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quarta-feira, 17 de junho de 2020

TEC 9 a caminho!

Recebi esta manhã a chamada que confirmou que a TEC 9 vai concretizar-se. Dia 21 de junho termino a pílula e a 26 vou fazer ecografia. Vamos também assinar o consentimento para a desvitrificação dos dois mini-nós, a nossa última esperança. Sinto que o fardo que carrego está mais leve. O fim está aí, acho que estou preparada para o que se segue. O desenvolvimento da nossa jornada na infertilidade foi estranho. Às vezes parecia que não estava a viver nada daquilo e que não passava de um longo sonho do qual não acordava. Focámo-nos nos últimos dois anos em terminar isto, por nos estar a fazer mais mal que bem. É chegada a hora. Incrivelmente encerro o processo com a mesma determinação com que o comecei.

Mesmo que a TEC seja infrutífera, tal como todas as outras, não sairei com rancor do Hospital de S. João sobre o qual apostei as minhas fichas, ainda nem sequer conhecia o meu marido. Sei que a equipa desejou tanto quanto nós que as coisas resultassem e fizeram o que podiam para nos ajudar a conquistar o nosso sonho. Digo, mais uma vez, que são excecionais, apesar dos problemas de que padecem com a falta de capacidade de resposta, em tempo útil, para tanta gente que necessita dos seus serviços. Se houver uma reviravolta na nossa história, é lá que quero continuar até chegar o dia que mudará a minha existência.

Se sobrar alguma justiça neste mundo, gostava de ser poupada de outra perda. Acho que o luto da desistência será mais fácil de suportar se tiver logo resultado negativo. Estou a traçar vários cenários mas não me posso esquecer da questão da desvitrificação que pode não correr da melhor forma. Então, em primeiro lugar, espero que o endométrio se porte bem, em segundo que haja, pelo menos, um mini-nós apto a transferir. Depois disso, aceito um negativo ou uma gravidez como manda a lei. Situações que fujam destas duas hipóteses, só irão reforçar a crueldade que tem caído sobre nós.

De uns anos a esta parte a asma tem voltado. Sou asmática desde sempre, tive uma infância complicada por causa disso. Houve também fases da adolescência em que esporadicamente era acometida por crises com uma certa violência. Ao chegar à idade adulta voltei a ter episódios menos intensos e, mesmo agora, de vez em quando, tenho de me socorrer do inalador. Nos últimos 3 anos, a minha época oficial para o regresso da asma é em junho. Não tem nada a ver com o que sentia quando era miúda, contudo há sempre o receio de que volte a causar-me grandes sustos. Durante estes dias tenho sentido a minha capacidade respiratória mais débil e espero que na altura em que faça a transferência não piore, para não ter de fazer inalações. Vou, no entanto, pôr as médicas a par da situação. Dia 30 farei novamente controlo da função tiroideia e estou a torcer todos os meus dedinhos para que finalmente a tiróide tenha outra vez a TSH normalizada. Será um problema se não tiver estabilizado. Há perto de um ano que ando a tentar fazer o acerto adequado. Tenho ódios de estimação de algumas partes das minhas entranhas. No topo da tabela estão os ovários, em segundo lugar a tiróide.

A ação vai regressar rapidamente, nos próximos dias deixarei aqui as palavras que vão retratar o final de uma luta com 8 anos e 7 meses.

domingo, 7 de junho de 2020

Outra forma de pressão social

Fazendo uma retrospetiva, foram residuais as situações em que senti algum tipo de pressão social para constituir família. Posso até dizer que fui incentivada umas quantas vezes para o contrário.

Depois de ter aberto a porta à PMA e partilhado a minha história a diferentes pessoas, umas mais próximas que outras, deparei-me com um tipo de pressão cada vez mais acentuado. A mais óbvia, completamente previsível, é a clássica questão se já ponderámos a adoção. O mais habitual é o interlocutor ser alguém que não tem muito conhecimento sobre a procriação medicamente assistida ou adoção. A tendência mais recente, que tem crescido a um ritmo alucinante é, se a ovodoação faz parte dos nossos planos. Essa questão normalmente é colocada por alguém que passa/passou por um processo de infertilidade.

Quem pergunta quando é que a família cresce não o faz, à partida, com má intenção. Da mesma forma, o tema da adoção ou ovodoação não surge com caráter pejorativo. Vem numa tentativa de, alguma forma, ajudar ou dar conforto. Há dias contudo, em que qualquer uma dessas questões maça um pouco a paciência, podendo aumentar a dor emocional causada pelo fracasso. A forma como se reage quando se é interpelado depende de cada um e da disposição em que se encontra na altura em que é confrontado.

Vou fazer pela n-ésima vez algumas considerações sobre este assunto. A adoção, assim como a doação de gâmetas/embriões não estão no nosso horizonte.
A ovodoação nunca nos foi sugerida pelos vários profissionais que nos têm acompanhado e não me refiro só à equipa de PMA do HSJ. O que vou escrever a seguir pode ser mera especulação para justificar a insistência dos profissionais nos nossos gâmetas. Estou no extremo oposto da falência ovárica. A poucos dias de fazer 40 anos a minha AMH era superior a 10. A qualidade ovocitária pode não ser catastrófica por algumas razões: em 3 processos de estimulação houve 20 embriões aparentemente aptos para transferir. A taxa está certamente acima da média. Até à data, apenas três embriões deixaram de evoluir após desvitrificação. Vale o que vale. Outro aspecto que pode indiciar baixa qualidade dos ovócitos é a prevalência de aneuploidias. Ora, dos 12 primeiros embriões transferidos, sei que um era euploide, a minha menina. No rastreio de aneuploidias a 5 embriões, 3 eram normais. Acho esse resultado bom, considerando que se tratou da estimulação realizada em idade mais avançada. Não me sai da cabeça que uma parte considerável dos embriões anteriores poderia ser também euploide mas nunca o saberei. Em relação às perdas precoces, estas podem dever-se a lacunas na qualidade dos gâmetas que originaram os embriões, é um facto. Uma das indicações para a doação de ovócitos é o insucesso em diversas tentativas no entanto, apesar do meu historial, ninguém sugeriu essa alternativa.

Em conversa com o meu marido, se calhar ainda nem estávamos a meio de todas as desilusões com que fomos "presenteados", toquei no assunto da ovodoação. Fiz eu a abordagem, porque estou muito mais dentro do assunto da PMA do que ele. Preparei-o para a eventualidade de algum dia um médico falar dessa opção. Refletimos em conjunto, falámos novamente da adoção e acordámos continuar a tentar com as nossas células enquanto tivéssemos disposição para tal. Estranho seria se, depois de tantos anos e tentativas, nunca tivéssemos analisado a viabilidade de outras alternativas, mesmo sem estas terem sido equacionadas pelos profissionais. Mantivemos ao longo do tempo a nossa intenção e estamos tranquilos quanto a isso.

É curioso que na maior parte das vezes que me perguntaram se ponderámos a doação de gâmetas referiram-se aos ovócitos e não aos espermatozóides. Nesta equação somos dois e não vamos colocar a causa apenas a recair sobre mim. Apesar do meu marido ter uma filha, jovem adulta, os espermatozóides dele podem não ter a dita qualidade adequada para gerar embriões que evoluem sem problemas.

A infertilidade idiopática é irritante. Questiona-se tudo e não se conclui nada.

Resumindo: sim, obviamente discutimos entre nós se íamos enveredar pela ovodoação e não, não vamos.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Hirsutismo

Uma das evidências que apresento, que corrobora o diagnóstico de SOP, é o hirsutismo. Com o passar dos anos acentuou em algumas zonas, embora haja partes do meu corpo em que não existe qualquer crescimento anómalo de pêlo. Quem olhar para a escala de Ferriman e Gallwey pode ficar um pouco impressionado com o grau de pilosidade que pode ser atingido. Há uns meses achava que a situação estava a ficar descontrolada, pela rapidez e quantidade de pêlos que apareciam, literalmente, de um dia para o outro.

Não era fã de pílulas. Tive uma má experiência com a Yasmin. Durante os 3 anos em que a tomei não notei nenhuma redução no hirsutismo mas nessa altura fazia as pausas normais de 7 dias. Sentia-me mal, principalmente no verão, mas o endocrinologista desvalorizava as minhas queixas. Alegava que era uma pílula muito boa, por ter uma composição à base de produtos naturais. Não era ele que a estava a tomar e a ter efeitos indesejáveis, então borrifava-se para o que eu dizia.

Atualmente estou a tomar Gynera, de forma contínua desde março e sinto-me bem. Em fevereiro, quando iniciei a terapêutica tive cãibras nos gémeos durante o sono, cansaço nas pernas, enxaquecas, spotting o tempo todo até ter a hemorragia de privação. Pensei que quando começasse a segunda caixa que, a partir daí seria sem interrupções, fosse acontecer o mesmo. Enganei-me redondamente. Apesar das elevadas temperaturas dentro da minha casa, não tenho cãibras noturnas, as enxaquecas são ocasionais, não há spotting e o que me está a deixar radiante, o hirsutismo diminuiu bastante no rosto. 

Eu tinha reservas sobre o que iria fazer futuramente para induzir as hemorragias de privação. Não me interessava a pílula pelo que acontecera com a Yasmin. Provera ou Progyluton não reduzem o hirsutismo mas funcionam para ter ciclos artificiais. Sobre a diminuição do pêlo onde ninguém quer, não sei se a depilação a laser seria uma boa alternativa para mim, devido às constantes flutuações hormonais. Tenho de falar com alguém que perceba realmente do assunto. Em relação à parte hormonal e o meu seguimento no futuro, estou a pensar eleger como minha ginecologista uma das médicas que me acompanha no HSJ, por já conhecer esta criatura alienígena que está a mandar bitaites no blogue.

Depreendo que se fizesse hoje uma ecografia, os dois safados que me infernizam há décadas estivessem irreconhecíveis, com um ar inocente e limpo. As flores de lótus secas devem ter dado lugar a dois ovários. A limpeza química que está a ser realizada àqueles filhos da mãe poderá ser realmente uma vantagem para a TEC, na medida em que os androgénios estão diminuídos em relação ao que é habitual e os ovários menos tóxicos. Quando suspender a pílula, o retrocesso será rápido, no entanto tenho esperança que a implantação do(s) mini-nós aconteça antes que regresse o caos.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Projeto ETHICHO

As intervenções que tenho feito em contexto de estudos estão a ajudar-me, em certa medida, no processo de transição. Estou a aperceber-me que há feridas que não vão cicatrizar ou ainda vão demorar o seu tempo a melhorar. Dado que tenho participado em estudos com diferentes naturezas, constato como a infertilidade tem a capacidade de se entranhar nos mais pequenos detalhes, qual vírus. Apodera-se do corpo e da mente, obriga-nos a realizar tomadas de decisão perante vários dilemas, baralha-nos a racionalidade.

Foi muito interessante a entrevista de hoje, porque as minhas sinapses não seguiram um rumo linear. A conversa durou pouco mais de duas horas que passaram a voar e provavelmente vão dar muito trabalho a analisar por parte da equipa de investigação. São ainda necessárias aproximadamente 25 participantes para dar andamento ao estudo. Não me foi solicitado, contudo decidi que é oportuno fazer aqui um apelo para a colaboração no ETHICO. Uma vez que as entrevistas estão a ser realizadas à distância, mesmo que alguém esteja fora do país, pode dar um pouco do seu tempo. No meu caso foi por videochamada no Skype.
Existem duas páginas onde é feita a divulgação do projeto, podem ser consultadas aqui https://www.facebook.com/ethicho.pt/ e aqui https://www.ethicho.pt/.

Desviando do assunto do post, aproveito para relembrar que os investigadores do estudo clínico InOvulação continuam a precisar de voluntárias. Agora também necessitam de candidatas para um grupo de controlo, que tenham ciclos regulares.

Como já disse noutras alturas, uma vez que não faço investigação, intervenho de outras formas, pela evolução do conhecimento.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Convite para participar em programa de TV

Como referi no post anterior, dei o meu testemunho no âmbito de uma iniciativa que relaciona disfunções na tiróide e infertilidade. A gravação do vídeo foi mais fácil do que imaginava. Acho que consegui seguir um fio condutor nas minhas respostas, sem me perder muito no conteúdo. A maior dificuldade foi sintetizar 26 anos de vida. Tentei não me esquecer de focar na questão do hipotiroidismo já que a infertilidade é o que tem dominado o meu percurso. Não houve cortes, foi tudo contínuo.

Recebi feedback muito positivo em relação à minha prestação. Por ter corrido bem e a história ter tocado a equipa de comunicação (conhecendo apenas uma pequena fração), a produção do Programa da Cristina tomou conhecimento e ficou sensibilizada com o pouco que soube. Convidaram-me para ir à SIC ou fazer um vídeo para ser transmitido no programa, se não me sentisse à vontade. Não aceitei, pois do que tenho visto, quando assisto a entrevistas relacionadas com infertilidade, é que os tempos dedicados são habitualmente muito curtos para a complexidade inerente. Não desvalorizo a divulgação do tema na televisão e louvo a coragem de quem está disponível para partilhar um bocadinho da sua história. Pessoalmente prefiro o meu espaço (blogue) para dizer o que vai dentro de mim, como se processam as coisas, porque não estou limitada nos carateres. A participação no vídeo para o dia mundial da tiróide fez sentido para mim, na medida em que se pretende alertar para a relação que pode existir entre as patologias da tiróide e a infertilidade. Muitas pessoas não estão cientes deste facto. Mantive, contudo, abertura junto da agência de comunicação, para colaborar, por via escrita, se surgir outro tipo de iniciativa.

Na próxima semana vou dar uma entrevista para o estudo "ETHICHO" sobre PMA e os embriões in vitro. No último trimestre do ano passado ficara combinado reunir-me com um dos investigadores, mas como andei muito tempo a fazer fisioterapia e tinha imensas consultas e exames, por vários problemas, a minha participação foi adiada. Entretanto veio a pandemia que condicionou a própria equipa de investigação. Ao invés de agora virem ao norte, a entrevista será feita através de Skype.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Iniciativa "Tratar a tiróide: pela fertilidade, pela mãe e pelo bebé"

A Associação Portuguesa de Fertilidade divulgou a iniciativa “Tratar a tiróide: pela fertilidade, pela mãe e pelo bebé”, lançada pela Federação Internacional da Tiróide, apoiada pela parceira Merck em Portugal e pela própria APFertilidade. No pedido de colaboração procuravam participantes que tivessem lidado ou ainda estejam a lidar com esta doença antes de engravidar, durante a gestação e após o nascimento do bebé.

Enviei um e-mail à APFertilidade com o meu testemunho enquanto doente com hipotiroidismo e infertilidade. Fui rapidamente contactada de volta para, se quisesse, dar o meu número de telefone à responsável da agência de comunicação que está a tratar da divulgação da iniciativa. O processo foi célere e esta tarde acertei agulhas para amanhã ser realizada a gravação de um vídeo com o relato da minha experiência, enquanto paciente que ainda está a tentar engravidar. Já há também participantes para as duas fases seguintes. Será a primeira vez que vou colaborar em algo do género. O vídeo vai estar visível em diferentes plataformas digitais. Mais tarde direi onde será publicitado. A divulgação da iniciativa será realizada entre os dias 25 e 31 de maio, mas já se sabe que a partir do momento em que algo é descarregado para a internet deixa-se de ter controlo sobre o conteúdo e vai perpetuar sabe-se lá por quanto tempo. Sou normalmente low profile, este tipo de exposição não é nada a minha praia mas a causa sobrepõe-se à minha falta de naturalidade para estas coisas. A situação mais parecida em que estive envolvida mas apenas numa vertente escrita, surgiu há uns anos, também a pedido da APFertilidade, quando pretendiam divulgar na sua newsletter, bem como no respetivo perfil de Facebook, o testemunho de alguém que estava a atravessar uma situação de infertilidade. Pode ser lido aqui https://clientes.creative-minds.pt/news/apfertilidade/janeiro2018/estudo2.html
e aqui

Quando mais recentemente participei no Estudo InOvulação pensei no contributo que o meu corpo anormal poderia ter para futuras investigações. Estava ciente de que teria de fazer análises e ecografia, mas isso não me causou desconforto, ao contrário da gravação de um vídeo. Sempre que são realizados inquéritos para teses, em que o meu perfil se enquadra ao tema em estudo, submeto as minhas respostas. Estou a chegar ao fim disto e apesar de provavelmente terminar de mãos vazias, espero que pelo menos consiga ajudar alguém que um dia venha a experimentar a minha realidade.

Em breve estarei aí, num vídeo perto de si...

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Decisão última

Face a toda a nossa história, aos inúmeros obstáculos, aos múltiplos planos adiados e à enorme vontade de que isto termine, tomámos uma decisão. A próxima TEC definirá o final do livro sobre a nossa infertilidade. Vamos pedir para descongelar os dois embriões. Só voltaremos atrás nesse intento se houver contraindicação fundamentada pela equipa médica.

Estamos arrasados pelo acumular de situações que, em vez de nos aumentarem a esperança, pelo contrário, desiludem sucessivamente. Temos a razão e a emoção de mãos dadas, por isso vamos lutar pelo fim. Sendo realizada a transferência e confirmando-se que foi mais uma tentativa em vão, DESISTIMOS de cabeça erguida. Não tenho problemas em afirmá-lo. Sei que isto pode ser ofensivo para muita gente que anda envolvida neste submundo infértil, mas este percurso foi meu e do meu marido, não passámos por tudo o que nos aconteceu em prol de outros. Não estamos nisto há meia dúzia de dias. Serão 9 anos, 19 tratamentos e todos os percalços que aconteceram em cada tentativa. Não fomos daqueles casos que esperaram meses ou anos a fio por uma gravidez que não chegava, até pedir ajuda. Solicitámos auxílio desde que decidimos ser pais, porque a minha disfunção ovulatória extrema não se coadunava com os chamados "treinos". As cerca de 90 manhãs passadas em salas de espera deram-me muito tempo para pensar se aquilo que fazia tinha algum sentido e com o passar dos anos em que lá ia, percebi que andava a chover no molhado.

A infertilidade para mim dura há 25 anos, desde que me foi dito friamente que a minha peculiaridade não me permitiria ser mãe sem apoio médico. Era uma adolescente apenas, tendo-me adaptado aos meus distúrbios hormonais, às minhas disfunções, com o fantasma da infertilidade a pairar sobre mim. Realizado todo este percurso constato que mesmo o auxílio da Ciência nos moldes atuais é insuficiente para as minhas características. Nasci cedo demais...

A expressão be in someone's shoes faz todo o sentido para o assunto deste post. É considerando a máxima do colocar-se no lugar do outro, que antes de se dizer da boca para fora que não se desiste de tentar ter um filho, se deve perceber que as circunstâncias não são todas iguais. Atingi o limite do que acho razoável para o meu caso, por isso o mais apropriado é deixar a ideia da maternidade para trás das costas.

Para operacionalizar este momento de clarividência tenho uma necessidade visceral de que o hospital atue o mais rápido possível. Aparentemente só em junho é que vão ser retomados os tratamentos suspensos. Será dada prioridade aos que não foram realizados em março, em menor número do que o habitual por causa da gestão relacionada com a pandemia. Não sei se pelo menos por uma vez a minha idade vai ser levada em conta. Quero tanto resolver isto até ao final de julho!

terça-feira, 28 de abril de 2020

TEC 9 lá no horizonte...

Telefonei esta manhã para o HSJ, porque amanhã tenho de "ZOOMar". A minha terna S. com a sua simpatia tão característica, disse que não sabem quando vão retomar a atividade, nem o que fazer em relação à sala de espera. Compreendo a preocupação delas, a configuração da sala não é a mais fácil de gerir para acautelar o distanciamento necessário. Arrisco dizer que permitir 3 pessoas em simultâneo no seu interior estará próximo do limiar do razoável. A diretora estava a dar uma teleconsulta, pelo que tive de aguardar que fosse contactada de volta com orientações para os próximos tempos.

Há pouco tive então a confirmação que não há indicações para reiniciar as TEC, pelo que vou continuar a pílula. Quando a minha S. falou à diretora que tinha telefonado para saber o que fazer quando terminasse o blister, ela respondeu logo que não podia parar, se não nunca mais menstruava e estragava o que tinha feito durante estes meses. Conhece a ave rara manhosa! É por isso que adoro aquela mulher, de verdade!

Por dois motivos não me perturba este adiamento. O primeiro é que dá tempo para a minha tiróide se adaptar à nova dosagem de tiroxina e talvez estabilizar para um valor seguro para mim. Fiz a introdução do Eutirox 112 há pouco mais de uma semana. Só daqui a cerca de dois meses é que posso fazer reavaliação do efeito da alteração. Chateia-me é que ao fim de tantos anos estável, se tenha lembrado de comportar como na adolescência, após o diagnóstico de hipotiroidismo. Foram necessários alguns anos de alterações frequentes até se acertar na dose.
O segundo motivo é inevitavelmente o impacto da pandemia. O acompanhamento atual às grávidas anda manco e, apesar de as hipóteses de eu engravidar serem escassas, não queria sentir-me desamparada se a minha jornada na infertilidade desse um passo à frente.

Durante os próximos tempos deverei aguardar contacto do hospital. Não sei quando será, essa é a parte mais familiar do processo.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Ser microscópico

Esta pequena entidade que está a pôr o ser humano em sentido mostra-nos, uma vez mais, que a nossa supremacia é relativa. Ao longo da vida vamos tendo imensos sinais da nossa fraqueza mas pouco tempo para os analisar. Temos de nos convencer que somos apenas um organismo vivo.

Como tive oportunidade de referir várias vezes, a infertilidade está de mãos dadas com o tempo. Este período em que Cronos parece ter estagnado, adia ainda mais o momento de finalmente dar de caras com a luz no fundo do imenso túnel. Tenho vivido estes meses com tranquilidade por estar a fazer a pílula dentro do que estava estipulado, no entanto esta semana termino(aria) a mesma para iniciar a preparação da TEC. Vou telefonar para o HSJ quarta-feira para saber se páro ou mantenho a pílula contínua. Imagino que nenhuma decisão tenha sido tomada ainda e vá continuar a tomá-la por tempo indeterminado.

Durante esta fase de confinamento tive análises canceladas assim como o adiamento de uma consulta de gastroenterologia no Hospital Pedro Hispano. Em relação às análises tive de solicitar à minha médica de família que as reagendasse com caráter de urgência, porque como tenho andado com a função tiroideia descontrolada, precisava confirmar se o acerto mais recente de medicação estava adequado. Suspeitava que não estivesse bem e já havia comentado com ela. Consigo perceber as mudanças que me acontecem e estas começavam a afetar o meu bem estar. Houve um dia em que tive tonturas de manhã até à noite. Sentava-me no sofá e de vez em quando via um candeeiro que tenho no teto, na zona de estar, a oscilar (ele tem uma estrutura estática). Em determinados momentos socorria-me das paredes para andar em linha reta, noutras alturas sentia que ia desmaiar. Decidi nesse dia que não podia esperar pelo reagendamento das análises por iniciativa do ULSM, então contactei o centro de saúde. Quando a médica viu o meu mail, tratou logo de solicitar ao hospital a marcação das análises e no final do dia fui contactada para, na manhã seguinte, fazer a colheita. O resultado mostra que, apesar da TSH estar dentro do intervalo de referência, ultrapassa o valor 4, que é elevado para mim. Agora tomo Eutirox 112, espero que esta dosagem seja a correta e me mantenha nos eixos durante muitos anos.

O Hospital Pedro Hispano está a tentar voltar à normalidade e há duas semanas recebi a remarcação da consulta de gastroenterologia que será a 25 de junho. Acredito que no S. João também não devam demorar a retomar a atividade na PMA, só que certamente vão começar a chamar quem estava previsto realizar tratamentos no final de março e mês de abril. Não sei como os centros de PMA públicos vão resolver a situação de quem estava no limite de idade.

Estou na confortável posição de estar nos 40 anos e ainda poder beneficiar de acompanhamento no público. Por outro lado está a incomodar-me o fator idade e o fim não estar à vista. Vou pensar seriamente se vou transferir um embrião ou os dois juntos, para arrumar o assunto definitivamente. Tenho vários receios e nenhuma certeza. Quero fazer a ressalva que o fator idade a que me refiro não é achar que estou biologicamente acabada para aguentar uma gravidez. Nem mais nova as gravidezes evoluíram, sabe-se lá porquê... É numa vertente de futuro, de perspetiva de acompanhamento do crescimento da minha cria.

Desde o final do verão passado, apesar das várias oscilações que tive no funcionamento da minha tiróide, consegui perder, até ao momento, 10 kg. Quero que este processo continue. Mesmo que seja num ritmo idêntico ao que tem sido até agora, não faz mal. Se conseguisse perder mais 15 a 20 kg, seria fenomenal. O confinamento não tem atrapalhado e é muito bom ver que há calças que estive quase a despachar, por ter perdido a esperança, que me servem novamente. Só o raio do peito é que não encolhe. Por causa disso, quando me olho ao espelho, parece que estou igual.

À semelhança de tantas pessoas, encontro-me a realizar trabalho não presencial. Continuo a efetuar a substituição, contrariando a indicação inicial de que provavelmente só estaria em funções durante um mês. O atestado da colega está constantemente a ser renovado. Lá para o final de junho, meados de julho, deixarei de ser necessária e acabará assim mais uma das minhas inúmeras curtas experiências profissionais.
Tenho permanecido atenta à divulgação das datas de candidaturas a determinadas modalidades, no ensino superior. Ando a "namorar" um curso, mas queria confirmar se no próximo ano letivo vai funcionar, caso contrário terei de ver outra alternativa. Pensei muito no tipo de curso que poderá fazer sentido nesta fase da minha vida. Estou a considerar a idade em que o irei concluir, qual se poderá adaptar melhor à minha dinâmica familiar e, acima de tudo, que possa constituir uma mais valia para integrar no mercado de trabalho em algo mais estável do que o que tem acontecido.

domingo, 8 de março de 2020

100 meses sem chegares

Sonhei muitas vezes contigo, sempre com contornos absurdos. O mais recente foi dias antes do último beta, em que tive a confirmação que não te iria conhecer. Estava a gerar-te fora da barriga, literalmente, como se estivesses no mesmo local de um pequeno saco de colostomia. Não me vou estender mais sobre este assunto para não ser demasiado gráfica.

Há 100 meses comecei a tentar ter um primeiro encontro contigo, ouvir-te, sentir-te, ver-te, cuidar de ti, ainda que não entenda nada do teu mundo. Pensei muitas vezes no dia em que o teu pai ia ter novamente a oportunidade de ver nascer uma cria, desta vez tu. Imaginei-o a dar-te colo para acalmar as tuas inquietações, brincar contigo, cuidar de ti. Quisemos que a tua irmã fosse uma inspiração para ti e participasse no teu crescimento. Batalhámos para que a tua irmã felina te acolhesse com a sua ternura e traquinice.

Não chegaste. Envelhecemos, ficámos desgastados, desanimámos. Decidimos que brevemente vamos deixar a cegonha que te ia trazer até nós, voar para outras paragens. As coordenadas GPS do nosso lar dão erro nos dispositivos das enviadas de Paris.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

De cabeça mais fria

Há uma semana estava furiosa comigo, apesar de hipoteticamente estar preparada para o resultado do beta. Ouvir da boca da médica a validação de mais uma derrota, ateou a brasa que estava meia latente em mim, desde o dia do teste. Fruto de ironias da vida com que tenho sido surpreendida algumas vezes durante estes anos, fiquei nos dias seguintes ainda mais na fossa. Dei por mim abjecta e desabei. Os episódios em que liberto as minhas emoções são cada vez menos frequentes mas têm sempre em comum a enorme desilusão por todo o meu esforço se traduzir em vazio. Atrás de cada tentativa que realizo há muita ponderação, cedências, sacrifícios, escolhas, cálculos, projeções no futuro. Acho que mesmo no início não encarei os tratamentos com inocência, talvez por estar consciente quase desde sempre de que necessitaria deles. Não houve momento algum, em tudo o que envolveu esta caminhada, em que me tivesse atirado de cabeça. Findo este tempo vejo que a racionalidade não me serviu de nada.

Estou a fazer um exercício mental para não sair disto arrependida e considerar todo o nosso esforço como o pior desperdício. Admito que atualmente é difícil não pensar nisso.

Se sair daqui como comecei quero ter oportunidades para redescobrir-me. Não poderei recuperar o tempo que dediquei ao que fora um sonho. Vou começar de novo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

TEC 8 agendada

Mais uma vez o endométrio não me desiludiu com o seu espessamento. Hoje está com 9mm, em condições para receber o mini-nós número 13. A TEC vai ser na próxima segunda-feira, dia 3 de fevereiro e a análise de beta-hCG está prevista para o dia 17. Apesar do embrião ser de 6 dias (que a médica considerou como sendo de 5), a análise só vai ser feita 14 dias depois. Se for positivo e baixo nessa altura, saberei que virá mais uma das gravidezes a que já me habituei. Amanhã inicio o Progeffik às 16h. A medicação que estou a fazer é a mais simples possível, sem empirismos ou experiências. Temos uma carta na manga que é o facto do cariótipo do embrião ser aparentemente normal. Após a transferência compete ao meu corpito aceitá-lo e deixá-lo crescer feliz e direitinho.

Estou constipada, espero que até à TEC isto se resolva.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Quatro décadas

Ando por cá há 40 anos. Não sinto que tenha passado assim tanto tempo, acho que dentro de mim ainda há muita juventude. A letra daquela música "Ternura dos quarenta" não encaixa com a minha forma de ver a vida. Entro nesta nova década com otimismo, despreocupada por ter abandonado os trintas que, tal como as décadas anteriores deixaram as suas marcas (boas e menos boas). Estou curiosa com o que aí vem mas sei que nem sempre tudo será bom. Não fico amedrontada por amadurecer, gosto de aprender com a experiência.

Há algumas certezas sobre o quero em mim: serenidade, clarividência, racionalidade, ponderação.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Participação no Estudo Clínico InOvulação

Quando fiz referência a este estudo manifestei que iria deslocar-me no final deste mês ao Hospital Senhora da Oliveira para iniciar a minha participação. Hoje foi o dia.

Fui atendida praticamente à hora agendada, o que de si já é um ponto favorável e senti-me muito bem recebida pela Dra. Vanessa Silva. A conversa fluiu com grande naturalidade e simplicidade. Como tínhamos comunicado algumas vezes por mail, o gelo estava mais que quebrado e foi bom ser ouvida acerca de algo que é uma pedra no meu sapato desde 1994.

Levei comigo a compilação de análises e ecografias que fiz desde a adolescência para se estudar o motivo da amenorreia. Quando tinha 16 anos, o meu nível de estradiol estava muito próximo de uma situação de hiperestimulação. Se calhar até teria sintomas mas nem reparava nisso. Só me recordo de sentir tonturas com muita frequência mas após iniciar a regularização da hormona TSH, já com 17 anos, a situação começou a atenuar, pelo que as tonturas não teriam nada a ver com o estradiol elevado.

Voltando à consulta, foi feita uma anamnese em que resumi em alguns minutos os últimos 25 anos, desde a menarca até à atualidade.

Passei em seguida para a ecografia. O extraterrestre (eu) exibiu toda a sua exuberância exótica interior (tanto 'ex' numa frase só!). A analogia que faço entre as imagens visualizadas no ecrã e algo mais gráfico é de que parecia que estávamos a observar umas cabeças de sementes de flores de lótus. As cavidades onde as sementes estão incrustadas são daquelas bem largas. O útero, em oposição àquele freak show ovárico, é belo, maravilhoso, um verdadeiro oásis que não se entende por que raio não aceita os embriões-capa-de-revista que lá estiveram. Tem um ar cândido, diria até celestial, mas tem sido um completo inútil, tal como os ovários que só funcionam sob ameaça. Pelo aspeto das minhas gónadas incomuns, a Dra Vanessa percebeu como as hiperestimulações devem ter sido complicadas e dolorosas. Ficou surpreendida por não ter sofrido torção dos ovários. Foi feita contagem dos folículos e esta miúda que vos escreve, que se encontra a cerca de duas semanas de se tornar quarentona, tinha 42 de um lado e, se não me engano, 35 no outro. Uma aberração, pois.

Falei que foi equacionada a possibilidade de ser realizado drilling antes das FIV. O que vou escrever em seguida pode ser importante para quem tem ovários poliquísticos e está no fim da linha, prestes a desistir. Supondo um cenário em que já não é possível realizar tratamentos, se está numa idade em que pensar na reserva ovárica deixa de fazer muito sentido e não constitui problema dedicar mais cerca de meio ano a queimar os últimos cartuxos, o drilling pode ser o derradeiro resquício de esperança para tentar uma gravidez natural. Não o pretendo fazer, mesmo que os 3 embriões não deem em nada. A minha decisão está mais que tomada.

Assinalei numa folha de que forma sou afetada pelo hirsutismo, selecionando uma escala ilustrada; foi registada a minha altura e o peso; mediu-se o perímetro da cintura, bem como da anca e realizou-se a medição da tensão arterial.

Foi frisado que o objetivo do estudo não é investigar as minhas falhas de implantação. Estou bem ciente disso, assim como sei que não terei qualquer benefício nesta participação, além de ter análises atuais. Outras mulheres, pelo contrário, poderão ter apoio que até lhes permita engravidar.
O conhecimento científico não cai do céu e há ainda muitos assuntos que carecem de investigação. Sem estudos de caso, compilação e análise de dados, avanço tecnológico e capacidade de interpretação da informação, torna-se difícil progredir no conhecimento.

Darei amanhã o próximo passo voltando a Guimarães para, desta vez, fazer análises. Do ponto de vista analítico serão avaliados os seguintes parâmetros: FSH, LH, Estradiol, Cortisol, Prolactina, TSH, T4 Livre, Testosterona, DHEA-S, Hormona anti-mülleriana, Leptina, Grelina, SHBG, Colesterol LDL, Colesterol HDL, Triglicerídeos, Glicose, Insulina e ACTH. Irei finalmente saber o valor da hormona anti-mülleriana que nunca foi pedido em todos estes anos, talvez por conta das imagens óbvias das ecografias.

Serei posteriormente informada de todos os resultados e a minha interação deverá manter-se à distância, ou seja, por via eletrónica. Este contributo faz-me sentir um pouco mais útil para outros, já que para mim é tarde e deixa-me com a sensação de dever cumprido. A minha passagem aqui pelo planeta faz um pouco mais de sentido se, pelo menos uma pessoa, tirar partido dos resultados da investigação.

Sobre o regresso ao Hospital de Guimarães, este não me é desconhecido, por maus motivos. O edifício onde fui à consulta esta tarde fica bem ao lado da unidade onde o meu pai foi acompanhado, em oncologia. A última vez que o levei àquele lado foi há praticamente 17 anos, dois dias antes de ter assistido à estupidez que é as células deixarem de funcionar, por mais que queiramos contrariar. O seu corpo resumia-se a pele, osso e barriga. O abdómen tinha de ser drenado semanalmente naquele hospital, uns 5 litros de cada vez, de um líquido claro resultante da falência do fígado provocada pelas metástases. Foi por isso que lá fui nessa altura. Ele já não tinha força para se manter em pé sozinho, por isso apoiava-se a nós para descer ou subir degraus, transportávamo-lo de cadeira de rodas dentro e fora de casa e eu pegava nele ao colo para o transferir para a cama. Esse período da minha vida teve um grande impacto na forma como encarei a infertilidade e todos os momentos desagradáveis que aconteceram entretanto.

Amanhã darei início ao Provera e conto menstruar no dia 5 de janeiro. Dia 6 ou 7 devo fazer ecografia e na semana seguinte, a TEC.

Enviei mail ao Dr. J. L. da CUF Descobertas para o colocar a par da recente estimulação e do rastreio de aneuploidias. A única recomendação que fez foi a de garantir um bom aporte de progesterona, por via vaginal.

2020 soa-me um número bom e 13 pode vir a ser o da sorte. Irei transferir o décimo terceiro mini-nós. É incrível como o pavio de esperança ainda arde, embora ténue. Aguardam-me semanas de bipolaridade. Se engravidar nesta transferência, gostava que fosse sem sangramentos de nidação, com um valor de beta chorudo e tudo a reinar na mais perfeita harmonia. Uma vez que fui contemplada com uma punção paradisíaca, em comparação com as anteriores, podia ter uma gravidez tranquila ao invés daquele sufoco permanente logo que tenho conhecimento de um resultado positivo. Não creio em nada ligado à transcendência, nem ando a pedir desejos a calhaus que se desintegram na atmosfera quando os avisto (meteoros). Ingiro as 12 passas despojada de pensamentos. Esta minha indiferença à crendice ou espiritualidade faz-me viver o processo com uma grande carga. Não sei como é que se pode deixar o desfecho nas mãos de alguma entidade aprisionada nos pensamentos. As células, os elementos químicos presentes nas mesmas e na forma como se combinam definem o sucesso ou o fracasso. A materialidade aliada às forças físicas cujas interações construíram a natureza e o Universo originam e destroem o que comummente chamamos de milagre da vida.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

8 anos

Estou há perto de uma década a enfrentar o maior desafio que a vida me colocou à frente. Oito anos sem resultados. Quando me aventurei neste caminho não cogitei acerca do tempo que iria dedicar-me a esta causa. Inocentemente idealizei que 35 anos era o limite ideal para entrar no mundo da maternidade. A um passo dos 40 anos esta história ainda não acabou. Poderá terminar este mês, se da parte do Departamento de Genética as notícias não forem animadoras. Caso as nossas células se tenham entendido de forma biologicamente apropriada, a situação vai arrastar-se mais alguns meses, com aquela incógnita típica das transferências.

Daqui a umas duas semanas os meus pensamentos vão começar a estar direcionados para o resultado do rastreio por fazer um mês que a biópsia foi realizada. Até ao fim de novembro devo saber alguma coisa. A par disso estou a finalizar a fisioterapia ao pé. Vou ficar com sequelas às quais terei de me habituar. Ando também a efetuar outros exames por problemas que têm surgido. O fantasma oncológico e uma questão inflamatória que tem de ser esclarecida estão a ser investigados. Desde meados de agosto vou a hospitais/clínicas de diagnóstico com uma frequência quase diária (nos dias úteis). Além daquilo que está agendado ainda vou marcar mais dois exames aos quais se poderá seguir outro, só para uma das coisas que está a ser estudada. Na semana passada apareceu outra "surpresa" a que deverei estar atenta para ver se cresce, volta a doer ou desaparece. Estou a tratar disto tudo agora, enquanto não surge nenhum aviso de que farei alguma TEC. Aguardam-me algumas consultas, uma sedação no dia 14 e outros exames que não poderia fazer se estivesse numa fase de transferência.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Há uma luzinha de esperança

Ligaram-me há minutos para fazer o balanço final. As biópsias foram feitas hoje. Dos 6 embriões desta estimulação 4 aguentaram. Dos dois que estavam congelados um degenerou e o outro desenvolveu, sendo também realizada biópsia. A bióloga não está muito confiante em relação a este último, porque sofreu várias agressões. Foi criopreservado, desvitrificado, biopsado e voltou a ser congelado. Mas, também como disse, nunca se sabe se ele não surpreende.

Sendo assim, será feito o rastreio a cinco embriões. A bióloga disse para não contar fazer TEC este ano. Estão com imenso trabalho e ela não tem a certeza do tempo que o departamento de Genética vai demorar a manifestar-se. Talvez em janeiro faça transferência, se houver boas notícias. Perguntei como seria no caso do resultado ser desastroso. Aí contactam-me e terei consulta para falarem comigo ou se preferir saber por telefone, informam-me.

Estou nervosa mas aliviada por mais uma etapa estar concluída.

Ontem e hoje tenho pontadas esporádicas no ovário direito, principalmente quando a bexiga está a ficar cheia. Os ovários devem continuar volumosos. As mamas estão túrgidas e pesadas, oxalá menstrue em breve.

Vou aproveitar esta semana para fazer a vacina da gripe, a diretora disse que não havia problema.

Sinto-me emocionada e agradecida por estar a ter esta oportunidade. Hoje choro lágrimas de alegria, há muito tempo que a vida não era generosa para mim nesta matéria.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Em recuperação

Tenho algum volume abdominal e as dores quase não existem. Está a incomodar-me mais a tensão mamária que só vai ficar resolvida quando menstruar. É tiro e queda.

Os maxilares estão um pouco doridos mas para ter esta sensação é porque, mais uma vez, foi realizada tração da mandíbula para melhorar a ventilação.

Voltei à fisioterapia, não tive dificuldade nos exercícios que exigiam um pouco de esforço na zona abdominal. Amanhã encerro a primeira ronda de 12 sessões e tenho mais uma consulta de ortopedia para reavaliação. Seguem-se outras tantas sessões de fisioterapia que vou realizar nas próximas 4 semanas.

Quero perguntar no HSJ se enquanto aguardo pelos resultados posso fazer a vacina da gripe. Durante as fases de preparação e de TECs que fiz em outonos anteriores ela desaconselhou. Agora que não estou a fazer nada, pode ser que não haja problema. Apesar de atualmente não estar em contacto com as fontes de contágio que me faziam ter gripes e constipações a um ritmo mensal, não sei o que me espera daqui a uns tempos.

Espero que os mini-nós estejam confortáveis e animados com as meioses. Foram muitas as oportunidades que as minhas células e as do meu marido deram entre si de se conjugarem, nem que fosse por algumas horas. 13 na primeira FIV, 15 na segunda e agora 11.

Só de ovócitos recolhidos foram no total 69, entre maduros e imaturos. Quando faço as contas a todos os números dos meus tratamentos e penso no que vivi até chegar aqui, parece algo irreal. Como é que consegui suportar isto tudo e não resultou sequer?

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Fecundação - primeiras informações

Já tenho novidades dos meus miúdos. Dos 16 ovócitos, 11 estavam maduros. Após a microinjeção há, neste momento, 6 embriões muito bons e outro que provavelmente não irá evoluir. Os outros dois mini-nós serão descongelados e deixados a desenvolver. Domingo é o dia das biópsias e só voltarei a ter notícias nessa altura.

Tenho esperança que vai haver embriões a resistir a todo o processo e sobre os quais poderei saber, daqui a umas intermináveis semanas, o resultado do rastreio.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Do meu estado atual

É com uma enorme leveza que escrevo neste momento. Só o facto de não estar em sofrimento acentuado, o ânimo é muito maior. O mau estar é praticamente nulo em relação às terríveis experiências anteriores. Acho que vou ter uma ótima noite. Não me parece que o estado vá piorar, até porque não vai haver transferência a fresco.

Em termos de excreção está tudo funcional, o que é um alívio. Lembro-me que após a primeira punção o meu intestino tirou férias quase duas semanas. Tomei uma medida extrema para tentar solucionar a situação sem recorrer à via farmacológica. Atualmente rio-me do que fiz, mas na altura estava desesperada. Sou intolerante à lactose e tenho SII (Síndrome do Intestino Irritável). Há determinados alimentos/pratos que me levam quase instantaneamente a descobrir onde é a casa de banho mais próxima. Alguns alimentos consegui identificar mas há muitas situações em que ainda não descobri o(s) culpado(s). A lactose combina esse efeito imediato com uma dor intensa e uma sensação de barriga insuflada que perduram por dias. Quando me apercebi da inatividade do meu cólon e vi que a obstipação estava convictamente instalada, decidi agir. Pensei atacar com um pingo feito de leite "normal". Acreditem que a quantidade de lactose presente num simples pingo, causa-me muitos estragos. Este ato iria trazer como consequência desagradável uma dor persistente intensa que não queria sentir, considerando que ainda estava sob o efeito da hiperestimulação. Desisti do plano da lactose e passei para o da SII. Há um prato que, nalguns locais e num em concreto, é tiro e queda para me fazer visitar o WC. É a famosa francesinha! A uns três quilómetros da minha casa encontra-se um restaurante pequeno, onde praticamente toda a gente come o mesmo, ou seja, a famosa sanduíche com carnes, queijo e coberta de molho. É boa, é poderosa! Tão poderosa que lembrando-me do que ela me causava, implorei ao meu marido para jantarmos no restaurante P., porque não sabia mais o que fazer para despertar o gigante adormecido. Então lá fomos, estava confiante que o meu plano ia resultar. Enganei-me redondamente! Comi a francesinha e não aconteceu nada... Fiquei com uma revolta imensa e mais preocupada ainda. Só uns três dias mais tarde é que o intestino deu sinal de vida. Curiosamente estive alguns anos sem ir àquele restaurante e quatro dias antes de iniciar esta estimulação regressei com um grupo de amigas. Estava de pé atrás e com razão, pois o raio da francesinha fez-me voltar a visitar as instalações sanitárias.

Voltando a este tratamento, estou mesmo confiante de que os ovócitos estão maduros o suficiente e com melhor qualidade que na estimulação anterior. Da outra vez foi um disparate, passar em apenas 3 dias, de folículos abaixo de 10mm para um estado praticamente pronto a puncionar. Hoje falaram-me várias vezes que me vão contactar quando chegar a altura de preparar a TEC. Partem do princípio que vai haver embriões para transferir, estão sempre muito mais otimistas que eu. Vou seguir no embalo e esperar pelo telefonema. Para que isso aconteça só tenho de ouvir boas notícias da bióloga. Amanhã vou perguntar-lhe como vou ter conhecimento do resultado do rastreio.

A diretora, as enfermeiras e a maravilhosa técnica administrativa ficaram realmente felizes por ter dito que esta punção correu de uma forma que nunca esperava. Vou guardar na memória cada uma delas com muito carinho.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

PGT-A - Dia 15

Às 8h vou estar no hospital para colocar o catéter, depois é aguardar pela minha vez para fazer a punção. Está a começar a chegar o nervoso miudinho, não pelas dores que vou sentir mas pelo aproximar das próximas etapas.

Trata-se do culminar de oito anos cheios de incertezas, desilusões, sofrimento. Passei milhares de horas a pesquisar, perdi a conta às noites em claro a pensar na vida, gastei muitos dias em salas de espera de hospitais. Deixei vários tubos de sangue para analisar, fiz uma quantidade de ecografias que jamais pensei que fosse realizar. Sacrifiquei a minha vida profissional para conseguir fazer tratamentos a cada 4 meses, tomei uma quantidade infindável de comprimidos, injetei-me com a mesma ligeireza com que realizo uma atividade banal do quotidiano.
Chorei, se chorei... Acabei por ficar sem lágrimas pela permanente deceção comigo. Ouvi muita coisa, desde palavras de motivação, incentivo e aconchego. Fui também variadíssimas vezes dissuadida a desistir, a procurar alternativas de tratamento ou aconselhada a ponderar outras formas de ser mãe. Foram-me ditas algumas palavras que dispensava ter ouvido. Os momentos baixos sobrepuseram-se aos altos, planeei o meu dia a dia em função dos tratamentos ou dos seus possíveis resultados, perdi o meu eu algures por aí. Perdi 4 filhos. Dezenas de embriões, os mini-nós, não conseguiram evoluir. Na vida além da infertilidade realizei algumas conquistas, vivi momentos felizes, amadureci. Passei a valorizar mais a simplicidade, aprimorei a forma de ver o que me rodeia, não me deixo deslumbrar facilmente com as coisas.

Validei uma grande aprendizagem com esta luta. Não temos noção da nossa capacidade para enfrentar situações menos boas até nos depararmos com elas. O motor desta luta é a esperança.