terça-feira, 18 de julho de 2017

Viver na/para/com infertilidade

No meio de toda a confusão de folhetos promocionais que recheavam a minha caixa de correio, encontrava-se o envelope cujo conteúdo me fez recordar pela milésima vez (hoje) que a infertilidade não me larga.

Dia 10 de agosto farei a histeroscopia. Ela será realizada a 3 meses de completar 6 anos desta novela que deve ser patrocinada por uma conhecida marca de pilhas. Tenho lido umas coisas acerca do que se poderá encontrar aqui no meu t0. Não tenho qualquer pista, por isso estou bastante curiosa em relação ao assunto. O resultado será um abre-olhos e uma etapa determinante nas tomadas de decisão a realizar nos próximos meses.

Ainda não há previsões de quando se irá realizar a TEC 5, mas tenho a indicação que é pouco provável que seja antes de outubro.

Fazendo uma rebobinagem ao que sucedeu nos últimos meses vejo que em abril contactei o hospital para ter luz verde para iniciar o ciclo da TEC, em maio este iniciou, vieram as monitorizações e a TEC. Em junho chegou o primeiro beta e tudo o que seguiu de mau. Em julho continuava a saga dos betas e a definição de nova estratégia. Em agosto vem a histeroscopia... Mais de um terço do ano só para esta parte. Se voltar ainda mais atrás o mês de janeiro também esteve em destaque.

Não estamos no fim do ano e a infertilidade tem sido nota dominante das minhas horas. Vivo-a, respiro-a, sinto-a, desprezo-a.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Beta 8 - fim de mais um capítulo

Ontem foi feita a derradeira colheita de sangue mas o hospital deve ter-se esquecido de me contactar, então hoje telefonei para saber se finalmente se confirmava um resultado negativo. De facto a hormona já cá não circula.

Estava a supor que não tivesse beta-hCG no sangue, porque acredite-se ou não, a minha gata é um detetor muito eficiente. Durante a fase em que a hormona apresentava valores positivos ela massajava-me a barriga e deitava-se ao longo da mesma, quando o seu hábito é deitar-se no meu peito. As massagens costuma normalmente reservá-las para o meu pescoço ou cabelo. Desde meados da semana passada deixou de dar prestar atenção à barriga.

Quinta-feira vou assinar o consentimento para a realização da histeroscopia e só então poderá ser feito o seu pedido.

A hemorragia cessou definitivamente no domingo, ou seja, durou 17 dias desde o início das perdas que anunciavam o aborto até ao fim de semana passado.

Dou por encerrada a TEC 4 e a ilusão de que o fim da tortura era possível.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Beta 7

Pensava que ia agendar a histeroscopia mas o beta ainda está em 621. Daqui a uma semana faço a oitava colheita deste filme interminável que já ultrapassa a série Rocky. Tendo em conta que a hormona pode demorar até 6 semanas a desaparecer do corpo, poderei ter de fazer mais análises. É como se fosse picar o cartão ao hospital. Quando finalmente puder ser agendada a histeroscopia ainda terei de lá ir assinar um consentimento, porque esse exame é considerado ato cirúrgico.

A hemorragia está nos restinhos, daqui a dois dias já não deve haver vestígios de nada.

Aquilo que queria neste momento era encerrar definitivamente este capítulo para o luto não perpetuar indefinidamente. Posso dizer que estou bem, mas há situações que exigem um ponto final para proporcionar mais alívio. Esta é uma delas...

Outra coisa em que tenho pensado é que, o que me traria mais alguma esperança seria que na histeroscopia fosse encontrada alguma anomalia (pólipos ou miomas não detetados nas ecografias), de fácil resolução e que tivesse sido essa a causa das falhas de implantação. Se atender à hereditariedade não é impossível (a minha mãe tinha) e eu mesma tenho desenvolvido pólipos no estômago há muitos anos. Dar-me-ia mais alento esse diagnóstico do que estar tudo bem e ficar a pensar que o problema pode estar centrado nos mini-nós. A dúvida a esse nível persistirá sempre, porque não tenho condições financeiras para embarcar em tudo o que envolve uma PGS.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Nova consulta

Uma vez que ontem fiz ecografia e o sexto beta, hoje a médica analisou as informações deixadas pelos colegas da urgência e achou que não era necessário repetir ecografia. Enquanto o beta não for negativo não poderá ser marcada a histeroscopia. Daqui a uma semana faço o sétimo e espero que seja o último beta desta jornada. Ficou a recomendação de que se tiver dores fortes ou aumento significativo da hemorragia, voltar à urgência.

Desta vez as dores menstruais estão bem presentes. De todas as menstruações que tive depois de uma TEC esta é, sem sombra de dúvidas, a mais abundante e dolorosa. Parece a primeira e única vez que menstruei espontaneamente, lá pelo ano de 1994. Este mau estar está a deixar-me mais abatida, pois faz-me pensar no motivo que o causou.

Somam-se 8 mini-nós nesta conta interminável. "Basta um" ouve-se e lê-se em todo o lado, "à terceira é de vez", "quando menos esperares, acontece". Sou adepta do "ver para crer"...

domingo, 25 de junho de 2017

Bravo guerreiro

Como tinha referido na sexta-feira passada comecei a ter perdas. Iniciaram com um tom castanho, seguido de uma pasta com textura de creme de chocolate, ontem chegaram umas leves cólicas menstruais e hoje, após o almoço, o sangue vivo com vários coágulos. As dores aumentaram de intensidade, há muito tempo que não as sentia assim. Aguentei-me na terrinha até às 18h e quando regressei fui à urgência para me certificar que a proveniência da hemorragia era do útero e não de outro sítio qualquer.

A jovem médica que me atendeu, depois de observar e sentir as entranhas que libertavam coágulos fez ecografia e encontrou uma imagem que lhe parecia um pequeno saco com um descolamento. Mediu-o, procurou batimentos cardíacos mas não estava certa do que tinha à frente. Perguntou-me se não me importava que um colega mais velho viesse dar opinião. Não me importei, obviamente, então entrou um colega que devia ser quase da mesma idade, ambos mais novos que eu certamente. Ele parecia mais seguro que a colega e disse que aquelas manchas seriam coágulos a descolar, não havia líquido que indiciasse gravidez ectópica e o mais indicado seria fazer outro beta. O médico perguntou se já tínhamos jantado pois, como o resultado da análise ainda demorava pelo menos umas 2 horas, podíamos comer alguma coisa no centro comercial junto ao hospital. Assim o fizemos e regressámos à urgência. Neste momento o beta está em 1028, ou seja, estou a abortar. Amanhã de manhã estava previsto fazer ecografia, agora deverá ser encerrar este capítulo e marcar histeroscopia. As dores menstruais são contínuas, podiam dar algumas tréguas.

Este fim de semana tinha entrado nas hipotéticas 8 semanas. O meu bravo guerreiro aguentou-me muito tempo. Foi discreto, um pedacinho de coragem que ousou desafiar as probabilidades e quase me levou a crer em coisas transcendentais. Tornou-se a mais próxima materialização de um filho.

Enquanto lidava com a perda, iam chegando grávidas de 37 e 38 semanas com contrações, que suspeitavam encontrar-se em trabalho de parto e uma mulher bastante decidida que disse querer fazer uma IVG.

A vida, a morte (involuntária ou planeada) num mesmo piso, com expectativas e receios distintos. Um dia marcante na vida de uma pessoa, a rotina de quem lá trabalha.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Consulta

Foi o dia da consulta que marquei antes de saber em que filme esta gravidez se ia tornar. Primeiro fizemos o balanço do que sucedeu nestas últimas semanas. A prioridade é descobrir se a gravidez é ectópica. Caso não o seja, que cenários poderão esperar-se, sendo que o menos provável é o desenvolvimento normal da gravidez. A diretora ainda referiu a possibilidade de ser uma gravidez natural mas expliquei-lhe o motivo de ser impossível e ela concordou comigo.

Depois de analisada a situação da gravidez disse-lhe que marquei a consulta para vermos o que poderá ser feito, partindo do princípio que não tarda muito seguir-se-á outra TEC. Perguntei se havia limitações do hospital para se estudarem as causas deste insucesso ou se teria que o fazer fora. Ela respondeu que o que se faz fora também pode ser realizado lá. A questão é que não há muito a investigar. As trombofilias estão analisadas e o Cartia já foi prescrito empiricamente por não haver uma evidência que justificasse a sua extrema necessidade.
Outra questão que coloquei foi relativa à hipótese do meu sistema imunitário estar a rejeitar os embriões. Algo a tentar futuramente, é adicionar um corticoide, novamente numa base empírica.
No que diz respeito ao endométrio nunca houve problemas em este atingir a morfologia ideal para receber embriões. Foi-me questionado se já fiz histeroscopia e isso ainda não aconteceu. O próximo passo depois de mudar de capítulo vai ser fazer esse exame.

Uma causa para as falhas de implantação poderia ser a qualidade dos embriões, que não se aplica ao meu caso. São sempre bons e nunca houve problemas depois de serem retirados da criopreservação. Não significa, no entanto, que não tenham uma alteração nos cromossomas. Como tanto eu como o meu marido não temos nenhuma doença genética conhecida, o que nos restaria seria a PGS (Pre-implantation Genetic Screening). Desde logo a médica disse que o HSJ, nem qualquer outro hospital público tem dotação financeira para fazer esta técnica que ronda os 10 000 euros. Consiste em fazer-se uma estimulação e aos embriões resultantes retirar algumas células que serão posteriormente estudadas. Até aqui em nada difere de um DGPI. Em seguida recorrendo a marcadores tentam encontrar-se genes para as doenças mais comuns. É então feita a seleção dos embriões com mais hipóteses de sucesso. Pode dar-se a situação de haver embriões com alterações completamente compatíveis com uma vida normal. O que esse estudo não garante, como em qualquer transferência, é que vá resultar numa gravidez bem sucedida.

Um facto é que não são normais todas estas falhas, a Dra S. admitiu-o e agora eu e o meu marido vamos refletir acerca disto tudo.

Depois da consulta fui almoçar qualquer coisa à pressa. Quando cheguei ao trabalho fui à casa de banho e vi o que não queria. Estou com perdas iguais às que tive quando abortei da primeira vez. É noite de S. João com familiares do lado do meu marido, amanhã ele faz anos e domingo vou à terrinha ver a minha mãe com quem não estou desde a semana anterior à Páscoa.

Segunda-feira provavelmente já não se vai encontrar nada na ecografia.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Beta 5

À semelhança do que aconteceu nas análises anteriores o beta aumentou outra vez. Agora está em 1233, com uma evolução a uma taxa aproximada à que se tem verificado desde o beta 2. Ficou definido fazer nova ecografia na próxima segunda-feira pelas 9h, para acautelar a possibilidade de ter de ficar no hospital.

Suponho que a estratégia que elas delinearam foi dar tempo que o beta evolua até um valor que garanta um saco gestacional de boas dimensões, que não dê lugar a ambiguidades na sua localização. A questão do possível internamento ocorrerá provavelmente se se confirmar gravidez ectópica, anembrionária ou ausência de batimentos cardíacos no meu pequeno Nemo.

Mantém-se o plano de contingência a adotar em situação de dor aguda, desmaio ou hemorragia abundante.

A luta está feroz e de todas as fases que têm envolvido a TEC 4 esta é a que me está a dar mais força. Mesmo que não termine da melhor forma, dá-me mais ânimo para enfrentar novas batalhas.

terça-feira, 20 de junho de 2017

À procura de...

Ainda não há total certeza de onde pára o embrião. A imagem não foi conclusiva para gravidez ectópica e no útero apareceu algo que poderá ser sugestivo de um saco gestacional, mas sem garantias. Caso o seja mantém-se a convicção de que a gravidez não vai evoluir, pois neste estágio, se o desenvolvimento estivesse adequado já deveria haver batimentos cardíacos.

Para dissipar as dúvidas em relação à localização do embrião mantém-se a colheita de sangue a cada dois dias para aferir a evolução do beta, enquanto este continuar a aumentar. Pode também a natureza tratar da expulsão durante este período. Amanhã regresso para nova colheita e sexta-feira devo repetir ecografia.

Parece que ando a alimentar vampiros. Vou oferecer o braço direito, porque a veia do esquerdo já acusa alguma selvajaria e precisa de uns dias para recuperar.

Apesar de ser improvável que a gravidez goze de boa saúde durante o tempo regulamentar de uma gestação, estou a estabelecer uma ligação emocional ao meu mini-nós, o qual apelo carinhosamente de Nemo. Ele está a ter a bravura de ficar comigo com a sua presença muito discreta. É corajoso e resistente à sua maneira. Deixa-me orgulhosa pela força que demonstra, pois a ver pelo perecimento dos seus 7 irmãos devo oferecer condições inóspitas à manutenção de uma vida humana. Devo ser uma espécie de Vénus, não a divindade, mas o planeta com a sua atmosfera agressiva de nuvens ácidas que desafiam a integridade do que lá pousar. Mais uma vez tive um daqueles sonhos relacionados com a fertilidade/maternidade. Neste, quando foi feita a ecografia, surpreendi aquela equipa inteira com o desenvolvimento de um embrião sentenciado que, ao contrário das expectativas deu uma volta que ninguém esperava. Acordei um pouco aliviada e menos pesarosa.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Beta 4

Hoje o resultado foi 951. Amanhã faço uma ecografia de urgência, porque há uma elevada probabilidade de ser ectópica. Já se deverá encontrar alguma coisa.

Se esta evolução tivesse acontecido assim há umas duas ou três semanas era razoável. Nestas circunstâncias só um milagre justificaria um progresso adequado. Passei a barreira das 7 semanas de gestação e continuo a caminhar para o 1000.

Amanhã poderei ter uma resposta definida acerca deste mistério.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A saga continua

Colheita feita, resultado 562. Sim, aumentou. O meu coração recebeu a notícia com um ânimo um pouco inocente, a minha razão ficou desapontada. E agora? Pois, a novela vai continuar. Há embrião a desenvolver, não se sabe onde e até quando. Continuo com a mesma condição física das últimas semanas, sem indícios de abortamento ou sintomas de gravidez ectópica, à exceção da progressão lenta da hormona beta-hCG.

Perguntei se devia continuar com a medicação e a indicação é que posso suspender, porque a gravidez não vai evoluir. Segunda-feira volto a fazer colheita de sangue.

Marquei consulta com a diretora, na próxima sexta-feira vamos sincronizar estratégias.

Nas inúmeras pesquisas que tenho realizado, só para valores de beta-hCG acima de 1000 mil é que se consegue visualizar o saco gestacional, o que significa que poderei estar a desenvolver uma gravidez ectópica durante muito tempo sem dar conta. Outro facto é que as FIV têm contribuído para um aumento da ocorrência de gravidezes ectópicas.

Como suspendi a medicação poderei menstruar daqui a uns dias ou não, porque tecnicamente estou grávida. Se em tempos me queixei de um nim, esta situação nem sei como classificar. Deixei de ser humana e passei à condição de ET. Acho que sou uma criatura alienígena propensa a estranhezas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Atualização do beta

Recebi à tarde, enquanto trabalhava, a chamada com o resultado e a realidade é que não se sabe o que se passa. O valor foi 451 e há algumas hipóteses em aberto. A hormona poderá já estar em regressão; algum embrião poderá estar a desenvolver-se lentamente algures no útero ou trompas embora não tenha sido detetado na ecografia; o que é praticamente certo é que a gravidez não vai evoluir.

Não estava preparada para este tipo de cenário, o que veio aumentar a tortura em que isto se tornou.

Sexta-feira vou fazer novo beta e a expectativa da médica é que o valor reduza para dar mais tranquilidade. Se continuar a aumentar vou ser sincera, não sei o que me espera. É-me difícil avaliar como estou, só sei que, enquanto trabalho, tento abstrair-me ao máximo de tudo o que está a acontecer e é muito difícil.

Ficou o alerta de que se desmaiar ou tiver dores intensas devo dirigir-me imediatamente às urgências de obstetrícia por poder tratar-se de uma gravidez ectópica.

Quando for fazer a próxima colheita vou ver se consigo agendar um momento para ter uma conversa sem correrias com a diretora. Irei tentar perceber os limites da atuação do hospital e propor colaborar externamente com a equipa naquilo que me for possível financeiramente.

Em relação ao recurso ao privado como alternativa a este enorme fracasso, atendendo à resposta ovárica que apresento com os injetáveis, as minhas economias ficariam longe de conseguir suportar todos os gastos com a conservação de tantos embriões, respetivas transferências e estudos para averiguar as falhas de implantação. Não tenho capacidade financeira para tanto. Acho que ficaria de consciência muito mais pesada se acabasse por desperdiçar os embriões por não ter como pagar para os criopreservar ou transferir. Não se trata de passividade, conformismo ou vitimização este bater na mesma tecla.

O hospital está claramente a proceder de acordo com normativos muito restritos e generalistas que são insuficientes para quem foge à regra. Aquilo que eu realmente gostava era que mo admitissem e é isso que vou tentar fazer ao conversar com a diretora. Posso ter dificuldade em arcar com a despesa de um tratamento completo, mas tenho uma almofada que me permite apoiar a pesquisa de causas, se o HSJ não o puder fazer. Para isso funcionarei como uma parceira deles para remarmos todos para o mesmo lado. Se, pelo contrário, vir que afinal têm liberdade para proceder de outras formas, aí digo que são mesmo irresponsáveis. Nessa situação verei a possibilidade de transferir os embriões para a clínica Prof. Alberto Barros e encerrar a minha jornada lá, se feitas as contas, tiver capacidade.

Há coisas na minha vida que gostava que tivessem sido diferentes para que esta fase não estivesse a ser tão angustiante mas nem tudo corre como queremos.

Estou exausta.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Suspeitas confirmadas

- Sente-se bem? - perguntou-me a diretora do serviço.
- Estranhamente bem - respondi.
- Gravidez não é doença!
- Sim, eu sei, mas tenho dificuldade em acreditar que possa estar tudo bem.
- Teve perdas?
- Não, não aconteceu nada de anormal.

Começou a busca mas apesar das expressões faciais das três pessoas que estavam a olhar para o ecrã manterem-se neutras, percebi pelos cochichos que algo não estava bem. A determinada altura a procura expandiu para os ovários. Mal a ecografia iniciou vi que não encontravam nada.

- Não há nada no útero nem nas trompas, vai repetir o beta. Apesar de já ser tarde, faz na mesma a colheita de sangue e a Dra A.M. telefona-lhe à tarde para falar consigo. Temos de ver o que se está a passar. Tinha razão nas suas suspeitas. - finalizou a diretora.

Fui ter com a enfermeira à sala de recobro onde duas senhoras recuperavam da punção.

- Mais do mesmo? - questionou-me a enfermeira.
- Sim.

Não estou aterrada, não consigo chorar talvez por estar mais mentalizada que o mau iria sobrepor-se ao bom. Sinto-me em baixo e com vontade de me desligar daqui do meu quotidiano. Infelizmente isso só vai acontecer em agosto. Precisava disso agora. O meu marido ficou abatido, dizia que nunca esteve tão confiante como desta vez. Vamos apostar nos 4 embriões que sobram e depois refletir sobre o futuro, caso essas transferências não resultem.

Aguardo o telefonema da tarde para dar fim a mais uma gravidez relâmpago.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Um passo à frente?

Calma, é o primeiro apelo que tenho a fazer a vocês, maravilhosas companheiras! Está tudo bem comigo, a dinâmica de trabalho está diferente, porque nestas semanas tenho estado debruçada a preparar alunos para exame de nível secundário.

Estou quase a descobrir o que se anda a passar cá dentro e tenho dificuldade em manter-me otimista. Vou explicar agora os motivos.

1 - já me passou pela cabeça que quando fiz o beta (15 dias após a TEC), este poderia estar a regredir por ser outra gravidez bioquímica;

2 - os sintomas que tenho (peito maior e fome) podem ser meros efeitos secundários da medicação;

3 - ainda me custa a crer que tenha capacidade de gerar e manter uma vida em crescimento;

4 - tenho a sensação que ao fazer a ecografia se vai descobrir que os mini-nós pararam de desenvolver há algum tempo e o corpo ainda não deu sinais de que esteja a tentar expulsá-los;

5 - por fim, o chip ainda não está atualizado, porque é bom de mais para ser verdade, admito.

A minha curiosidade em relação ao dia de amanhã é superior à que tinha no dia 1 de junho, porque estou prestes a descobrir se mudei de nível neste jogo. Pelas minhas contas este fim de semana atingi as 6 semanas, pelo que é expectável que se veja alguma coisa do tamanho de uma ervilha, de preferência a piscar vigorosamente e, já agora no útero e não fora dele.

É a segunda vez na minha carreira de profissional de transferências que faço este tipo de ecografia, mas até agora não houve nenhum indício de que algo esteja mal. O meu marido está confiante de que tudo vai correr bem e não precisaremos de nos preocupar com mais TEC ou tratamentos. Queria tanto conseguir pensar assim...

Depois de acabar de escrever isto vou cruzar todos os meus dedinhos.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

5 semanas mais 1 ou 2 dias

É estranha a sensação de alguém dizer-nos que estamos grávidas quando não nos sentimos como tal. Sei que é cedo, há muito tempo para tomar consciência disso até aperceber-me que afinal (ainda) estou nesse estado. Esta conversa é para chegar aos famigerados sintomas que tantas vezes nos enganam. Se tivesse de afirmar convictamente que estava grávida, com base em sinais, seria há 4 meses e não agora. Pois é, os marotos dos efeitos secundários da medicação muitas vezes fazem das suas e andam a confundir-nos ou a criar ilusões. Muitas vezes, quando chega a hora da verdade, alguém dispara sobre nós um balde de gelo para acordarmos para a triste realidade.

Neste momento sinto-me normal (de acordo com os meus padrões), a gastrite tem-me dado férias, a tensão mamária é muito mais ligeira do que em transferências anteriores, o volume abdominal está igual, ao contrário da TEC 3 em que aumentou consideravelmente. Se calhar o peito está um pouco maior mas atribuo para já a responsabilidade ao Projeffik. Não tenho dores no útero nem perdas de sangue. Esta bizarria que é diferente do que aconteceu no passado é que me deixa com reservas em relação ao sucesso desta TEC. Se calhar agora é que estou como devia ser suposto nesta altura. Na vida real não costuma ser assim havendo até quem descobre que está grávida quando está em trabalho de parto?

Apesar de a 1 de junho estar oficialmente grávida, acho que só vou acreditar MESMO quando fizer a ecografia. Aquele pé que gosta de ficar atrás diz-me que esse fenómeno (gravidez) é algo que não me assiste. Que posso eu fazer, sou assim!

Vamos falando aqui por casa de como estão a correr os dias mas curiosamente ainda não abordámos assuntos de caráter logístico ou factos relacionados com o(s) nosso(s) filho(s). Acho que só teremos coragem de começar a pensar e pôr mãos à obra depois das 15 semanas.

Esta sexta-feira vou finalmente ter consulta com a minha médica de família. Foi preciso esperar 4 meses pela dita e se correr tudo bem não vou poder concretizar para já o objetivo da marcação que era ter uma requisição para realizar a endoscopia que tenho de fazer anualmente. Aliás, por causa desta sequência de tratamentos e transferências já deixei passar dois anos e meio, que para mim pode ser um pouco perigoso dado o meu historial clínico. Conjugar os tratamentos com o tempo que tenho de aguardar por consulta na médica de família e ainda agendar a endoscopia torna-se uma tarefa complicada quando tudo está dependente dos timings do SNS.

Como já afirmei em tempos, desejo que a gravidez seja acompanhada no HSJ e não na minha área de residência, pois o HPH não foi suficientemente correto quando fui seguida nas consultas de infertilidade. Vou referir isso na sexta-feira e tenho a certeza que a minha médica vai compreender. Não tenho nada contra ela, pelo contrário, há contudo coisas na unidade local de saúde da zona que deixam um pouco a desejar. As condições da maternidade e do acompanhamento do pai até podem ser mais interessantes que no HSJ mas aqueles 3 ou 4 dias da altura do parto não vão determinar a minha escolha face às várias semanas em que serei vigiada. Se alguém tiver experiência no seguimento pré-natal do HSJ que não se importe de partilhar, sou toda olhos :)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ainda sobre o beta e a TEC 4

Agora que a poeira assentou um bocadinho aqui para estes lados, estou com mais discernimento e disponibilidade para acrescentar umas palavras.

Em primeiro lugar, não houve nenhuma noite pré-beta em que não tivesse sonhado sobre esse dia. Enquanto nas anteriores dava por mim já gravidíssima e era a última a aperceber que me encontrava nesse estado, desta vez foi diferente. Sonhei com um número concreto, 110. Falhei por pouco no valor. Ainda bem que foi quatro unidades superior e não inferior, mas andei lá muito próximo.

Ao falar com a médica, que foi a primeira que conheci naquele serviço e quem me realizou a transferência, ela parecia mais descansada pelo resultado do que eu.

Não explodi de alegria, porque ao longo dos anos fiquei formatada para receber más notícias. Disse-lhe que apesar de não parecer, era aquilo que mais queria ouvir na vida, só que me faltava mudar o chip para me adaptar à novidade.

A conversa com a enfermeira com quem estive depois da boa nova deixou-me com um estado de espírito muito diferente daquele com que fiquei em setembro passado.

Recuando a película para analisar esta TEC tentei manter a vida o mais normal possível. Ignorei aqueles mitos/conselhos que podem aumentar as hipóteses de sucesso. O abacaxi que podia ter consumido continua na natureza, a gelatina deve estar noutros frigoríficos que não o meu, physalis é saboroso mas não comprei desta vez e ainda pensei em arrefecer os pés, só que o calor não colaborou. A massagem mais fértil que recebi foi-me dada pela minha gata, exatamente em cima da barriga com toda a sua sabedoria e vigor. Os únicos momentos em que estive nas palhas deitada aconteceram quando tinha de dormir. Confesso que uma ou outra vez poderei ter pegado em coisas com 6 ou 7 kg. Fui trabalhar no dia seguinte à transferência e foi o melhor que fiz.

Assim como em pratos de culinária muito populares se tenta descobrir o misterioso segredo que no fundo, muitas vezes não existe, esta transferência, no que me compete, foi mais ou menos isso.

A maior diferença foi a introdução do Cartia e do Natalben. Nunca saberei esclarecer se foram esses os condimentos que deram sabor ao beta.

Estou de pés bem assentes no chão, com a plena consciência da dicotomia besta/bestial que pode acontecer num piscar de olhos.

Enquanto na TEC 3 estava inchada, sentia fome, cheguei a equacionar uma gravidez, desta vez só estou a ser incomodada pela gastrite.

Dia 14 volto ao hospital, pode ser que veja magia no ecrã!

Agradeço todo o carinho e ânimo que me têm sido dirigidos. Espero, mais que tudo na vida, que seja desta o final feliz que procuro há 5 anos e 7 meses. Não esquecerei nunca que o bicho papão anda aí a infernizar tanta gente merecedora de dias muitos melhores. Apesar do enorme abalo que traz para a vida tem-me ajudado certamente a encarar os problemas com uma perspetiva diferente.

Somos todos mais fortes do que aquilo que imaginamos.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Beta - TEC 4

Sem rodeios, fiquei abismada quando a médica me disse sem papas na língua "Parabéns, o beta foi 114". Enquanto processava mentalmente o que tinha acabado de ouvir só pensava que aquilo não estava a acontecer.

Minutos antes tinha visto um casal a vir do gabinete da médica em que a esposa estava cabisbaixa e a chorar. Eu, pelo contrário, pouco depois estava a ouvir a melhor notícia do ano, mas não a conseguia sentir verdadeiramente por parecer inacreditável.

Claro que perguntei se não era suposto nesta altura ser mais elevado. Ela disse que é um valor perfeitamente normal e ultrapassando 100 dá um pouco mais de tranquilidade. Há sempre a possibilidade de correr mal, mas isso pode acontecer em qualquer gravidez.

Como daqui a nada vou trabalhar, logo à noite escrevo mais um pouco.

Para já habemus criança(s)!

Colheita - TEC 4

Como é habitual, quando fui atendida na receção, perguntaram-me se menstruei. Mencionei as perdas que ocorreram e uma hora depois da marcação fui chamada para a colheita. A enfermeira que em tempos me disse para esquecer a gravidez quis saber se as perdas se assemelhavam a menstruação, ao que respondi negativamente. Ela estava hesitante se devia ou não tirar sangue e acabou por fazê-lo. O meu cérebro pensou "esta TEC já era".

Estou serenamente a aguardar pelas 13h para estar novamente no hospital e ouvir o mais óbvio.

Esta noite sonhei que o beta tinha dado 110, o que para esta altura não seria muito bom tendo em conta a gravidez relâmpago que tive e a transferência ter sido a 17 de maio.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dia 15 - TEC 4

Está a chegar ao fim esta etapa. Algo me diz que ainda não é altura de me despedir das TEC. Penso que se seguirão mais duas, que concluirão a chacina da minha dúzia de mini-nós. E depois nova tentativa de FIV... o último tratamento que estou disposta a fazer.

Tenho de me mentalizar que mesmo que essa FIV não dê em nada, não foi por falta de persistência. A vida seguirá o seu rumo, seja ele qual for.

Há muitos anos assisti à morte do meu pai que sofreu da maldita doença que ensombra todos, sem olhar a elites, idades ou géneros. O cancro, no sentido literal da palavra, levou uma parte da minha existência. Quando chegou esse dia só pensava no que aconteceria em seguida, como seria a vida. A realidade é que vai em frente, uns momentos mais difíceis que outros. Passaram 14 anos e uns meses e não há um dia em que não pense no que aconteceu. A vida, essa, continua, por muito que nos custe a admitir a nós mesmos.

Se não for mãe biológica, tenho a felicidade de ser mãe de coração da filha do meu marido, que tem um desejo enorme de ter irmãos. Digo-lhe muitas vezes que dada a lentidão do meu sistema (corpo), serei avó antes de ser mãe biológica. Não posso esquecer a minha menina peluda, que para quem não é aficionado de animais de estimação pode achar uma aberração o que vou escrever a seguir mas considero que adotá-la foi das melhores coisas que fiz e noto que ela sente o mesmo :)

Tenho de me agarrar ao que me faz feliz para encarar com mais sabedoria os desafios que me serão postos à frente. A minha consciência está em paz.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Dia 14 - TEC 4

A pouco mais de um dia para saber o que me aguarda sinto uma estranha paz... Aquele pânico que se apoderou de mim há dias, quando começaram as perdas, deram lugar a uma calma que não esperava nesta altura.

Não sei se este sentimento é motivado pelo facto de hoje praticamente não ter detetado corrimento colorido, mas mesmo quando ainda tinha perdas, já estava a ficar mais serena.

Se o resultado for negativo acho que não vou desesperar. Estou menos preparada para um positivo daqueles bem evidentes, porque caso isso aconteça, estarei a entrar no desconhecido. Por mais bizarro que pareça, o insucesso está a transformar-se na minha zona de conforto. A repetição de um nim deixar-me-á irritada.

São só suposições que estou a fazer em relação ao meu estado de espírito. Verdade seja dita, só na quinta é que vou saber a minha reação ao beta.

Estou contente por estar assim naïf quanto ao resultado. Convenço-me cada vez mais que saber apenas no dia do beta é o melhor a fazer. Não é uma questão de coragem, penso mais que se trata de preservar a pouca sanidade mental que vai sobrando quando se está mergulhado nestes processos. Há muitas oportunidades para desesperar, não vale a pena estar a criar mais uma.

Toda a experiência que estou a vivenciar na infertilidade não me torna sábia ao ponto de poder dar um vasto rol de conselhos acertados. Está a fazer-me perceber que tudo passa a ser relativizado. Quando pensamos que estamos a dar um passo à frente, muitas vezes dão-se dois para trás ou volta-se à estaca zero. O que se torna uma etapa concretizada, logo de seguida pode tornar-se no maior pesadelo.

Quero porém tranquilizar as mentes inquietas que estão bem no começo. Os infortúnios não aparecem a toda a gente, em catadupa. Há felizmente muitos casos que engrenam numa cadência de eventos favoráveis e não demoram muito a dar frutos.

Na infância não acreditava no bicho papão. Dei de caras com ele na idade adulta e o filho da mãe não me quer largar. Cabe agora perceber se sou eu que lhe vou dar uma sova ou se é ele que me vai fazer hastear uma bandeira branca e render-me à sua malvadez. Para já estou determinada em espancá-lo!

Já que pelos vistos há a moda das correntes, sugiro que se faça uma destinada a aniquilar o maldito verme da infertilidade. Leiam e repassem :)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Dia 13 - TEC 4

Hoje notei uma pequena redução nas perdas. Um levantar rápido de uma cadeira ou o sair do carro causa uma dor no fundo do abdómen semelhante às cólicas menstruais intensas que antecedem a saída de muito fluxo.

A tensão mamária já se faz sentir um pouco ao caminhar devido ao peso do peito.

Faz-se na cabeça a contagem decrescente. Parece que está a terminar o período de votação de um talent show em que se vai decidir se tenho ou não aptidão para ganhar o prémio maior. A fase de castings foi dura, as audições deram luta, as galas anteriores correram mal. Não sei se o júri me vai dar um voto de confiança.

domingo, 28 de maio de 2017

Dia 12 - TEC 4

O Projeffik continua com cor, a tensão mamária está a chegar. Nalgumas alturas em que me levantei mais rápido senti pontadas no fundo da barriga que duravam uns 3 segundos.

Neste momento estou com enxaqueca, o que é habitual em mim em tempo de trovoadas.

Faltam 4 dias para o veredito. Nas outras TEC o beta foi realizado 12 ou 13 dias depois, por isso amanhã já seria um dia seguro para fazer a colheita de sangue. Não sei o que motivou a marcação para um prazo de 15 dias, suponho que seja para não sobrecarregar o serviço. Espero que desta vez esteja frente a frente com a médica e não tenha conhecimento da notícia por via telefónica.

Ontem o meu marido lembrou-me que a enfermeira alerta sempre para a normalidade da ocorrência de sangramentos antes de fazer o beta. É nisso que me estou a agarrar agora.

Dia 11 - TEC 4

Foi de todo impossível realizar ontem a atualização do diário da TEC. Não se assinalou nada de diferente.

As perdas continuaram por cá com a sua pequenina intensidade. Não vale a pena andar a desesperar antecipadamente sem ter a noção do que elas significam. Menstruação não é de certeza e isso é bom sinal.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Dia 10 - TEC 4

As perdas continuam iguais a ontem, não sinto dores nem pontadas ou algo que se assemelhe. Não há tensão mamária nem aumento do volume abdominal.

Cada TEC teve a sua especificidade o que adensa o mistério do resultado. Aquilo que me parece é que o meu corpo vai criando habituação às hormonas, pois os efeitos secundários vão sendo cada vez mais tardios.

Se nestas últimas 24 horas tive momentos em que senti que também perdi estes mini-nós, noutras alturas tento agarrar-me a uma esperança pueril que estas perdas inesperadas podem ser sinónimo de força e vitalidade dos meus pequenos. Se isto não tivesse acontecido tenho a certeza que continuava tranquila, como desejava neste período. Fiquei com as voltas trocadas e a angústia está a apoderar-se dos meus pensamentos.

Dei por mim a ponderar comprar um teste de gravidez mas o efeito do resultado podia ser pior para o meu equilíbrio. Vou manter-me na espera até dia 1 de junho...

Dia 9 - TEC 4

No final da manhã senti algo semelhante a dores menstruais e a má surpresa veio à tarde, quando vi no pensinho um ténue corrimento colorido. Agora à noite a perda de sangue intensificou ligeiramente ficando vestígios do mesmo ao colocar o Projeffik. O endométrio deve estar aflitinho para descamar só que a progesterona anda a retardar o processo. A esperança pequenina está a esmorecer. Daqui a uma semana deverei suspender mais uma vez a medicação para dar fim a este protocolo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Dia 8 - TEC 4

Pela primeira vez nesta TEC senti algumas pontadas ali para os lados do ovário direito. Pode muito bem ser fruto da medicação, pois nas transferências negativas aconteceu algo do género.

Esta semana está a passar devagar e perspetiva-se que continue um pouco preenchida, o que até é bom. Daqui a nada já saberei se os mini-nós terão considerado o meu aconchego hostil.

Por razões de organização laboral dava jeito saber neste momento a minha disponibilidade nas próximas semanas, pois vem aí a fase da preparação para os exames nacionais de secundário. O resultado do beta definirá se estarei inteiramente disponível para os alunos ou se deverei realizar algum ajuste para garantir a melhor solução.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Dor na infertilidade

"Sentes dor?" É uma questão que surge habitualmente e tem toda a legitimidade de ser colocada, ao contrário de outras inconvenientes.

Na infertilidade podem estar presentes dois tipos de dor: física e emocional. A última é claramente a pior e aquela que é indissociável desta doença. A dor física, sobre a qual vou dedicar a minha atenção não existe sempre.

Pode experimentar-se dor ainda na fase de diagnóstico da causa de infertilidade e durante os tratamentos.

Quem sofre de uma condição chamada endometriose sente (muita) dor, bastante tempo antes de ser feito qualquer diagnóstico. Não me vou debruçar sobre esse tema, porque não tenho conhecimento de causa, há pessoas muito mais habilitadas do que eu para o fazer. Vou focar-me naquelas que me são familiares e, à semelhança de outros assuntos que abordei no blogue, não são a regra para todas as mulheres. Tenho umas condições específicas que enquadrarei na descrição para não assustar quem está curioso ou aterrou recentemente no planeta da infertilidade e aqui no meu espaço.

Após os tempos definidos para o encaminhamento em consultas de infertilidade é da praxe a realização de análises e exames complementares que vão ajudar a delinear o percurso para combater a maldita.

As colheitas de sangue poderão custar a quem tem fobia às agulhas. Pessoalmente nunca tive qualquer problema e não podia ser de outra forma, porque ao longo da vida fiz muitas dezenas de análises sanguíneas.

Para averiguar a permeabilidade das trompas solicita-se a realização de um exame de nome pomposo que tanto pode ser um filme de terror como algo complemente inofensivo. A histerossalpingografia foi, para mim, algo totalmente suportável, senti como que uma dor menstrual. Quando as trompas têm livre trânsito, geralmente não há queixas. Nalguns locais recomendam a toma de analgésico, no Hospital Pedro Hispano não houve indicação de nada.

Há quem faça ainda histeroscopia mas não posso comentar, pois nunca realizei nenhuma.

Ecografias, que vão ser o pão nosso de cada dia, à partida parecem inofensivas, contudo abordarei mais à frente uma exceção que me aconteceu.

Sobre os tratamentos, um procedimento banal é a prescrição de indutores ovulatórios orais. Não passam de uns comprimidos e exigem monitorização dos ovários durante a sua toma, pois há o risco de ocorrência de hiperestimulação. Comigo os comprimidos não funcionaram, não senti qualquer dor nesses ciclos e a quem produzem resultado, normalmente não há nada de relevante a apontar.

Agora os temíveis injetáveis... Nada de especial, mesmo. Há coisas piores na vida que umas agulhinhas que incomodam menos que uma picada de melga. Sim, houve dias em que senti qualquer coisa mas a aplicação das injeções é das etapas mais fáceis de todo o drama da infertilidade. Quem está de fora fala automaticamente das injeções e julga que isto é o grande bicho de sete cabeças. Nah! Nada disso. A complicação pode estar nos efeitos das "picas". Isso senti bem, não pelos hematomas que apareceram, mas pela intensa labuta que se gerou cá dentro. Em ambiente normal os meus ovários são pequenos vulcões extintos. O que aconteceu em fevereiro do ano passado foi o acumular de um trabalho que eles nunca fizeram na vida. Perto de 40 folículos em disputa culminaram na Síndrome de Hiperestimulação Ovárica e isso doeu, e muito. Há quem tenha hiperestimulação e pouco ou nada sinta, a maior parte das vezes as mulheres não hiperestimulam, tranquilizem-se. Anteriormente referi as exceções nas ecografias. Quando os meus ovários estavam tão ativos como uma máquina de fazer pipocas, a realização de ecografias era penosa principalmente na contagem e medição dos folículos. Posso dizer também que a sensibilidade de quem as realiza influencia. Um médico experiente fê-lo sem me incomodar praticamente nada, enquanto noutra altura uma estagiária decidiu fazer uma visita de estudo de 20 minutos, divertindo-se à brava com o cenário dantesco que tinha à frente dela. Escusado será dizer que sofri mas ela devia estar a pensar que eu era daqueles modelos anatómicos usados nas aulas.

As atividades do quotidiano eram feitas com muito custo. Qualquer movimento que exigisse (pouco) esforço do tórax para baixo tornava-se cada vez mais uma tarefa difícil.

Acerca da punção folicular. A colocação do catéter não é das melhores sensações para quem tenha veias finas como eu, mas suporta-se. A punção em si é feita sob sedação, logo dorme-se e até se sonha! O acordar para mim e respetivo recobro... ui, ui, foi muito duro! Friso novamente que se deveu à hiperestimulação. Após acordar, a maioria das mulheres está fresca que nem uma alface e pronta para outro round, não entrem em pânico. A semana após a punção não foi fácil, mas tudo ficou resolvido.

Relativamente às transferências, nada a registar. Pode haver incómodo se não acertarem na colocação do espéculo. A introdução dos embriões é totalmente indolor.

Falta apontar que há outras técnicas que estão associadas a sofrimento físico, contudo como não recorri a mais nada, não podia falar na primeira pessoa. Quem sabe alguém não se importa de partilhar aqui as suas experiências?

Se o episódio da hiperestimulação não tivesse ocorrido, podia considerar que do ponto de vista físico, tudo aquilo que fiz até ao momento não teria envolvido dor. O facto de estar a fazer esta assunção não desvaloriza a dor maior que se entranha no cérebro, coração e alma, a verdadeira dor, que aos olhos dos outros é muitas vezes considerada como inferior, sem sentido ou até ridícula.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Dia 7 - TEC 4

Continua o mistério, um vazio de sensações, penso que motivado por uma maior abstração. Ando com a cabeça mais ocupada, a opção por uma vida dentro do que é habitual ajuda a libertar um pouco da tensão típica deste período.

Falta mais de uma semana até me deslocar ao piso 3 para ter conhecimento do sim, não ou nim. Acho que estou mentalmente mais preparada para receber outro negativo do que um positivo. Se correr mal, certamente sentirei alguma raiva ao ter conhecimento mas imagino que o choque e a indignação serão menores que das primeiras vezes.

Até quando? Já estabeleceste um limite?

Em novembro de 2011 deu-se o início desta caminhada que, até agora, tem sido infinita. São 5 anos e meio da maior teimosia da minha vida.

Como referi no post anterior, nestes dois dias, algumas pessoas perguntaram-me se já estabeleci ou refleti até quando vou continuar nesta luta. Se até há uns 8 meses ainda não tinha definido muito bem, de uma coisa tenho a certeza atualmente, a minha consciência diz-me que ainda é cedo para parar.

Não sei por que motivo, há muito suspeito que os 12 mini-nós não serão suficientes para concretizar o nosso objetivo (meu e do meu marido). Se em janeiro de 2018 o hospital mantiver a palavra relativamente à possibilidade de fazer mais uma FIV, será essa a derradeira hipótese (partindo do princípio que se conseguem obter embriões). Caso haja repetição de uma multiplicidade de mini-nós, esgotá-los-ei se for preciso. Numa situação extrema de insucesso, dou por finda a guerra, baixo as armas, rendo-me às evidências e sigo a vida em paz comigo mesma.

Imagino que ao realizar outra estimulação vá hiperestimular outra vez, porque aqueles dois filhos da mãe (ovários) não têm meio termo. Estou disposta a passar por isso uma última vez.

Fazendo uma retrospetiva, este é o décimo segundo procedimento que está a ser realizado, embora não o pareça. Pela opinião da minha mãe eu já deveria ter desistido. Entristece-me vê-la reagir dessa forma, principalmente porque não tem netos e seria provavelmente a única hipótese de ser avó. Por outro lado compreendo a perspetiva dela, pois está a colocar o meu estado de saúde acima da questão da perpetuação da família. Não vamos ser inconscientes ao ponto de ignorar os riscos a médio e longo prazo que estas bombas hormonais fazem ao nosso corpo. Quanto mais tentativas forem realizadas, maiores as probabilidades de algumas coisas desagradáveis acontecerem.

Infelizmente não tenho um background familiar muito simpático no que toca a coisas chatas e complicadas, daquelas que não têm resolução possível. A minha própria história foi, desde sempre, marcada por visitas frequentes a médicos e vi no rosto da mãe todo o seu sofrimento quando eu não estava bem. Ela quer, no fundo, resguardar-me do sofrimento.

O próximo post será sobre dor.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Dia 6 - TEC 4

Mais do que sentir fisicamente algo, pois nada aconteceu, o dia foi marcado por uma paz de espírito que me invadiu. Por mais que tenha pensado não tenho nada a destacar que mereça interesse do ponto de vista da TEC propriamente dita.

O post ao qual vou dedicar a minha atenção, imediatamente a seguir a este, é fruto de uma questão que me foi colocada algumas vezes nestes dois últimos dias, por pessoas que têm conhecimento desta minha longa luta.

domingo, 21 de maio de 2017

Dia 5 - TEC 4

Nada, nothing, niente, gar nitcht, rien... À exceção da dor da gastrite que me acordou às 6h da manhã.

Zero tensão mamária, zero fisgadas, zero enjoos provocados pelo Estrofem, zero sinais de sangue. Reina a nulidade o que, a meu ver, é normal para esta altura.

Este relatório diário das quatro TEC parece muito repetitivo mas é um alerta para quem procura, a todo o custo, um sinal que indique que algo se está a passar. Como se pode ver é muito mais frequente o padrão da ausência de "evidências" do que a sua presença. Aquilo que se verifica muitas vezes em fóruns é pessoas que se encontram na espera do beta, perguntarem a quem já passou pela experiência do positivo, quais os sintomas que detetaram. Essa ânsia de indícios provoca quase um efeito de hipocondria que não é mais que induzir o cérebro a produzir uma sensação que queremos que aconteça. Esse é o maior inconveniente dos dias que sucedem uma transferência, habitualmente considerado como a pior fase de um tratamento para a infertilidade.

Na minha perspetiva a espera pelo beta não é o pior. Há vários momentos que são igualmente enervantes, porque até ao instante em que um filho é finalmente posto nos braços, com saúde, há uma infinidade de vitórias a conquistar. O objetivo máximo não é o positivo, este pode vir a valer zero.

sábado, 20 de maio de 2017

Dia 4 - TEC 4

O suposto dia de verão não foi assim tão quente no Parque da Cidade, pelo menos à sombra.

Reina a harmonia, o dia do beta ainda está longínquo, não vale a pena dedicar ainda os meus pensamentos a essa data.
Não se passa nada de atípico e, tal como referi ontem, foi como se não tivesse feito a transferência. Num cenário otimista os mini-nós estarão em fase de implantação e a libertação de beta-HCG poderá ter iniciado. É difícil acreditar nisso, mas nunca se sabe. Volto à teoria das probabilidades de 50%.

Se durante muito tempo julgava que o meu único bloqueio seria acordar os ovários e que a partir daí a tarefa estava facilitada, estes dissabores do insucesso vieram mostrar que a infertilidade não está aí para brincar.

Amanhã é um novo dia.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Dia 3 - TEC 4

A gastrite de estimação regressou, por enquanto, de forma não muito intensa. É uma malvada que me incomodou bastante durante uns anos. Deu tréguas algum tempo, no entanto de há uns meses para cá, tem-se manifestado quando ando nestes processos de TEC, devido à medicação.

Gastrite à parte está tudo sereno, como se não tivesse acontecido nada de mais há dois dias e os mini-nós continuassem no fresco do laboratório.

A minha miúda de longa bigodaça e cauda de guaxinim é o meu grande escape para a descontração. Oferece-me a sua barriga fofa onde me perco a fazer massagens.

Parece que amanhã vem uma espécie de verão, vou aproveitá-lo na medida do possível.

Dia 2 - TEC 4

Do ponto de vista anímico acho que o melhor que fiz hoje foi ter ido trabalhar. Apesar de ter havido alguns momentos em que pensei na TEC foi de uma forma muito dispersa e mais focada nas horas em que tinha de tomar a medicação.

Relativamente à problemática do Estrofem, passei parte da manhã a contactar farmácias para não andar a fazer a ronda às capelinhas e sair de mãos a abanar. Naquelas em que consegui falar com alguém, nenhuma tinha o medicamento disponível, assim como os respetivos fornecedores. Numa delas decidiram comunicar diretamente com o laboratório e uns minutos depois deram-me o feedback. Curiosamente o laboratório não tem previsão para distribuição do Estrofem.

Pergunto-me eu, é possível fazer isso sem dizer a ninguém que distribui, comercializa ou prescreve?

Milagrosamente o meu marido conseguiu uma caixinha numa farmácia que não tinha atendido a minha chamada.

Amanhã vou informar o hospital desta situação para que não o prescrevam a outras pacientes. Evita-se o aumento dos níveis de stress pelo desespero de não se encontrar a medicação toda. Lembro-me do sufoco que senti no ano passado quando precisei começar uma injeção exatamente no dia em que me foi receitada e não havia a dosagem pretendida em lado nenhum. Não sabiam de nada no hospital e, aparentemente, já há alguns dias que não estava disponível.

Espero que os mini-nós estejam ativos e se sintam confortáveis na minha mansão luxuosa.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

TEC 4

Precisamente um ano depois da primeira TEC realizei a quarta transferência dos mini-nós 7 e 8 que, segundo a embriologista, são muito bons. Foram descongelados ontem e evoluíram lindamente.

Vi com grande nitidez o endométrio muito espesso e o pontinho brilhante que indicava que os meus belos embriões tinham entrado nas catacumbas.

Já todas as médicas do serviço me efetuaram transferências. Noto na equipa o início de alguma preocupação nas falhas de implantação e hoje em off, recebi a sugestão de substituir o Acfol ou Folicil pelo Natalben pois, além de conter esta substância tem também vitamina D e outros componentes. Estudos recentes apontaram que a vitamina D auxilia a implantação dos embriões.

A espera para o próximo beta vai ser looonga... No dia da criança, ou seja, 1 de junho saberei o resultado.

Tenho um alerta a fazer às meninas que andam a usar o Estrofem. Não sei que raio se passa, mas desde a semana passada que aquilo parece ser a última Coca-cola do deserto, porque está esgotado nas farmácias e os fornecedores não têm stock. Na semana passada consegui uma última embalagem depois de ter ido a alguns locais e hoje continua a secura. Tenho o suficiente até sábado, mas caso não arranje até esta sexta-feira terei de contactar o hospital para arranjar uma alternativa. Está mais difícil de encontrar do que as injeções, não esperava.

Não estou em modo menino Jesus (deitada ou estendida), vou limitar o levantamento de coisas pesadas principalmente durante os primeiros três dias, mas amanhã estarei no ativo.

Sou uma felizarda por todos os descongelamentos terem corrido bem até agora, pelo endométrio não ter pregado partidas e ser rápido a ficar no ponto. Se não for pedir muito, gostava de dar um passo à frente para outro patamar mais agradável. Em 12 meses foram 8 mini-nós que alberguei e isto já é significativo.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Reina a beleza novamente!

O meu endométrio tem-me habituado a mostrar toda a sua exuberância que, até ao momento, tem sido inútil... Está bonito, novamente, por isso a TEC 4 ficou agendada para o dia 17 de maio, exatamente um ano depois da primeira. Sinceramente a avaliação do estado de beleza dele já não me importa, o lado positivo disto é que até agora nunca foi preciso cancelar nenhuma transferência por problemas na evolução do endométrio.

Mentalizei-me que vou repousar apenas no dia da TEC, mesmo que recomendem mais tempo. Irei trabalhar logo no dia a seguir e tentar fazer a vida o mais normal possível sem physalis, gelatinas e outros extras que nesta altura mais parecem roçar charlatanismo.

A diligência nos processos anteriores em nada resultou. Não vou dizer que estou numa fase I don´t care, mas quatro transferências num espaço de um ano satura a sanidade mental, especialmente tendo o passado corrido mal.

Há uma micro-esperança num fundinho bem recatado. Será um azar muito grande se, em 12 mini-nós, nenhum tiver um destino diferente daquele a que me tenho vindo a acostumar, contudo é uma hipótese que não posso colocar de parte.

Uma coisa já sei, não serei mãe com 37 anos.

O Estrofem passa a ser de 3 comprimidos diários e sábado à noite inicio o Projeffik.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Nova temporada - TEC 4

Assim como numa série televisiva regresso à rotina. Não há muitas alterações no script, daqui a uns episódios vão integrar no elenco as personagens mini-nós 7 e 8.

Andei foragida dos teclados durante este interregno para me dedicar um pouco a... mim. Precisava desta licença, porque durante demasiado tempo deixei de lado o meu equilíbrio. Se em janeiro andava cheia de ideias, planos, suposições, dúvidas, decidi deixar tudo isso de parte e focar-me em me, myself and I. Tive de o fazer...

Estou grata por todo o feedback que recebi entretanto, lamento não ter respondido a ninguém. Nos próximos dias vou inteirar-me das novidades das mulheres maravilhosas que também fazem parte deste mundo estranho.

Agora vamos aos factos. Contactei o hospital para saber se tinha luz verde para recorrer ao meu velho amigo Provera. Após aprovação veio o primeiro dia de sangue vivo, liguei novamente para o piso 3 e assim agendei ecografia para o terceiro dia do "ciclo". A suposta data seria amanhã, contudo esta manhã fui brindada com uma chamada para perguntar se podia ser ainda hoje, porque amanhã vai reinar o caos na Medicina de Reprodução. O meu coração sorriu com a proposta e lá fui, feliz da vida, para o hospital. Finalmente ia esclarecer algumas dúvidas e dar início a esta nova temporada.

Quem fez a ecografia foi a diretora do serviço e a dita "reunião de equipa" referida no telefonema do famigerado dia 30 de janeiro deve ter sido a microconversa de aproximadamente 10 segundos, que aconteceu entre essa mesma médica e outra que entretanto foi à sala de ecografia. Eu estava de um lado do biombo a vestir-me e elas do outro lado, a trocar impressões.

Na consulta fui logo informada que poderia iniciar hoje os 2 comprimidos diários de Estrofem e o ácido fólico. Lembrei que há mais de um ano que não fazia controlo da TSH e T4, ela confirmou no computador e acabou por pedir novamente as análises às imunidades (toxoplasmose, ISTs). Enquanto a médica preenchia a nova folha para acrescentar ao processo verifiquei que ela estava a escrever que esta seria a terceira TEC. Corrigi-a e quando ela viu as folhas que estavam para trás, verificou que havia umas quantas erradas, porque alguém colocou que tinha feito uma transferência na FIV. Tal não aconteceu porque hiperestimulei, nunca fiz uma transferência a fresco. Quando caiu na realidade que esta é a quarta TEC foi ver se já tinha feito despiste às trombofilias. Disse então que, apenas de forma empírica e porque não faz mal nenhum, desta vez vou acrescentar o ácido acetilsalicílico, ou seja, Cartia. Comecei também hoje e daqui a pouco mais de uma semana, o meu organismo vai estar a receber 9 comprimidos diariamente.

Fiz há tempos uma estimativa da quantidade de comprimidos que tomo desde a preparação de uma TEC até ao dia do beta e são mais de 200. Entrando também o Cartia na fórmula, em pouco mais de 30 dias, é só fazer as contas... Se o resultado do beta for positivo, esta medicação manter-se-á até às 12 semanas de gravidez.

Esta ligeira alteração no protocolo deixou-me mais animada, era algo que já gostava de ter tentado na transferência anterior. Não é garantia de sucesso mas diminui um pouco a sensação de impotência.

Mencionei que como soube o resultado da TEC 3 por telefone, não tive relatório da mesma. Ela ficou admirada de não terem enviado pelo correio e algures no meu processo vagueava a folha que deveria ter sido expedida. Lá estava TEC nº 2 quando deveria ser 3 e ao lado da assinatura da profissional que o fez, uma gralha na data.

Questionei o que acontecerá na eventualidade de os 6 embriões que restam terem o mesmo destino dos anteriores. Pensei que ia ter alta, pelo número elevado de TECs sem resultado e pela idade tardia, mas afinal não! Está previsto ter oportunidade de fazer outra FIV e o melhor é que pode ser logo a seguir à última TEC, porque o critério de um ano de espera que usam é relativamente à data da última estimulação. Como tive um número anormal de embriões, na altura em que farei a derradeira transferência (caso necessite) já terão passado praticamente 2 anos desde a estimulação. Aquilo que eu pensava inicialmente era que consideravam a data da transferência mais recente, ou seja, só com 39 anos faria nova FIV. Eu e o meu marido já falávamos de tentar no privado caso fosse dada alta ao terminarem os embriões ou tivéssemos de aguardar outro ano até nova FIV. Com a quantidade de mini-nós que obtivemos teria gasto uma pequena fortuna entre criopreservações e transferências. Há muitos anos, ainda antes de haver uma decisão mútua de termos filhos, consegui juntar uma parcela destinada apenas a PMA que teria esgotado com a minha dúzia se o tratamento tivesse sido realizado no privado. Estávamos a deixar essa quantia reservada para nos dar suporte, nos primeiros tempos, no caso de virmos a ser bem sucedidos no HSJ. A notícia de hoje deixou-me mais confortada, porque significa que posso adiar a ida ao privado, uma vez que será tudo seguido.

Aproveitei a consulta para perguntar como vou identificar que entrei na menopausa. Se alguém deu de caras apenas com este post e não leu o que está atrás, deve pensar que é muito óbvio. Comigo não é assim, não funciono como a maioria das mulheres. Vou ter de me basear na idade média em que as mulheres portuguesas entram na menopausa, ou seja, 50 anos e nessa altura paro de tomar Provera durante uns 3 meses. A seguir faço análise à FSH e se esta tiver um valor aumentado, voilà, eis-me no fim do prazo de validade! Daqui a 13 anos debruço-me sobre isso.

O programa das festas prevê que volto ao hospital no dia 10 (espero não ser surpreendida pela greve) e estou a apontar a TEC para a semana de 15 a 19 de maio.

Mais uma voltinha, mais uma viagem...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Ideias acerca do eterno porquê

Tive o momento libertador que precisava, a dois, que deu algum alento para pensar no que me poderei focar em seguida. Ainda tenho 6 embriões, o que significa algumas hipóteses de dar outro rumo a estes finais infelizes.

Aquilo que antevejo é que chegando o mês de abril o hospital deve entrar em contacto para dar início ao ciclo de preparação da TEC 4. Eventualmente vão bater na tecla do Decapeptyl, substituir este pela pílula depois de lhes refrescar a memória sobre a minha relação com aquele injetável. Claro que vou manter a minha proposta de recorrer ao velho Provera. Enfim, imagino que vão acrescentar zero, transformando-me outra vez naquele enlatado igual a tantos outros. Peço desculpa pela abordagem mas é mais ou menos assim que tem acontecido.

Como não estou disposta a repetir fórmulas que não funcionam vou dar umas 3 a 4 semanas ao hospital para fazer a tal análise do processo, em equipa, que quero acreditar que vá efetivamente acontecer. Não havendo nenhuma comunicação da parte deles durante esse período vou eu fazê-lo para colocar as questões que queria ver esclarecidas hoje e ver a viabilidade de investigar outra coisa que me ocorreu esta tarde.

O meu corpo tem reações estranhas e exageradas em algumas situações. O sistema imunitário reage demasiado em situações simples, o que me faz pensar se os embriões não estarão a ser interpretados como um corpo estranho que deve ser expulso sem dó, nem piedade. Depois de uma breve pesquisa vi que o organismo da mulher, em condições normais de uma gravidez, "desativa um chip" que habitualmente rejeita elementos quando não os considera como sendo dele. Esta alteração imunológica permite que o embrião se desenvolva no ambiente materno, apesar de 50% do seu código genético não ser oriundo da progenitora. A pensar nesta possibilidade, nas ovodoações tenta-se garantir compatibilidade entre os genes da dadora e recetora para que as falhas de implantação ou abortos espontâneos sejam minimizados.

Quando andei a fazer despiste às trombofilias apresentei alterações nos linfócitos em número e morfologia, que foi interpretado pela hematologista como uma infeção à qual não deu importância. E se não for irrelevante? Haverá alguma relação com esta ideia da rejeição dos embriões? Realizei as análises cerca de 6 semanas após o aborto, quem sabe aquele parâmetro ainda era uma consequência que estava a ser detetada. Estarei a ter um raciocínio descabido?

Após mais algumas pesquisas vi que em Portugal não se fala muito desta temática (para variar) mas no Brasil há muitas referências. Existe um teste chamado Crossmatch que vai avaliar esta questão da incompatibilidade da mãe com o embrião. Não há consenso relativamente a este assunto, no entanto verifica-se que quando o resultado desse teste é negativo é possível criar uma vacina com os linfócitos do pai, aplicada num mínimo de 3 doses espaçadas, de maneira que o organismo da mãe produza os anticorpos necessários para combater aquela resposta indesejada. O embrião passa depois a ser aceite como algo que é totalmente compatível com a mãe. A literatura sugere que esta técnica poderá trazer alguns inconvenientes como o desenvolvimento de doenças autoimunes na recetora da vacina, nomeadamente lúpus. Poderei estar a entrar num raciocínio que nada tem a ver com a minha situação, mas é algo que desejo abordar no hospital. Se aquilo que "googlei" estiver correto, o HSJ é o único hospital público do país que realiza esta análise.

Outras ideias que também vagueiam pela minha cabeça são possíveis anomalias genéticas dos mini-nós. Não sei até que ponto estando eles criopreservados será viável realizar DGPI sem saber o que procurar ainda. O polimorfismo do PAI-1 detetado anteriormente e que foi ignorado, se calhar deve ser tomado em conta.

Para já são estes pontos que desejo esclarecer para perceber se há alguma lógica no que digo e se há abertura do hospital para ir um pouco além em relação ao que tem sido feito. Não quero que me fechem a porta daqui a um ano saindo com a sensação de que o HSJ é mais limitado do que pensava. Para isso bastou-me o Pedro Hispano, mas fui obrigada a passar por esse para aceder ao que considerava o supra-sumo público da infertilidade no norte.

Como se pode ver não fiquei satisfeita com aquele telefonema de breves segundos desta tarde. Obviamente o resultado não me deixou feliz mas, acima de tudo, a comunicação que eu esperava cara a cara com quem de direito não chegou a existir, suscitando-me mais dúvidas do que aquelas que tinha. Vou ter de resolver essa parte para traçar os próximos planos que estão ao meu alcance.

Outra questão que me surgiu foi a espera de 4 meses para nova TEC. É para dar descanso ao corpo? Aproveitar este tempo para delinearem algum plano de intervenção? Excesso de serviço no hospital? Aposto mais na última hipótese, mas poderá ser o meu mau feitio a dar de si.

Resultado do beta - TEC 3

A colheita de sangue foi feita e devido ao elevado volume de serviço que há hoje no hospital, em vez de voltar lá, soube agora por telefone.

Negativo

Numa chamada muito rápida a enfermeira disse que o resultado foi negativo, a próxima TEC será em maio e entretanto a equipa vai analisar o meu processo.

Não tive oportunidade de colocar as questões que queria esclarecer. Não sei o que vai dentro do meu peito, se desilusão, raiva, vontade de desistir, arrependimento por me ter metido nisto. Acho que não vai haver um final feliz, sou uma inútil que anda a gastar os recursos do Estado que podiam ser canalizados para casais com verdadeiro potencial. De que me serve ter obtido o fabuloso número de 12 embriões se as transferências não dão certo? O que está tão errado para ter já perdido 6 filhos?

A dita análise do processo deve ser para decidir que depois de esgotadas todas as TEC tenho alta. Já não sou nova, não me deve ser dada oportunidade para voltar à lista de espera e repetir esta saga. O fim está a chegar.

Ponho-me agora a pensar nos médicos que ao longo da vida foram dizendo que a solução era fácil e rápida. Conheciam-me tão mal...

Passa-me muitas vezes pela cabeça que os malditos ovários que só me têm causado aborrecimentos, ainda me vão brindar com mais uma surpresa desagradável do foro oncológico. Era irónico demais isso acontecer e nada impossível dado o historial de neoplasias em variadíssimas partes do corpo, do lado paterno.

Queria ficar no meu cantinho a carpir mas mal tenho forças para isso e ainda vou trabalhar no final da tarde.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Dia 13 - TEC 3

Cá estou em mais uma véspera de beta. Sinto-me extremamente tranquila, sem expectativas nenhumas, nesta maldita rotina que já se instalou. A fome desapareceu e se ontem foi um dia penoso no esófago, hoje houve bandeira branca, felizmente.

Às 8 horas lá estarei para fazer a colheita de sangue. Se for como das outras vezes, à hora do almoço, volto ao hospital para estar face to face com a diretora do serviço, que por acaso até foi quem realizou esta TEC. Cada transferência teve uma médica diferente, só falta passar por uma para rodar pelas quatro.

Se o resultado for negativo vou dedicar um pouco de tempo a mim para recuperar do acumular de medicação e tentar arrebitar um bocadinho. Num ano o meu corpo transformou-se bastante e a minha condição anímica tem vindo a diminuir gradualmente.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Dia 12 - TEC 3

Se ontem havia uma alegria infantil a tomar conta de mim, hoje já não estou da mesma forma.

Sinto uma dor contínua no esófago e o fundo da garganta parcialmente obstruído devido ao refluxo. Acho que aquilo que tem acontecido nos últimos dias não é mais que o acumular de efeitos secundários da medicação.

Não auguro muitos motivos de felicidade na segunda-feira. Continuo assombrada com a ideia de que os 12 mini-nós não serão suficientes. Supondo que esteja correta vou perguntar à médica se findas as 6 TEC com insucesso regresso à lista de espera para FIV ou me dão alta por ser um caso perdido. Tenho de saber também se há um plano alternativo para a próxima transferência que passe por investigar/testar alguma coisa diferente. Não sei se a filosofia do hospital é jogar sempre com a mesma estratégia até que dê certo ou acabem as possibilidades. Se em tempos via uma luzinha no fundo do túnel agora vejo-a a sumir. Não deveria estar a pensar e escrever estas coisas mas tive sempre necessidade de traçar todos os cenários bons e maus, como forma de controlar o desespero momentâneo.

Gostava de estar otimista mas é deveras difícil.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Dia 11 - TEC 3

A palavra do dia é: FOME!

Queria tanto não me prender demasiado a isso mas é difícil quando esta sensação transcende o meu estado habitual. Acordo de madrugada com fome, acabo de fazer uma refeição e continuo esfomeada. Não como este mundo e outro porque tenho de me manter lúcida.

Mais importante que me concentrar na fome é manter os pés aparafusados à Terra sob pena de dar um tombo monumental na segunda-feira. Segundo a minha lógica continua a probabilidade de 50% de isto correr bem. Aquela criaturinha que gosta de dizer que vai ser negativo continua a rondar, não a ignoro.

Acumulo mais de 5 anos de uma busca incessante, uma paciência desmedida, uma esperança vinda não sei de onde, uma teimosia que me mantém de pé, uma convicção de que tudo o que tem acontecido vai valer cada exame, injeção, comprimido, amostra de sangue, hora, suspiro, dor, má disposição, lágrima e sacrifício que dediquei durante aproximadamente 14% da minha vida.

É tempo de chegar o final feliz, porra!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Dia 10 - TEC 3

Posso estar a ser demasiado presunçosa mas acho que as notícias de segunda vão ser boas. Oxalá não esteja enganada...

De manhã, bem cedo, ainda estava na cama e senti fome. Isso só me aconteceu no pouco tempo em que estive grávida. Depois de uma refeição continuo com fome, tal como da outra vez. A diferença é que na TEC anterior só começou a acontecer depois do beta, assim como as dores provocadas pela gastrite.

Nas TEC 1 e 2 sentia pontadas na barriga, ao contrário desta vez, é aquilo que mais estou a estranhar. Não queria estar constantemente a fazer comparações mas é inevitável.

Seria maravilhoso não ficar desiludida.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Dia 9 - TEC 3

Cumpro calendário novamente nesta lenta espera. Já posso riscar mais um dia, dia após dia restam apenas 5 para escrever novidades boas, más ou assim-assim.

O que me diz o corpo? Diz-me que estou inchada no peito mas principalmente na zona abdominal. Pareço até grávida, é essa a realidade. Espero que estas mudanças físicas tenham uma razão de ser que não apenas o resultado dos efeitos secundários da medicação. Será frustrante passar por estas metamorfoses se a produtividade for nula.

A gastrite vai-se manifestando a partir da tarde, até dormir. Tem sido uma companheira desagradável. Mais valia estar só.

Há algo que tem acontecido desde que fiz a transferência, ao qual não tenho dado muita importância mas é inédito. Tenho um corrimento completamente líquido, sem qualquer tipo de viscosidade, incolor e inodoro. É uma quantidade significativa contudo não sinto a sua saída. É muito estranho, tal nunca me aconteceu.

Pela primeira vez tive a sensação que houve duas ou três pontadinhas no fundo da barriga ao levantar-me.

Amanhã é quinta-feira, a semana tem passado a um ritmo interessante mas podia ser mais rápido!

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Dia 8 - TEC 3

Não observei nada que se aproximasse do tom vermelho, o que me deixa tranquila (ou não).

Tive uma enxaqueca durante uma parte significativa do dia, de vez em quando aquela dorzinha nas costas ou no fundo da barriga que antecede a chegada do período. Essas sensações foram substituídas pelo regresso da minha amiga gastrite, ao final da tarde. Aquele ardor persistente ao longo do esófago e que me é tão familiar veio para me lembrar que é um excelente indício, à luz de um antigo médico de família que tive. É sinal que estou viva!

50% do processo já passou, segue-se a fase em que a espera começa a durar uma eternidade. Não há fadas madrinhas a quem possamos pedir uma varinha mágica, daquelas que não tritura sopa, e faça desaparecer estes dias que bloqueiam a chegada de 30 de janeiro. Por outro lado esses mesmos dias são importantíssimos para o desenvolvimento dos mini-nós, caso ainda continuem fortes comigo. E é isto, antíteses atrás de antíteses. Não há linearidade nas respostas do corpo às diversas medicações, nos sentimentos associados a estes procedimentos, nos sintomas. Nestes períodos o meu cérebro adquire a forma de um ponto de interrogação.

Amanhã há mais, até lá vou continuar por cá a usufruir da minha gastrite.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dia 7 - TEC 3

Estava tudo a decorrer com total neutralidade até chegar a casa, depois do trabalho. Vislumbrei uma muito discreta, quase impercetível, minúscula marca de sangue. O que é isto nesta altura do campeonato? A maior amenorreica que anda por aí tem coisas destas quando se trata de engravidar? Que ironia tramada!

O peito já aumentou de volume, a tensão mamária parece estar a chegar.

Estas flutuações de peso tendencialmente ascendente estão a deixar-me com um aspeto com o qual não me reconheço. Tenho uma parte muito significativa de culpa pela falta de atividades simples que poderia executar. A minha condição anímica bloqueia a vontade de fazer algo por mim. Vou adiando sucessivamente o ímpeto de me mexer colocando na minha cabeça a desculpa que de 3 em 3 meses segue-se nova TEC, o que me deixará limitada. Isto vai ter de mudar, eu sei.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Dia 6 - TEC 3

À semelhança da TEC 2 não há nada significativo a registar relativamente à atividade biológica visível ocorrida hoje. Uma das borbulhas estava gigante, tratei-lhe da saúde, a outra praticamente não se vê.

Tal como das outras vezes também só saberemos o resultado no hospital. Depois do que aconteceu na última transferência seria um erro tremendo meter-me a fazer testes em casa que eventualmente dessem positivo, explodir de felicidade e depois levar um banho gelado com um valor baixo de beta. Prefiro a realidade dos números do que as riscas, smiles ou menções.

Os sonhos têm voltado para me dizer que a infertilidade está presente dia e noite, em todos os meus estados mais ou menos conscientes. Isto suga a minha existência.

Aquelas criaturinhas malévolas que afetam as minhas sinapses dizem que esta TEC vai ser um fiasco. Insistem na ideia de que a perda dos 12 embriões vai ser o castigo supremo para mostrar que não mereço ter filhos. Tenho de pensar nessa possibilidade e ter discernimento suficiente para saber viver com essa realidade, caso venha a acontecer.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Dia 5 - TEC 3

As náuseas que comecei a sentir à noite, ainda antes da TEC, começaram a dar um ar da sua graça em alguns períodos do dia. Tenho duas borbulhas a habitar a face, a sensibilidade nos mamilos está a aumentar um pouco. Ao nível do útero, ovários e arredores, nada a assinalar.

Cerca de 36% do percurso entre a transferência o dia do beta está concluído. Vou tentando manter-me neutra como mecanismo de defesa.

Bolas, estou a habituar-me às TEC...

Dia 4 - TEC 3

Antes de mais, valores altos se sobrepuseram à escrita, ontem. Há alturas em que surgem crises cuja resolução, se estiver ao nosso alcance, poderá ter um pouco do nosso contributo. Enquanto indivíduos temos família, colegas, conhecidos e amigos. Os amigos, em particular, merecem tempo e apoio nos piores e melhores momentos. Foi nesse âmbito que atuámos na altura em que habitualmente estou, frente ao computador, a digitar uns carateres.

A fase pré-beta está a ser mais preenchida o que, de certa forma, ajuda a desviar os pensamentos que normalmente são 80% voltados para a infertilidade. O estado pintas vermelhas do meu marido vai melhorando lentamente, é menos uma preocupação.

A minha terapêutica é escrupulosamente cumprida, vou tentando fazer uma vida normal do ponto de vista físico, embora com as devidas limitações.

Relativamente a algo que possa sentir não houve nada de diferente em relação ao dia 3.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Dia 3 - TEC 3

O dia de hoje foi assinalado por alguns elementos distratores que fizeram esquecer um pouco o momento TEC que estou a atravessar. Aquele que mais se destaca é uma reação alérgica que o meu marido manifestou à amoxicilina. Todo o seu corpinho está salpicado de manchinhas vermelhas e na cara parecia que tinha apanhado um escaldão. Teve de ir ao hospital tratar do assunto e pelo menos no rosto já se começa a notar que a cor está a normalizar um bocadinho. O resto continua a impressionar.

Algo que tenho vindo a reparar há cerca de uma semana e que não aconteceu das outras vezes, é que o Estrofem tem provocado algumas náuseas à noite. A médica recomendou sempre que tomasse um comprimido de manhã e dois à noite já para prevenir essa situação e só nesta terceira TEC é que estou a sentir isso. Não é nada que me deixe sem forças, com vontade de vomitar, mas vai marcando presença.

Daqui a um ou dois dias a tensão mamária deve começar a dar sinais.

A zona pélvica continua em sossego total, não há nada a acrescentar.

Se os mini-nós ainda continuam a fazer a sua magia, é mais ou menos a partir de amanhã que entram numa fase crucial de início de fixação no confortável endométrio que lhes preparei. Deixo que sejam espaçosos porém não migrem para outros lados mais acima, onde não é suposto estacionarem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Dia 2 - TEC 3

A vantagem de fazer a TEC nesta altura do ano é que não aborrece muito estar recolhida em casa, sem frio. É um luxo a que muitos se encontram privados, em situação precária, só por isso considero-me uma afortunada.

A minha fã número 1 não me largou mais que 5 minutos hoje. A sua função primordial foi a de servir de aquecedor de pernas, optou também por distrair-me algumas vezes com a sua rebeldia matreira e lembrou-me que sabe ser a gata mais querida e atenciosa.

As mini-mórulas de ontem poderão ser os blastocistos de hoje a mostrar ao corpinho da mãe que tudo vai correr bem e que já não haverá mais motivos de preocupação. É tão bom sonhar... não é?

Agora a sério, estou naquela fase dos primeiros dias em que se leva na desportiva, sem grandes alaridos. Ainda para mais sendo a terceira vez, o stress é cada vez mais tardio. Dentro de mim surge uma vez por outra uma voz que sussurra "vai ser negativo, daqui a 3 ou 4 meses vais gastar mais dois embriões". Há alturas que me apetece desligar o botão que desencadeia os pensamentos e só ativar novamente quando realmente dá jeito. Somos os nossos piores inimigos quando os maus pressentimentos nos invadem.

Assim como eu, nestes dias há mais companheiras de luta que estão mais ou menos neste limbo e vão dando aqui um saltinho pela minha casinha virtual. Sei que vocês devem estar a sentir mais ou menos o mesmo. Isto mexe connosco a todos os níveis, não temos o poder da adivinhação e por isso é que custa tanto. Sabendo que uma moeda tem duas faces, se quisermos que em 100 lançamentos saia pelo menos uma vez cara e no fim só sai coroa, a probabilidade de 50% para nós valerá zero. Dizem que as hipóteses de gravidez bem sucedida aumentam a cada tentativa realizada, isso é verdade, só falta saber quando. O melhor a fazer é acreditar que desta vez vai sair cara.

Amanhã deliro mais um bocadinho.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

TEC 3

Ei-nos no quentinho, descansados, prontos para enfrentar os próximos tempos. Sim, mais uma vez, tenho dois mini-nós albergados no fofo endométrio. Os números 5 e 6 estão a conhecer a mamã. Espero que ainda se estejam a familiarizar comigo e não tenham sucumbido entretanto.

Hoje tive dificuldade em conseguir que a bexiga estivesse pronta a horas. Usei a mesma técnica que da última vez mas tardou em resultar. Mantive-me de pé na sala de espera para ver se a gravidade ajudava um pouquinho mas acabei por fazer a TEC sem sentir pressão. Felizmente o útero estava bem visível, foi a transferência menos incomodativa de todas. A TEC propriamente dita não custa nada, a colocação do espéculo é que deu luta da última vez.

Enquanto aguardava que os rins terminassem o seu trabalho a bióloga esteve a falar connosco. Pelo que me apercebi a qualidade dos embriões não devia ser tão boa quanto a dos anteriores. Eles foram descongelados ontem e apresentavam alguma fragmentação que não os tornava muito simétricos. Hoje apresentavam-se como dois pequeninos aglomerados de células, o que significa que estavam a organizar-se e a continuar a divisão celular. Desta vez ela não referiu que realizou eclosão assistida pelo que depreendo que não deviam estar reunidas as condições para o fazer.

Admito que a esperança está a esmorecer, no entanto não posso deixar de pensar que na primeira TEC a qualidade era excelente e o negativo foi bem explícito no beta.

Tive ao longo da tarde a lealdade incondicional da minha menina de longos bigodes, sempre colada a mim. É uma peça muito importante na minha vida.

Ficarei por casa até quinta, sexta volto ao ativo e dia 30 de janeiro é o beta. No meu processo estava 31 mas afinal foi antecipado um dia. Restam 3 palhetas, 6 mini-nós, a usufruir do fresquinho do azoto líquido. Metade dos embriões foram usados num espaço de 8 meses. Isto é assustador, porque vejo as hipóteses a escaparem por entre os dedos.

O que será que me reservam as cenas dos próximos capítulos?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Inspirar, expirar

É assim que devo fazer conscientemente para proporcionar alguma calma ao meu interior. Mais uma TEC se aproxima e com ela novamente a esperança de que será finalmente aquela que vai fazer chegar a maior expressão de Amor.

Não desejo apenas que o resultado seja positivo. Aprendi da pior forma que isso não basta. Aceito uma gravidez cheia de complicações, desde que no final venha a recompensa de pôr no mundo a(s) nossa(s) cria(s) com saúde a todos os níveis. Já agora se me for permitido manter por cá, também sã, para poder ser a melhor mãe que conseguir, agradeço de coração.

À semelhança das outras transferências irei fazer atualizações diárias pelo que aviso, desde já, que certamente isto vai soar a repetição. C'est la vie! Gostava de contar coisas novas e agradáveis, veremos o que me reserva.

Neste momento pré-TEC começo a ter alguma sensibilidade na zona mamilar que deve ser fruto do Projeffik. Em condições normais não costumo sentir isso mas em modo TEC é habitual, embora não tão cedo.

Amanhã não me posso esquecer de tratar da bexiga para às 12h30 estar no ponto. Os nossos mini-nós vão ser fortes e descongelar na perfeição, estou confiante.

Vou ficar em casa até quinta-feira, sexta vou trabalhar. Se os embriões continuarem viáveis até ao fim de semana a nidação deverá ocorrer nessa altura, a eterna ligação poderá estabelecer-se. Resta-me aguardar serenamente pelo dia de amanhã e enquanto isso continuar com a medicação.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

37

Hoje é dia de aniversário, não propriamente de festa, porque as circunstâncias destes últimos dias têm tirado tempo para me dedicar a qualquer comemoração. Fica para outra oportunidade!

Neste momento tenho alguns minutos disponíveis então estou a aproveitar para dar novidades. O conceito de beleza na infertilidade é muito diferente ao que estamos habituados nas situações banais do quotidiano. Na ecografia desta manhã o meu endométrio foi classificado de "belo". Qual exibicionista, mostrou o esplendor da sua espessura de 10,2 mm, trilaminar, altamente convidativo. Diria mesmo, sexy! As minhas entranhas estão charmosas, só falta saber se desta vez a eficiência vai superar toda esta pomposidade. Por mim até poderia parecer o medonho Adamastor, o que interessa é que seja funcional.

Esta espécie de ciclo natural (induzido apenas com Provera) mostra até que ponto os meus ovários são pequenos vulcões adormecidos. As mulheres que fazem preparação de TEC em ciclo natural costumam administrar o Pregnyl dias antes da transferência. Como não ovulo, não preciso de nada disso. Sábado à noite inicio a administração de Projeffik a cada 8 horas. Livrei-me do Decapeptyl, o endométrio espessou ainda mais rapidamente que na TEC anterior, tudo é belo.

Falei com a médica a propósito do polimorfismo do PAI-1 e da influência que este poderá ter no processo. Ela disse que estando a tomar ácido fólico não há problema nenhum.

A data da TEC 3 é dia 17 de janeiro, às 12h30. A primeira foi a 17 de maio de 2016, a segunda a 16 de setembro e agora voltamos ao número 17. O beta está previsto para 31 de janeiro.

Faço 37 anos, comecei esta aventura aos 31, não gosto...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Está a ficar bonito"

É assim que o meu endométrio se encontra. Está com 7 mm, teoricamente já reúne condições para receber embriões, no entanto a médica estabeleceu como meta mínima 9 mm. Felizmente a este nível não tem havido razões de queixa, o endométrio tem colaborado. Aumentei o Estrofem para 3 comprimidos diários.

Quinta-feira, dia 12 de janeiro, data que assinala o meu 37º aniversário farei a última ecografia antes da TEC e o agendamento da mesma. Em princípio será a meio da próxima semana, o que significa que o beta é por volta do dia 30.

Reflexões acerca deste período vindouro:

Estou a entrar na fase de neutralidade de sentimentos. Cumpro calendário, colaboro no que é solicitado, não quero desenvolver emoções. O modo mecanização está ativo. Estes processos integraram a minha rotina e grande parte do que faço gira em torno disto.

No final da semana passada, por exemplo, fui contemplada com uma colocação laboral temporária que pode durar entre 1 a 8 meses, sabe-se lá, a 20 km de casa, que não é nada para quem fazia por vezes 320 km por dia ou 900 por semana. Espetacular, pensaria eu no passado, contudo desta vez foi o pior que podia ter acontecido, por várias razões. Depois de traçar mentalmente todos os cenários possíveis que envolviam a aceitação desta oportunidade acabei por desperdiçá-la. Esta TEC ou outras que lhe possam seguir foram a razão determinante da recusa. Não seria muito propício apresentar-me ontem ao serviço, hoje faltar, na próxima semana ficar uns dias de repouso, isto só para começar. É a segunda vez que rejeito um trabalho por coincidir com o início de uma transferência.

Por mais que diga ao meu cérebro que não vou fazer a minha vida girar em torno deste assunto, a realidade é outra. A situação que mencionei anteriormente é apenas uma parcela, entre várias, que têm condicionado o nosso dia-a-dia. Não me arrependo que assim seja, contudo é triste que tal tenha de suceder.

Ainda temos 8 mini-nós, supondo que os descongelamentos correm bem e as transferências não deem em nada, até ao fim do ano terei acumulado 6 coitos programados com indutor cancelados, 2 IIU também canceladas e 6 TEC, o que para mim já parece absurdo e um sinal a ter em conta.

2017 será um ano de viragem para o bem ou para uma tomada de decisão acerca da continuidade/fim dos tratamentos.


Vou mandar dois beijinhos delicados para as pequenas M e C, que nasceram hoje, e são as crias da Our baby journey, por quem tenho um enorme apreço. Bem vindas a este mundo, desejo que tenham sabedoria para enfrentar as crueldades que este planeta proporciona, tragam esperança às diferentes gerações e sejam um exemplo inspirador para quem vos rodear. Tenho a certeza que a vossa Mãe vos transmitirá valores de excelência e ensinará o caminho da integridade.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A new beginning

Tivesse eu uma bola de cristal e as minhas previsões tinham um ar mais credível. O meu BFF Provera (usando linguagem dos teenagers) e os cálculos altamente complexos não falharam, mais uma vez. Previ que hoje seria o terceiro dia do ciclo, aquele em que iria fazer a ecografia que dava o mote para a preparação da TEC 3. Tenho pena que a minha capacidade preditiva fique apenas por aí...

Após uma caminhada abençoada pela chuva em direção ao hospital esperou-me uma relativamente rápida permanência no piso da Medicina de Reprodução, o que não é nada habitual.

Entrei na sala de ecografia, foi feita a pergunta rotineira da duração do meu ciclo, dei a resposta de sempre e fui para a marquesa incómoda. Enquanto as minhas entranhas eram escrutinadas e me apercebia, pela dor dos toques, que tenho ovários, pensava na palavra humanização. Porquê humanização? Porque há uma carência a esse nível nomeadamente quando põem a tocar a cassete do costume. Terei de fazer uma doação de esferográficas ao HSJ para que possam registar no meu processo que NÃO TENHO CICLOS ESPONTÂNEOS? Sempre que é dia de TEC temos de preencher um inquérito de satisfação no qual podemos fazer observações. Da primeira vez deixei esse campo em branco, se não estou enganada. Na segunda TEC já fiz sugestões. Na próxima farei certamente reparos a alguns pormenores que são repetitivos e desnecessários.

Na consulta subsequente foram prescritas as receitas necessárias. Comecei hoje 2 comprimidos de Estrofem e volto ao Acfol.

O momento que pensava que ia ser o clímax da consulta, o da entrega das análises relativas ao estudo de trombofilia resumiu-se a uma frase de estilo telegráfico, que é o registo habitual: "Está tudo bem". Confesso que estou apreensiva, vou dar o benefício da dúvida, por enquanto.

Dia 10 volto a fazer ecografia. A TEC já não deve coincidir com a data do meu aniversário, porque normalmente o Projeffik começa a ser administrado com 3 dias de antecedência. Poderá ser no dia seguinte ou na semana de 16 a 20 de janeiro. Não importa a data, o mais importante é que tudo dê certo.

Nota final: este cantinho cibernético surgiu em dezembro de 2015, pouco tempo antes de iniciar a FIV que ainda não teve final feliz. Posso dizer que de tudo o que foi acontecendo nestes 5 anos de luta contra a maléfica, este blogue tem sido como que uma mão que toca nos cabelos para transmitir alguma tranquilidade. Precisava libertar na forma de palavras aquilo que ia ficando aprisionado no meu interior. Fico imensamente grata ao perceber que o que partilho leva alguma paz de espírito às mentes que estão tão inquietas ou mais que a minha. Ainda não fui bafejada com a oportunidade de descrever um rumo diferente do insucesso contudo, quando escolhi o nome do blogue, fi-lo com a convicção de que isto vai dar a volta, só não sei quando. O caminho da infertilidade está a deixar-me mazelas. Não está a ser uma pedrinha no caminho, pelo contrário. É um colosso difícil de carregar neste interior cada vez mais inerte.