Face a toda a nossa história, aos inúmeros obstáculos, aos múltiplos planos adiados e à enorme vontade de que isto termine, tomámos uma decisão. A próxima TEC definirá o final do livro sobre a nossa infertilidade. Vamos pedir para descongelar os dois embriões. Só voltaremos atrás nesse intento se houver contraindicação fundamentada pela equipa médica.
Estamos arrasados pelo acumular de situações que, em vez de nos aumentarem a esperança, pelo contrário, desiludem sucessivamente. Temos a razão e a emoção de mãos dadas, por isso vamos lutar pelo fim. Sendo realizada a transferência e confirmando-se que foi mais uma tentativa em vão, DESISTIMOS de cabeça erguida. Não tenho problemas em afirmá-lo. Sei que isto pode ser ofensivo para muita gente que anda envolvida neste submundo infértil, mas este percurso foi meu e do meu marido, não passámos por tudo o que nos aconteceu em prol de outros. Não estamos nisto há meia dúzia de dias. Serão 9 anos, 19 tratamentos e todos os percalços que aconteceram em cada tentativa. Não fomos daqueles casos que esperaram meses ou anos a fio por uma gravidez que não chegava, até pedir ajuda. Solicitámos auxílio desde que decidimos ser pais, porque a minha disfunção ovulatória extrema não se coadunava com os chamados "treinos". As cerca de 90 manhãs passadas em salas de espera deram-me muito tempo para pensar se aquilo que fazia tinha algum sentido e com o passar dos anos em que lá ia, percebi que andava a chover no molhado.
A infertilidade para mim dura há 25 anos, desde que me foi dito friamente que a minha peculiaridade não me permitiria ser mãe sem apoio médico. Era uma adolescente apenas, tendo-me adaptado aos meus distúrbios hormonais, às minhas disfunções, com o fantasma da infertilidade a pairar sobre mim. Realizado todo este percurso constato que mesmo o auxílio da Ciência nos moldes atuais é insuficiente para as minhas características. Nasci cedo demais...
A expressão be in someone's shoes faz todo o sentido para o assunto deste post. É considerando a máxima do colocar-se no lugar do outro, que antes de se dizer da boca para fora que não se desiste de tentar ter um filho, se deve perceber que as circunstâncias não são todas iguais. Atingi o limite do que acho razoável para o meu caso, por isso o mais apropriado é deixar a ideia da maternidade para trás das costas.
Para operacionalizar este momento de clarividência tenho uma necessidade visceral de que o hospital atue o mais rápido possível. Aparentemente só em junho é que vão ser retomados os tratamentos suspensos. Será dada prioridade aos que não foram realizados em março, em menor número do que o habitual por causa da gestão relacionada com a pandemia. Não sei se pelo menos por uma vez a minha idade vai ser levada em conta. Quero tanto resolver isto até ao final de julho!