Caso o seja mantém-se a convicção de que a gravidez não vai evoluir, pois neste estágio, se o desenvolvimento estivesse adequado já deveria haver batimentos cardíacos.

Para dissipar as dúvidas em relação à localização do embrião mantém-se a colheita de sangue a cada dois dias para aferir a evolução do beta, enquanto este continuar a aumentar. Pode também a natureza tratar da expulsão durante este período. Amanhã regresso para nova colheita e sexta-feira devo repetir ecografia.

Parece que ando a alimentar vampiros. Vou oferecer o braço direito, porque a veia do esquerdo já acusa alguma selvajaria e precisa de uns dias para recuperar.

Apesar de ser improvável que a gravidez goze de boa saúde durante o tempo regulamentar de uma gestação, estou a estabelecer uma ligação emocional ao meu mini-nós, o qual apelo carinhosamente de Nemo. Ele está a ter a bravura de ficar comigo com a sua presença muito discreta. É corajoso e resistente à sua maneira. Deixa-me orgulhosa pela força que demonstra, pois a ver pelo perecimento dos seus 7 irmãos devo oferecer condições inóspitas à manutenção de uma vida humana. Devo ser uma espécie de Vénus, não a divindade, mas o planeta com a sua atmosfera agressiva de nuvens ácidas que desafiam a integridade do que lá pousar. Mais uma vez tive um daqueles sonhos relacionados com a fertilidade/maternidade. Neste, quando foi feita a ecografia, surpreendi aquela equipa inteira com o desenvolvimento de um embrião sentenciado que, ao contrário das expectativas deu uma volta que ninguém esperava. Acordei um pouco aliviada e menos pesarosa.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Beta 4

Hoje o resultado foi 951. Amanhã faço uma ecografia de urgência, porque há uma elevada probabilidade de ser ectópica. Já se deverá encontrar alguma coisa.

Se esta evolução tivesse acontecido assim há umas duas ou três semanas era razoável. Nestas circunstâncias só um milagre justificaria um progresso adequado. Passei a barreira das 7 semanas de gestação e continuo a caminhar para o 1000.

Amanhã poderei ter uma resposta definida acerca deste mistério.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A saga continua

Colheita feita, resultado 562. Sim, aumentou. O meu coração recebeu a notícia com um ânimo um pouco inocente, a minha razão ficou desapontada. E agora? Pois, a novela vai continuar. Há embrião a desenvolver, não se sabe onde e até quando. Continuo com a mesma condição física das últimas semanas, sem indícios de abortamento ou sintomas de gravidez ectópica, à exceção da progressão lenta da hormona beta-hCG.

Perguntei se devia continuar com a medicação e a indicação é que posso suspender, porque a gravidez não vai evoluir. Segunda-feira volto a fazer colheita de sangue.

Marquei consulta com a diretora, na próxima sexta-feira vamos sincronizar estratégias.

Nas inúmeras pesquisas que tenho realizado, só para valores de beta-hCG acima de 1000 mil é que se consegue visualizar o saco gestacional, o que significa que poderei estar a desenvolver uma gravidez ectópica durante muito tempo sem dar conta. Outro facto é que as FIV têm contribuído para um aumento da ocorrência de gravidezes ectópicas.

Como suspendi a medicação poderei menstruar daqui a uns dias ou não, porque tecnicamente estou grávida. Se em tempos me queixei de um nim, esta situação nem sei como classificar. Deixei de ser humana e passei à condição de ET. Acho que sou uma criatura alienígena propensa a estranhezas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Atualização do beta

Recebi à tarde, enquanto trabalhava, a chamada com o resultado e a realidade é que não se sabe o que se passa. O valor foi 451 e há algumas hipóteses em aberto. A hormona poderá já estar em regressão; algum embrião poderá estar a desenvolver-se lentamente algures no útero ou trompas embora não tenha sido detetado na ecografia; o que é praticamente certo é que a gravidez não vai evoluir.

Não estava preparada para este tipo de cenário, o que veio aumentar a tortura em que isto se tornou.

Sexta-feira vou fazer novo beta e a expectativa da médica é que o valor reduza para dar mais tranquilidade. Se continuar a aumentar vou ser sincera, não sei o que me espera. É-me difícil avaliar como estou, só sei que, enquanto trabalho, tento abstrair-me ao máximo de tudo o que está a acontecer e é muito difícil.

Ficou o alerta de que se desmaiar ou tiver dores intensas devo dirigir-me imediatamente às urgências de obstetrícia por poder tratar-se de uma gravidez ectópica.

Quando for fazer a próxima colheita vou ver se consigo agendar um momento para ter uma conversa sem correrias com a diretora. Irei tentar perceber os limites da atuação do hospital e propor colaborar externamente com a equipa naquilo que me for possível financeiramente.

Em relação ao recurso ao privado como alternativa a este enorme fracasso, atendendo à resposta ovárica que apresento com os injetáveis, as minhas economias ficariam longe de conseguir suportar todos os gastos com a conservação de tantos embriões, respetivas transferências e estudos para averiguar as falhas de implantação. Não tenho capacidade financeira para tanto. Acho que ficaria de consciência muito mais pesada se acabasse por desperdiçar os embriões por não ter como pagar para os criopreservar ou transferir. Não se trata de passividade, conformismo ou vitimização este bater na mesma tecla.

O hospital está claramente a proceder de acordo com normativos muito restritos e generalistas que são insuficientes para quem foge à regra. Aquilo que eu realmente gostava era que mo admitissem e é isso que vou tentar fazer ao conversar com a diretora. Posso ter dificuldade em arcar com a despesa de um tratamento completo, mas tenho uma almofada que me permite apoiar a pesquisa de causas, se o HSJ não o puder fazer. Para isso funcionarei como uma parceira deles para remarmos todos para o mesmo lado. Se, pelo contrário, vir que afinal têm liberdade para proceder de outras formas, aí digo que são mesmo irresponsáveis. Nessa situação verei a possibilidade de transferir os embriões para a clínica Prof. Alberto Barros e encerrar a minha jornada lá, se feitas as contas, tiver capacidade.

Há coisas na minha vida que gostava que tivessem sido diferentes para que esta fase não estivesse a ser tão angustiante mas nem tudo corre como queremos.

Estou exausta.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Suspeitas confirmadas

- Sente-se bem? - perguntou-me a diretora do serviço.
- Estranhamente bem - respondi.
- Gravidez não é doença!
- Sim, eu sei, mas tenho dificuldade em acreditar que possa estar tudo bem.
- Teve perdas?
- Não, não aconteceu nada de anormal.

Começou a busca mas apesar das expressões faciais das três pessoas que estavam a olhar para o ecrã manterem-se neutras, percebi pelos cochichos que algo não estava bem. A determinada altura a procura expandiu para os ovários. Mal a ecografia iniciou vi que não encontravam nada.

- Não há nada no útero nem nas trompas, vai repetir o beta. Apesar de já ser tarde, faz na mesma a colheita de sangue e a Dra A.M. telefona-lhe à tarde para falar consigo. Temos de ver o que se está a passar. Tinha razão nas suas suspeitas. - finalizou a diretora.

Fui ter com a enfermeira à sala de recobro onde duas senhoras recuperavam da punção.

- Mais do mesmo? - questionou-me a enfermeira.
- Sim.

Não estou aterrada, não consigo chorar talvez por estar mais mentalizada que o mau iria sobrepor-se ao bom. Sinto-me em baixo e com vontade de me desligar daqui do meu quotidiano. Infelizmente isso só vai acontecer em agosto. Precisava disso agora. O meu marido ficou abatido, dizia que nunca esteve tão confiante como desta vez. Vamos apostar nos 4 embriões que sobram e depois refletir sobre o futuro, caso essas transferências não resultem.

Aguardo o telefonema da tarde para dar fim a mais uma gravidez relâmpago.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um passo à frente?

Calma, é o primeiro apelo que tenho a fazer a vocês, maravilhosas companheiras! Está tudo bem comigo, a dinâmica de trabalho está diferente, porque nestas semanas tenho estado debruçada a preparar alunos para exame de nível secundário.

Estou quase a descobrir o que se anda a passar cá dentro e tenho dificuldade em manter-me otimista. Vou explicar agora os motivos.

1 - já me passou pela cabeça que quando fiz o beta (15 dias após a TEC), este poderia estar a regredir por ser outra gravidez bioquímica;

2 - os sintomas que tenho (peito maior e fome) podem ser meros efeitos secundários da medicação;

3 - ainda me custa a crer que tenha capacidade de gerar e manter uma vida em crescimento;

4 - tenho a sensação que ao fazer a ecografia se vai descobrir que os mini-nós pararam de desenvolver há algum tempo e o corpo ainda não deu sinais de que esteja a tentar expulsá-los;

5 - por fim, o chip ainda não está atualizado, porque é bom de mais para ser verdade, admito.

A minha curiosidade em relação ao dia de amanhã é superior à que tinha no dia 1 de junho, porque estou prestes a descobrir se mudei de nível neste jogo. Pelas minhas contas este fim de semana atingi as 6 semanas, pelo que é expectável que se veja alguma coisa do tamanho de uma ervilha, de preferência a piscar vigorosamente e, já agora no útero e não fora dele.

É a segunda vez na minha carreira de profissional de transferências que faço este tipo de ecografia, mas até agora não houve nenhum indício de que algo esteja mal. O meu marido está confiante de que tudo vai correr bem e não precisaremos de nos preocupar com mais TEC ou tratamentos. Queria tanto conseguir pensar assim...

Depois de acabar de escrever isto vou cruzar todos os meus dedinhos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

5 semanas mais 1 ou 2 dias

É estranha a sensação de alguém dizer-nos que estamos grávidas quando não nos sentimos como tal. Sei que é cedo, há muito tempo para tomar consciência disso até aperceber-me que afinal (ainda) estou nesse estado. Esta conversa é para chegar aos famigerados sintomas que tantas vezes nos enganam. Se tivesse de afirmar convictamente que estava grávida, com base em sinais, seria há 4 meses e não agora. Pois é, os marotos dos efeitos secundários da medicação muitas vezes fazem das suas e andam a confundir-nos ou a criar ilusões. Muitas vezes, quando chega a hora da verdade, alguém dispara sobre nós um balde de gelo para acordarmos para a triste realidade.

Neste momento sinto-me normal (de acordo com os meus padrões), a gastrite tem-me dado férias, a tensão mamária é muito mais ligeira do que em transferências anteriores, o volume abdominal está igual, ao contrário da TEC 3 em que aumentou consideravelmente. Se calhar o peito está um pouco maior mas atribuo para já a responsabilidade ao Progeffik. Não tenho dores no útero nem perdas de sangue. Esta bizarria que é diferente do que aconteceu no passado é que me deixa com reservas em relação ao sucesso desta TEC. Se calhar agora é que estou como devia ser suposto nesta altura. Na vida real não costuma ser assim havendo até quem descobre que está grávida quando está em trabalho de parto?

Apesar de a 1 de junho estar oficialmente grávida, acho que só vou acreditar MESMO quando fizer a ecografia. Aquele pé que gosta de ficar atrás diz-me que esse fenómeno (gravidez) é algo que não me assiste. Que posso eu fazer, sou assim!

Vamos falando aqui por casa de como estão a correr os dias mas curiosamente ainda não abordámos assuntos de caráter logístico ou factos relacionados com o(s) nosso(s) filho(s). Acho que só teremos coragem de começar a pensar e pôr mãos à obra depois das 15 semanas.

Esta sexta-feira vou finalmente ter consulta com a minha médica de família. Foi preciso esperar 4 meses pela dita e se correr tudo bem não vou poder concretizar para já o objetivo da marcação que era ter uma requisição para realizar a endoscopia que tenho de fazer anualmente. Aliás, por causa desta sequência de tratamentos e transferências já deixei passar dois anos e meio, que para mim pode ser um pouco perigoso dado o meu historial clínico. Conjugar os tratamentos com o tempo que tenho de aguardar por consulta na médica de família e ainda agendar a endoscopia torna-se uma tarefa complicada quando tudo está dependente dos timings do SNS.

Como já afirmei em tempos, desejo que a gravidez seja acompanhada no HSJ e não na minha área de residência, pois o HPH não foi suficientemente correto quando fui seguida nas consultas de infertilidade. Vou referir isso na sexta-feira e tenho a certeza que a minha médica vai compreender. Não tenho nada contra ela, pelo contrário, há contudo coisas na unidade local de saúde da zona que deixam um pouco a desejar. As condições da maternidade e do acompanhamento do pai até podem ser mais interessantes que no HSJ mas aqueles 3 ou 4 dias da altura do parto não vão determinar a minha escolha face às várias semanas em que serei vigiada. Se alguém tiver experiência no seguimento pré-natal do HSJ que não se importe de partilhar, sou toda olhos :)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ainda sobre o beta e a TEC 4

Agora que a poeira assentou um bocadinho aqui para estes lados, estou com mais discernimento e disponibilidade para acrescentar umas palavras.

Em primeiro lugar, não houve nenhuma noite pré-beta em que não tivesse sonhado sobre esse dia. Enquanto nas anteriores dava por mim já gravidíssima e era a última a aperceber que me encontrava nesse estado, desta vez foi diferente. Sonhei com um número concreto, 110. Falhei por pouco no valor. Ainda bem que foi quatro unidades superior e não inferior, mas andei lá muito próximo.

Ao falar com a médica, que foi a primeira que conheci naquele serviço e quem me realizou a transferência, ela parecia mais descansada pelo resultado do que eu.

Não explodi de alegria, porque ao longo dos anos fiquei formatada para receber más notícias. Disse-lhe que apesar de não parecer, era aquilo que mais queria ouvir na vida, só que me faltava mudar o chip para me adaptar à novidade.

A conversa com a enfermeira com quem estive depois da boa nova deixou-me com um estado de espírito muito diferente daquele com que fiquei em setembro passado.

Recuando a película para analisar esta TEC tentei manter a vida o mais normal possível. Ignorei aqueles mitos/conselhos que podem aumentar as hipóteses de sucesso. O abacaxi que podia ter consumido continua na natureza, a gelatina deve estar noutros frigoríficos que não o meu, physalis é saboroso mas não comprei desta vez e ainda pensei em arrefecer os pés, só que o calor não colaborou. A massagem mais fértil que recebi foi-me dada pela minha gata, exatamente em cima da barriga com toda a sua sabedoria e vigor. Os únicos momentos em que estive nas palhas deitada aconteceram quando tinha de dormir. Confesso que uma ou outra vez poderei ter pegado em coisas com 6 ou 7 kg. Fui trabalhar no dia seguinte à transferência e foi o melhor que fiz.

Assim como em pratos de culinária muito populares se tenta descobrir o misterioso segredo que no fundo, muitas vezes não existe, esta transferência, no que me compete, foi mais ou menos isso.

A maior diferença foi a introdução do Cartia e do Natalben. Nunca saberei esclarecer se foram esses os condimentos que deram sabor ao beta.

Estou de pés bem assentes no chão, com a plena consciência da dicotomia besta/bestial que pode acontecer num piscar de olhos.

Enquanto na TEC 3 estava inchada, sentia fome, cheguei a equacionar uma gravidez, desta vez só estou a ser incomodada pela gastrite.

Dia 14 volto ao hospital, pode ser que veja magia no ecrã!

Agradeço todo o carinho e ânimo que me têm sido dirigidos. Espero, mais que tudo na vida, que seja desta o final feliz que procuro há 5 anos e 7 meses. Não esquecerei nunca que o bicho papão anda aí a infernizar tanta gente merecedora de dias muitos melhores. Apesar do enorme abalo que traz para a vida tem-me ajudado certamente a encarar os problemas com uma perspetiva diferente.

Somos todos mais fortes do que aquilo que imaginamos.