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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Beta - TEC 9



É isto

Colheita feita

O sangue que vai ditar a sentença já está no tubo. O resultado demora até 3 dias úteis a ficar pronto. Estou mal habituada do HSJ em que, à hora de almoço do próprio dia em que se tira o sangue, se tem conhecimento da verdade.
Quando me deitei esta noite, a minha gata veio ter comigo, massajou-me e debruçou-se em cima da barriga. As lágrimas começaram a correr. Havia uma mistura de sentimentos que não consigo explicar. A única certeza que tenho é que não era de remorsos pela decisão que tomámos.

domingo, 26 de julho de 2020

Dia 14 - TEC 9

Estou apenas à espera que chegue a hora de colher sangue.

A minha mente tem dois tipos de leitura sobre como estou. Ou se trata de um início de gravidez sem qualquer indício ou encontro-me a atravessar o meu último grande fiasco no campo da infertilidade. É a realidade.

Fazendo o balanço destas nove transferências vejo quão descabido seria continuar. É como se estivesse a remar num bote e em vez de me aproximar da margem, não saía do sítio ou ficava cada vez mais para trás, enquanto a vida continuava na ilha. Fui perdendo parte da minha identidade e do amor próprio. Não vou dizer que me arrependo mas não tenho problemas em admitir que este processo me destruiu, de certa forma. Tenho de fazer uma aprendizagem a partir daí.

O momento pelo qual tanto aguardei está à porta. Já não é o princípio do fim, como há uns dias. Vou cortar a meta desta maratona que nunca pensei que fosse terminar. Estou tão, mas tão em paz comigo!

sábado, 25 de julho de 2020

Dia 13 - TEC 9

Tic tac, tic tac, o relógio avança rapidamente, rumo ao dia 27 de julho. Às 9h50 estarei na junta de freguesia para fazer a recolha de sangue. Sim, na junta. O centro de saúde tem uma área diferenciada para pacientes com suspeita de Covid, então as colheitas tiveram de passar a efetuar-se noutros locais.

Tive uma ou outra pontada no útero e mais nada significativo.

Tentei não criar um stock de medicamentos mas já tenho algumas coisas empatadas que vou doar ao hospital, nomeadamente duas caixas completas de Lovenox 40 e outra parcial. Possivelmente sobrará uma embalagem de Progeffik, outra de Acfol e Estrofem. O meu nécessaire destinado em exclusivo para PMA já fecha na totalidade. Fiz asneira daquela vez que comprei todo o Lovenox que estava na receita. Foram, salvo erro, 6 caixas de uma vez só e no fim usei apenas três, mais algumas seringas de outra, porque a gravidez terminou mal, comme d'habitude... Às vezes perde-se o fio à meada à quantidade de caixas que se comprou a partir de uma determinada receita, porque vai-se introduzindo um, outro, mais outro medicamento. Quando se entra nestes meandros, não se pensa que uma parte significativa pode nunca vir a ser ingerida, então avia-se tudo. O problema é que por vezes as coisas correm mal e além do desgosto por não ter resultado, há dinheiro que fica empatado. Pode dar mais trabalho mas o melhor é estimar o que vai ser necessário até ao beta e comprar de forma racional. Em seguida, logo se vê. Com as injeções usadas na estimulação não dá para fazer essa gestão. Vai-se aprendendo com os erros. Nunca é demais dar estas dicas, porque os medicamentos não são propriamente baratos.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Dia 12 - TEC 9

O meu estado de espírito é uma espécie de onda sinusoidal, que neste momento se encontra num pico de serenidade.

Esta tarde fomos ao supermercado e ao passar no corredor dos congelados tive aquelas dores intensas no útero que duram alguns segundos. Mais tarde senti algumas náuseas e acho que o volume mamário está a começar a aumentar.

Não vou dizer que falta pouco para resolver o mistério, porque posso vir a dar de caras com um betinha e aí a situação pode arrastar-se mais algum tempo. Se voltar a ter de realizar colheitas dia sim, dia não, vai ser interessante ver a dinâmica do funcionamento do centro de saúde.

Depois de uma estagnação no meu peso, parece que está a recomeçar a reduzir, exceto nas mamas, que não devem ter muito tecido adiposo. Mesmo que perca mais 10 ou 15 kg, acho que se vão manter iguais. Elas pesam, atrapalham-me e causam problemas cutâneos. Podiam ter permanecido como eram quando tinha 15 anos, mas não...

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dia 11 - TEC 9

Começaram hoje as dores no útero quando me levanto. A tensão mamária associada ao Progeffik ainda não se manifesta.

A minha miúda de longos bigodes acha por bem massajar-me a barriga quando lhe deve parecer que estou a precisar. Aproveitou uns minutos da tarde em que se sentiu um pouco mais fresca para se meter comigo com as suas macacadas. Ela sabe como me fazer sorrir e gosta de me provocar com a traquinice que me deixa derretida. Somos cúmplices, temos um amor incondicional uma pela outra. Quero-lhe tanto bem a ela como desejo para mim. Não a vejo como um animal de estimação, é um membro da família. Tudo nela é especial, até a quantidade astronómica de pêlo que liberta todos os dias, porque aqui em casa o calor abunda grande parte do ano. A minha menina nasceu sem olhos. Vê melhor com o coração do que muito boa gente com todos os sentidos. Tem 70 cm de comprimento desde o nariz até à ponta da cauda em jeito de espanador do pó. A sua língua é mais abrasiva do que noutros gatos que tive, talvez para conseguir desembaraçar bem os longos pêlos. Adora fazer-nos esfoliações, consegue ronronar durante quase uma hora seguida, ressona como gente grande, espirra com alma, mia pouco enquanto está acordada mas é frequente miar quando sonha, bebe muita água desde pequena, não mastiga a comida, é esquerdina, não gosta de ser escovada, não se importa que lhe corte as unhas, é curiosa, rufia, dá turras que mais parecem cabeçadas, dá as boas vindas a quem vem aqui a casa de uma forma muito engraçada, é muito amistosa, oferece-me a barriga, pede e dá abraços fortes, encosta a cara dela à minha enquanto a abraço, conhece várias palavras e expressões, tem medo de trovões, esconde-se para me fazer esperas, desafia-me pondo-se a andar de lado para mim, tem um relógio suíço dentro dela, é uma criançola que vai fazer 9 anos em setembro e de sénior não tem nada. Estaria aqui horas a fio a escrever sobre a minha menina e não seriam suficientes para mostrar tudo o que ela representa para mim.

O meu coração está um pouco mais calmo. Não vale a pena desesperar. Venha o beta, que depois reoriento-me.


Dia 10 - TEC 9

Mais um pouco de nada.
A semana está a fluir rapidamente, o que é bom. Desejo que os dias que faltam passem ainda mais depressa para poder sossegar uma parte da mente. É difícil desligar-me, deixar de traçar cenários. Seria bem mais fácil viver esta experiência se nos fossem feitos shutdowns em alturas específicas.

É um período estranho este que estou a viver. Os últimos 5 anos foram pesados, habituei-me a uma normalidade de desordem, em que tentei não descarrilar para manter o discernimento e aguentar as situações que iam ocorrendo. A infertilidade dominou uma fatia significativa e o que a rodeava estava fortemente associada a ela. Foi preciso um grande esforço para manter a lucidez.

A morte do meu pai influenciou em grande medida a minha capacidade para dar a volta às adversidades. Estava a terminar o curso quando assisti à sua morte, em plena época de exames. Já tinha concluído os exames das cadeiras daquele semestre, faltavam dois aos quais me tinha inscrito para fazer melhoria de nota. Estudava a 400km de casa e as semanas que se seguiram foram muito solitárias, porque não me sentia à vontade para incomodar os meus colegas. Eles tinham de estudar para os exames, então não achava correto interrompê-los. O meu primeiro luto foi passado na companhia de Colóides e Superfícies e Química Física. Melhorei as notas, foi um aspeto positivo. Depois desse ano letivo ter terminado fiz estágio pedagógico, ainda longe da minha base familiar. O volume de trabalho era tão intenso que a disponibilidade para ir à terrinha era pouca. Os fins de semana muito esporádicos eram espremidos, devido ao enorme tempo de viagem. As poucas horas que passava em casa da minha mãe não eram muito diferentes do que antes, porque até o meu pai adoecer, ele trabalhava frequentemente ao fim de semana. A queda para a realidade não se deu totalmente nessa altura. Foi no regresso ao lar, após terminar a licenciatura, que se deu o verdadeiro processo de luto, pois percebi realmente que ele já não estava connosco. Apesar de o ter visto partir, a situação era surreal demais em relação a tudo o que vivera até então. No maldito dia, senti um desespero desmedido. Tinha a noção clara de que estava prestes a acontecer mas ninguém está verdadeiramente preparado para perder alguém, por mais inevitável que uma situação pareça. Ver a degradação do seu estado, minuto a minuto, até ao último suspiro (que expressão tão real!), acordou em mim um ódio descomunal. Ele faleceu num domingo, dia 26 de janeiro de 2003, às 17h20, em casa. Naquela altura não havia capela mortuária na terrinha, então o caixão encontrava-se aberto na sala da nossa casa. O funeral foi na terça-feira, ao início da tarde. O que antecedeu a morte e os dias seguintes até ao funeral, foi mau demais e não vou desenvolver. O padre que celebrou o ato fúnebre foi a cereja no topo do bolo, pelos piores motivos.

Voltando ao luto, deparei-me com um vazio ensurdecedor. Mantive durante algum tempo o ato reflexo de espreitar quando é que ele chegava do trabalho. Sonhava tantas e tantas vezes que ele tinha morrido mas, do nada, estava de volta, embora fosse desaparecer novamente, porque o cancro não o tinha largado. Continuo a sonhar com ele regularmente e é sempre com esse tipo de características. Custou-me perceber que a minha vida tinha de continuar e que nada que fizesse ia trazê-lo novamente à vida. Era como se tivesse remorsos de me permitir ser feliz. Esta perda tão dura marcou a minha forma de encarar o que de negativo se seguiu. Trouxe-me alicerces para lidar com a desilusão, tornou-me menos inocente e pouco apta para reconhecer que as coisas boas podem acontecer.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Dia 9 - TEC 9

Esta tarde aninhei-me a separar roupa para lavar. Pouco depois de me ter levantado, e não foi de forma brusca, fui invadida por umas náuseas muito fortes durante cerca de meia hora. Nunca me tinha acontecido isto.

Em alguns momentos do dia senti pressão na zona do útero, principalmente quando me punha em pé, mas ainda não tive aquelas pontadas agudas a que estou acostumada das outras transferências.

A fome vai aparecendo, mesmo a seguir a uma refeição, embora penso que também aconteceu com TEC negativa. Tenho quase a certeza de que não estou grávida.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Dia 8 - TEC 9

A requisição do beta ainda não estava pronta. Tive de aguardar que a médica a passasse. Consegui marcar o beta para o dia 27 sem complicações, fiquei surpresa. A entrada do centro de saúde estava um pouco confusa. As pessoas ficam nervosas e a intolerância vai sendo cada vez mais acentuada. Toda a gente já percebeu que a "normalidade" não se vai instalar tão cedo, motivando ansiedade por não se conseguir fazer as coisas como antes. Acho que vários dos hábitos que estão a ser adquiridos vão integrar as nossas rotinas futuramente e teremos de nos adaptar a todas as mudanças que ainda vão acontecer.

Falta uma semana para o beta e não sei quanto tempo mais para sair o resultado. Quando se está mais certo de um resultado negativo que positivo, uma espera tão prolongada pelo beta vai gerando um sentimento ruim. Não vou, contudo, fazer teste de farmácia por causa do meu cadastro de betas baixos e gravidezes bioquímicas. Não me traz qualquer tranquilidade, só serve para me enervar.

O Progeffik não fez das suas com o aparecimento de tensão mamária. A gastrite está adormecida, não tenho fisgadas no útero. Vou tendo uma sensação de fome ocasional, é a única coisa diferente. Preciso de arranjar algo para me distrair durante a semana.

Dia 7 - TEC 9

Tenho evitado falar de perdas de sangue mas no meu histórico foram uma parte importante. Atendendo à cronologia das outras transferências e do número de dias do embrião, poderia ser hoje que as mesmas dariam sinal. Não detetei nada. Esta tarde tive a leve impressão e não estou certa de tal, que senti uma ligeira moedeira, como se a menstruação estivesse a chegar. Se não me enganei nesta sensação, pode ser manifestação de efeitos secundários do cocktail químico, por isso não vou valorizar.

Estou a preparar uma bandeira branca para me render. Disseram-me uma vez que um dia iria descobrir o motivo ou um propósito que justifica tudo o que me aconteceu. Foi numa tentativa de me confortar mas não tenho capacidade de encaixe para interiorizar essas palavras com a intenção com que mas disseram.

Já relatei algumas vezes sonhos que tive relacionados com a maternidade. Sou daquelas pessoas que têm uma grande facilidade em se recordar dos sonhos, mesmo quando numa noite são vários. Nas vésperas da TEC sonhei que tinha um filho com um ano mas durante aquele período estava a ser educado por uma prima muuuuuiiito afastada que se encontrava super grávida. Era o dia do seu batizado, ia conhecê-lo e a partir daquela altura ficaria com ele. Não sei que circunstâncias levaram a que ele não estivesse comigo no seu primeiro ano de vida. Outra coisa estranha é o contexto da situação. Sou ateia mas não tenho problemas nenhuns em ir a cerimónias religiosas. O bebé (não sei como se chamava) vestia um vestido/túnica branca, sem fralda. Pensei que a ausência de fralda tivesse a ver com alguma coisa relacionada com o ritual, apesar de nunca ter visto isso noutros batismos católicos. Não me sentia no direito de assumir o papel de mãe quando não o conhecia sequer, nem tinha acompanhado o seu crescimento. A minha prima pôs-me à vontade para pegar nele numa espécie de passagem de testemunho. Foi então que a nossa ligação começou. Sou inexperiente com bebés e tinha uma preocupação imensa em não fazer asneira com ele no meu colo. Alguns segundos depois comecei a sentir algo estranho na mão esquerda. Ele estava desfraldado e quando espreitei para a mão, vi que o número 2 estava a conhecer a luz do dia. Fui perguntar se alguém tinha lenços ou outra coisa para remediar a situação. A juntar-se ao número 2, veio também o número 1. Já não era só a mão que tinha sujidade, o seu corpo e as nossas roupas também. Apesar de borrada, tinha o meu filho desconhecido ao colo. O sonho terminou aí.

Acontece com muita frequência ser a última a saber que estou grávida, que tenho filhos ou estes passam os primeiros tempos da sua vida com outras pessoas. Não sei porque é que sonho nesses moldes. Antevejo que na véspera do beta vem mais uma noite recheada de sinapses esquisitas.

sábado, 18 de julho de 2020

Dia 6 - TEC 9

Este período de espera até ao beta está a ser produtivo no que diz respeito a introspeção. Perco-me nos meus pensamentos. Reflito acerca do passado, presente e hipotéticos futuros. O meu futuro neste momento, encontra-se numa situação semelhante ao programa de TV que havia dantes, o Agora Escolha. Só falta o público votar no final da história que quer ver.

Tenho reparado que ultimamente a política do hospital no que diz respeito à altura em que o beta é realizado tem sido fazer duas semanas depois da transferência (pelo menos no meu caso), mesmo com blastocistos. Talvez seja para que o valor tenha mais consistência, em vez de se ficar no limbo dos nins.
Esta semana que vem vai durar uma infinidade...

Não há nada a relatar, nem sequer efeitos secundários da medicação. É um tédio...

Dia 5 - TEC 9

À exceção do calor que me derreteu, não aconteceu nada. É estranho ainda não ter sentido sequer aquelas dores fortes no útero que por esta altura, nas outras transferências, já se manifestavam quer em positivos como negativos. Acho que as mamas também não aumentaram de volume, nem as sinto doridas.

Vou ser honesta quanto à minha esperança neste momento. Se eu tivesse uma balança de pratos em que um correspondia ao positivo e o outro ao negativo, este último estaria bem abaixo do primeiro. Esta animosidade tem a ver com algo tão simples, como ter uma dificuldade imensa em pensar que a minha história terminará como tantas que li e acompanhei. É, no fundo, embarcar na velha máxima de que as coisas só acontecem aos outros. Detesto ter esse pensamento. Não deixa de pairar a ideia "por que raio vais ser daqueles casos clássicos que, na última tentativa, consegue concretizar o seu sonho?". No que toca a infertilidade sou arrasadora em relação a mim mesma. Se calhar é algum mecanismo de defesa que tento arranjar na esperança de um dia ser agradavelmente surpreendida. Às vezes penso que estes devaneios não têm coerência nenhuma. É como me sinto, se tem algum sentido, não sei.

Foram finalmente divulgadas as datas de candidatura para o curso que quero tirar se o resultado da TEC não for favorável. Felizmente o período é bastante dilatado e não vou precisar de tomar uma decisão para ontem, como tem acontecido em praticamente tudo. A propina é baixa, o que é ótimo. A desvantagem é que, sendo a tempo integral, durante dois anos a parte profissional vai estar reduzida a praticamente nada. Deverei conseguir conciliar com algumas prestações de serviço que poderão cobrir as despesas com o curso. Tenho de pensar que esta aposta é na tentativa de me proporcionar uma "segurança" laboral maior do que aquela que tenho, que é nula. Se for a fazer bem as contas a estes anos todos em que fui acompanhada no SNS, perdi tanto ou mais dinheiro do que aquele que teria gasto no privado. Trabalhei maioritariamente a tempo parcial para conseguir conciliar com as mais de 100 deslocações que fiz ao hospital. Este valor é real, não o estou a inflacionar. Eu tinha feito há tempos uma estimativa que rondava o número 90. Contei no início desta TEC os registos na Área do Cidadão, no portal do SNS. Não queria acreditar quando vi que estava nos 100 e percebi que faltavam ainda alguns atos clínicos. Considerei na contagem apenas o que estava relacionado com o que foi feito no âmbito de infertilidade, desde o primeiro acompanhamento no Hospital Pedro Hispano (o maior estorvo do meu processo).

Quando me refiro a centenas de horas passadas em salas de espera, milhares de comprimidos, muitas dezenas de ecografias, milhares de euros, não é uma hipérbole. Traduz a minha realidade. Quando isto acabar vou colocar aqui um printscreen das tabelas que forneci nos dois estudos em que participei. Vou também divulgar um apanhado geral de todos os números daquilo com que convivi desde que decidimos tentar a nossa sorte.

Esta manhã uma companheira de luta do fórum onde conheci gente formidável, foi ao Programa da Cristina. Aconteceu aquilo que previa. No escasso tempo que houve para explorar o tema ela conseguiu ser incisiva e muito assertiva no que disse mas ficou a faltar o principal: tempo. É impossível falar devidamente sobre infertilidade naqueles moldes. Dou os parabéns por, tanto ela como o marido, terem participado no programa para nos dar voz. No que toca a este tema a Fátima Lopes tem outro arcaboiço, porque ela vivenciou a PMA. Sabe como tocar no assunto e dedica-lhe mais tempo sendo, mesmo assim, insuficiente. A desvantagem é que o horário da tarde não deve agarrar tanto público como o da manhã. O problema dos programas de televisão é que, como se fala superficialmente do assunto, este acaba por ser desvalorizado. Perpetua a ideia que acontece a meia dúzia de pessoas e com umas injeções tudo se resolve. O Blogger, em contrapartida, nunca me limitou naquilo que escrevi. Pude exprimir tudo o que quis, quando bem entendi, da forma que me fez mais sentido. Aqui sinto-me livre, nunca quis esconder nada, porque também estive do lado de leitora em busca de alento. Encontrava muito pouco e decidi que ia construir este "livro" em tempo real. 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Dia 4 - TEC 9

O que me incomoda atualmente num ou dois períodos do dia são as náuseas. Não sei se é da combinação do Estrofem com este calor.

Dentro de casa estão 30°C e só saio em último recurso como foi esta manhã, para tratar da marcação das análises. Não tratei, voltei para trás sem nada resolvido. O meu centro de saúde tem um funcionamento peculiar que ainda não consegui perceber. Desde que começou o estado de emergência, a comunicação é feita basicamente por mail. Tem sido eficaz, ao contrário do que acontece presencialmente, que me sinto um extraterrestre de cada vez que me dirijo à parte administrativa. Cada um diz uma coisa diferente. Quando sigo as instruções dadas por um secretário clínico, em que tenho de voltar noutra altura para concluir o que é necessário cumprindo as indicações dadas, outro que me atende olha para mim como se eu estivesse a solicitar algo absurdo. O padrão mantém-se desde que estou inscrita naquela USF há 10 ou 11 anos (o pessoal que lá trabalha não mudou). É raro conseguir resolver alguma coisa sem ter de lá voltar duas, três ou até quatro vezes. Na terça-feira enviei e-mail para saber se a minha médica de família podia requisitar a análise da hormona beta-hCg na data indicada pelo serviço de PMA do HSJ. Pouco tempo depois tive a confirmação que a médica iria fazer o pedido e que hoje já podia deslocar-me ao centro de saúde para fazer a marcação. Fui então esta manhã, não por meu capricho, mas porque tinha indicação que hoje seria possível concluir a situação. Como o Covid dizimou todas as outras patologias que existiam no planeta e agora praticamente toda a gente é saudável, à exceção de quem contrai o vírus, só havia uma senhora na sala de espera e uma secretária clínica ao telemóvel. Quando o telefone toca não atendem mas o telemóvel é uma história diferente. Esperei que a senhora realizasse o favor pessoal que estava a prestar para alguém. Depois de terminar a chamada e fazer algumas coisas no computador, teve a gentileza de me pedir desculpa pela demora. Falei da situação do e-mail e comecei a ver aquela reação de quem estava perante um ET que balbuciava coisas desconexas. Foi procurar a requisição numa capa, depois noutra e não havia nada com o meu nome. Depois da busca acabou por dizer "venha na segunda-feira, só vai estar pronto nesse dia". Tentei certificar-me se, ao proceder ao agendamento da colheita, podia selecionar a data e ela afirmou com alguma convicção de que não haveria problema. Continuo sem certezas disso, uma vez que tudo foi e está a ser cancelado na ULSM e só com uma certa pressão é que se consegue fazer alguma coisa. Foi assim com as análises da função tiroideia e com o meu marido, igual. A propósito de cancelamentos, penso ter referido algures para trás que aguardo uma consulta de gastroenterologia no HPH. Foi pedida em novembro de 2019, adiada uma vez por impossibilidade do médico, como me acontecia frequentemente quando era lá acompanhada nas consultas de infertilidade. A minha médica de família diz que alguns utentes queixam-se do mesmo e com outros funciona tudo bem (o meu marido é exemplo). A nova data agendada coincidiu com o estado de emergência, então foi suspensa mais duas vezes e ainda não recebi nova marcação. Estou a tentar perceber se sofro de alguma doença inflamatória intestinal que está a interferir no meu bem estar. Há poucos dias fui encaminhada para imunoalergologia. O tempo de espera máximo é de 120 dias (em estimativas pré-covid, como acontecia com gastroenterologia). Feliz de mim que fiz o rastreio ao estômago e cólon em setembro ou outubro passados e foi possível remover o décimo pólipo gástrico que decidiu habitar o meu estômago, antes da pandemia ter bloqueado o mundo. O meu marido fez uma cirurgia a 27 de fevereiro. Poucos dias depois as cirurgias foram suspensas. Estes são exemplos menores, em comparação com problemas gravíssimos que certamente andarão camuflados por aí, porque parece que, de repente, ninguém precisa de cuidados de saúde extra-covid.

Não estou rabugenta, tenho apenas uma enxaqueca mas por enquanto a prensa onde a minha cabeça está enfiada não se encontra muito apertada. Convoquei à tarde a minha massagista ronronadora para prestar serviços e ela não se fez de rogada. Trabalhou bem! Realizou a tarefa suplementar de me esfoliar, não precisei de lhe pedir, pois é inato nela. Os seus ronrons terapêuticos emitem frequências que são benéficas para manter-me zen q.b. 

A fome que sinto neste momento é anormal, acho que não estou a ser ludibriada pela gastrite. Há uma fronteira ténue entre a sensação de fome e a dor da gastrite de estimação mas o estômago não está a roncar.

Não tenho pontadas no útero, as mamas continuam com o tamanho (grande e pesado) habitual, o Progeffik sai branquinho. Permaneço na mais pura ignorância sobre se estou só ou acompanhada de vida.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Dia 3 - TEC 9

Meu mini-nós número 14, como estarás tu? Eu estou a ferver, não de raiva, porque não tenho motivos para isso mas sim, de calor. Se a temperatura dos meus pés é determinante para o teu bom acolhimento, então o sucesso está garantido. Ah, apostei mais uma vez numas rodelas de abacaxi com o talo (só dois dias) mas cometi a imprudência de o fazer ao jantar e não em jejum. Tiveste sorte de não manifestar as pequenas reações que às vezes me acontecem quando como esse fruto. Tenho bebido muita água, não é nenhum sacrifício para mim, pois é a minha bebida favorita e a que verdadeiramente me sacia a sede e a alma. Estou contida na realização de esforços, embora ontem à noite me tenha excedido (exponencialmente) por um imperativo fisiológico, do foro intestinal, com que sou contemplada quando o rei faz anos. Felizmente não foi necessária ajuda externa mas ainda estou em sofrimento. Agora ao final do dia e já depois de ter jantado senti fome, aliás, há aqui um ratito que está a dar sinal mas é muito cedo para ser obra tua, não me vou iludir!

Amanhã vou dar-te música para continuares a multiplicar-te com ritmos animados. Como está muito calor, a tua irmã de longos bigodes tem andado desleixada nas suas funções de massagista e só quer estar debaixo da cama dos teus papás. Vou recrutá-la para te mandar as suas boas vibes, ela é especialista nisso.

Gosto de imaginar as conquistas que podes ter realizado e para isso tenho a ajuda desta página Da Célula ao Sistema que dá algum pormenor das façanhas que pequenos heróis como tu conseguem alcançar.

Dia 2 - TEC 9

Desta vez o Estrofem vai causando mais momentos de náuseas, apesar de o tomar como sempre me recomendaram no hospital, ou seja, um comprimido de manhã e dois à noite.

Já tratei com a médica de família da requisição para o beta, quinta-feira vou fazer o agendamento. Espero que essa parte não me traga chatices e consiga marcar para o dia 27. É muito provável que só saiba o resultado da colheita alguns dias depois.

Quando os embriões estavam em cultura, não reuniam condições para ser feita biópsia ao quinto dia, só no sexto é que foi possível. Os que transferi (este e o de fevereiro) ainda tiveram fôlego suficiente para aguentarem a saída do frio a 77K. Que guerreiros! Aliás, todos foram gigantes. Os meus pequeninos filhos têm a minha profunda admiração. Lamento por toda a crueldade a que foram sujeitos.
Não os encaro como aglomerados de células. Mesmo que os tivesse visto ao microscópio seriam os meus perfeitos filhos. Entristece-me não ter qualquer tipo de memória visual registada. O máximo que houve foi uma ecografia com os restos ovolares que foram aspirados e que tive de entregar no piso 3, após uma ida às urgências. Guardo de bom na memória as nove vezes que vi aquelas luzinhas brilhantes serem transferidas e a ecografia da minha menina que era tão somente o mais belo ponto preto que vi na vida.

O meu marido não teve oportunidade de assistir a nenhum desses momentos. Idealizava que algum dia lhe fosse dada a possibilidade de, por exemplo, ver uma transferência de embriões para ele perceber ao que me refiro quando falo do ponto brilhante. Não chegou a acontecer. Assistiu à primeira ecografia de 6 semanas em que a cavidade uterina estava vazia. Uma desilusão... Foi a outra ecografia de 6 semanas mas dessa vez disseram-lhe para estar junto à minha cabeça, atrás do monitor. Não se encontrou nada, mais uma vez. Esteve comigo quando fiz a histeroscopia, viu a minha agonia durante as biópsias e o estado em que fiquei a seguir, em que quase desmaiei. Continuou na sala enquanto fui deitada numa marquesa e uma enfermeira me deitou um pacote de açúcar debaixo da língua. Fora isso assistiu a injeções, análises, à toma de milhares de comprimidos, consultas, estados de dor excruciante após punções, abortos e quase todas as conversas com as biológas, antes das TEC. Sempre que pôde criou raízes comigo na sala de espera, teve cuidado com as tampas na estrada, lombas e obstáculos que criavam oscilação do carro, para reduzir o meu sofrimento de cada vez que estava hiperestimulada. Esteve presente em todos os resultados do primeiro beta.

A visão desta parte da nossa história, através dos olhos dele, não teve definitivamente boas recordações.

Soa a despedida, não soa? Independentemente do resultado estou de facto a despedir-me de muitas das etapas que não se vão repetir mais. Já disse adeus aos cancelamentos, hiperestimulações, punções, preparações de TEC e transferências.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

TEC 9

O dia não começou da melhor forma e como consequência estou a usar dados móveis para fazer atualização do blogue. Alguma coisa avariou no quadro elétrico, pelo que neste dia quentinho, estou sem eletricidade em casa. Tomei um belo banho às escuras, o almoço que tinha planeado aquecer quando regressasse a casa teve de ser substituído por uma refeição quente que fui buscar ao take away em frente ao meu palácio. Tudo em minha casa depende da existência de eletricidade. Preocupa-me o tempo que vou continuar assim com frigorífico e arca sem funcionarem.

Depois do incidente matinal que mudou toda a minha disposição para o dia que mais aguardei neste tempo todo, fui para o hospital. Sozinha, fui informada sobre como se aguentaram os pequenos. Sabia de antemão que havia um embrião mais débil e que tinha pouca possibilidade de vingar. Foi o que aconteceu... Transferi o outro que não manifestou problemas. Tenho então comigo o embrião número 14.

O rebelde Covid alterou também a dinâmica do beta. Agora o hospital não faz, pois neste planeta mais nada acontece a não ser a pandemia. Vou ter de pedir à médica de família uma requisição e espero conseguir  fazer colheita no dia 27, caso contrário terei de ir a um laboratório particular. Enviarei posteriormente o resultado ao hospital por e-mail. Mantendo-se o padrão das minhas transferências poderá aguardar-me uma gravidez bioquímica. Há algo dentro de mim que diz que vou engravidar. O que se seguirá, não sei.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Princípio do fim

"O endométrio está que é uma categoria!" como sempre... Hoje não foi apelidado de bonito. Tem 9,2 mm de formosura e muito amor para dar aos mini-nós 14 e 15. Segunda-feira, 13 de julho, será o primeiro dia do resto da minha vida em que irei, espero eu, aconchegar as últimas junções mágicas das nossas células. Desejo imensamente que o meu corpito inóspito, mascarado de lobo em pele de cordeiro, receba e acolha até abril do próximo ano estes milagres da bioquímica. Não sinto mais pressão por se tratar da derradeira tentativa. Há um misto de alívio e de curiosidade sobre o meu futuro próximo. Como mencionei há uns meses, tenho em stand by a ideia de regressar à universidade. Tudo depende do resultado da TEC. Preciso urgentemente de tentar resolver o problema do ridículo em que a minha vida profissional se tornou. Se o resultado for positivo, irei viver cada hora com receio de que o fim pode estar próximo.

Ficarei muito grata se os dois pequenos continuarem rijos após a desvitrificação. Se tudo correr bem, será a sexta vez que vou transferir dois embriões. A última altura em que isso aconteceu tinha 37 anos, transferi-os um dia depois de me casar. Foi a gravidez mais "evoluída" que tive, a da minha menina. Foi também o aborto mais complicado e duradouro. A hemorragia estendeu-se por mais de um mês e o assunto só ficou resolvido com uma aspiração. Tivemos sempre consciência que ao transferir dois embriões, a possibilidade de ambos implantarem não era ficcional. Aparentemente nunca sucedeu comigo mas não sei o que me aguardará daqui a uns dias.

Parece que consegui domar a tiróide, pelo menos por enquanto. A TSH está a 1,258, o que é ótimo. Nesta altura, é fundamental que o valor seja abaixo de 2,5 e que, obviamente, não esteja em situação de hipertiroidismo. Estou super, ultra, mega aliviada por chegar a esta fase com a função tiroideia controlada. Foram necessários 9 meses e três alterações de dosagem de Eutirox para chegar a este patamar.

Esta noite inicio Cartia, amanhã à tarde começa a saga do fantabulástico Progefikk e os seus efeitos secundários.

Não vou ter nenhum frente a frente com uma zaragatoa, bastou responder a um questionário e medir a temperatura.

Se necessitar do inalador para a asma posso usá-lo.

Espero que a semana passe rapidinho, estou com muita vontade de que chegue segunda-feira. O beta vai ser no dia 27 de julho.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Atividade interna

Não sei o que se passa com o ovário direito mas hoje estou a dar pela sua existência. Há movimentos que realizo em que sinto-o, como se ele estivesse maior. Este sentir não é ao pressionar com a mão, até porque não tenho por hábito andar à procura dele. É mesmo quando me sento, levanto ou me ajeito numa cadeira ou sofá, as suas paredes tocam noutros noutros órgãos e dói. A sensação é igual à que tenho nas ecografias quando vão avaliar como estão os ovários ou quando começava a aperceber-me que estava a hiperestimular. Possivelmente o volume está a aumentar, uma vez que não estou mais sob influência da pílula. Os afrontamentos desapareceram e ainda não tenho a minha gastrite ativa que costuma manifestar-se quando tomo Estrofem. 
Desta vez estou com dificuldade em prever quando será a TEC, porque a próxima ecografia é na terça-feira e ainda preciso de fazer suplementação com Progeffik durante 5 dias. Não acredito que seja no sábado seguinte, apesar de, por vezes no HSJ fazerem transferências ao fim de semana. Acredito mais que seja na segunda-feira seguinte, ou seja, dia 13.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Keep it simple

Está iniciada a temporada de preparação do endométrio para a TEC das TECs. Endométrio no sítio, ovários também, a motivação assim-assim... Hoje inicio 3 comprimidos diários de Estrofem e o Acfol. A tónica da equipa é manter a medicação básica. Compreendo a opção, pois se não há evidências de nada e os embriões são euploides, para quê entupir-me de outras coisas?
Qual o impacto do Covid? Acresce o andar mascarado, o constante desinfetar de mãos, a comichão no nariz provocada pela rinite que se tenta ignorar e que parece surgir em tom de provocação, os controlos de entrada no hospital, as máscaras que são alvo de desconfiança e trocadas por outras, a suspeita de que qualquer um de nós é uma potencial bomba que vai dispersar a ruindade no planeta, o atendimento muito mais rápido no piso 3, um novo documento para assinar, a colocação das roupas e pertences em quarentena quando se chega a casa, o banho descontaminante, o regresso à vida confinada e ao trabalho à distância que, aumenta de volume para combinar com a chegada de uma transferência que se pretende tranquila. Não estou a criticar o zelo que está a ser feito, não se pode facilitar e achar que toda a gente está livre da bicheza. A dinâmica que se instalou e a rapidez com que ela ocorreu é que ainda não me fez cair bem na realidade, porque vivo essencialmente confinada e cinjo-me às saídas essenciais. Tudo o que puder fazer autonomamente faço e isso não é muito diferente do que já era. Posso quase dizer que cresci isolada socialmente, o que acabou por moldar a minha maneira de ser.

Dia 7 de julho, bem cedinho, volto a fazer ecografia, nessa altura só poderei ir eu. Como os documentos estão assinados, o meu marido já não será necessário. Não sei se no dia da TEC ele estará autorizado a permanecer na sala de espera. A capacidade reduziu para 1/3, agora só podem estar sentadas seis pessoas.

Conto na altura da transferência estar praticamente sem serviço. Se houver alguma alteração em que seja convocada vou, pela primeira vez em 18 anos, meter baixa médica. Na TEC de fevereiro não tive oportunidade de me manter tranquila, muito pelo contrário. É a última vez que me disponho a tentar engravidar, não vou deitar tudo a perder. Quero, aliás, exijo para mim serenidade, até porque em seguida poderá começar o processo de luto e pretendo que a transição ocorra com alguma harmonia. Se não mereço um filho, espero que pelo menos possa ter tempo de me dar tempo.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

TEC 9 a caminho!

Recebi esta manhã a chamada que confirmou que a TEC 9 vai concretizar-se. Dia 21 de junho termino a pílula e a 26 vou fazer ecografia. Vamos também assinar o consentimento para a desvitrificação dos dois mini-nós, a nossa última esperança. Sinto que o fardo que carrego está mais leve. O fim está aí, acho que estou preparada para o que se segue. O desenvolvimento da nossa jornada na infertilidade foi estranho. Às vezes parecia que não estava a viver nada daquilo e que não passava de um longo sonho do qual não acordava. Focámo-nos nos últimos dois anos em terminar isto, por nos estar a fazer mais mal que bem. É chegada a hora. Incrivelmente encerro o processo com a mesma determinação com que o comecei.
Mesmo que a TEC seja infrutífera, tal como todas as outras, não sairei com rancor do Hospital de S. João sobre o qual apostei as minhas fichas, ainda nem sequer conhecia o meu marido. Sei que a equipa desejou tanto quanto nós que as coisas resultassem e fizeram o que podiam para nos ajudar a conquistar o nosso sonho. Digo, mais uma vez, que são excecionais, apesar dos problemas de que padecem com a falta de capacidade de resposta, em tempo útil, para tanta gente que necessita dos seus serviços. Se houver uma reviravolta na nossa história, é lá que quero continuar até chegar o dia que mudará a minha existência.

Se sobrar alguma justiça neste mundo, gostava de ser poupada de outra perda. Acho que o luto da desistência será mais fácil de suportar se tiver logo resultado negativo. Estou a traçar vários cenários mas não me posso esquecer da questão da desvitrificação que pode não correr da melhor forma. Então, em primeiro lugar, espero que o endométrio se porte bem, em segundo que haja, pelo menos, um mini-nós apto a transferir. Depois disso, aceito um negativo ou uma gravidez como manda a lei. Situações que fujam destas duas hipóteses, só irão reforçar a crueldade que tem caído sobre nós.

De uns anos a esta parte a asma tem voltado. Sou asmática desde sempre, tive uma infância complicada por causa disso. Houve também fases da adolescência em que esporadicamente era acometida por crises com uma certa violência. Ao chegar à idade adulta voltei a ter episódios menos intensos e, mesmo agora, de vez em quando, tenho de me socorrer do inalador. Nos últimos 3 anos, a minha época oficial para o regresso da asma é em junho. Não tem nada a ver com o que sentia quando era miúda, contudo há sempre o receio de que volte a causar-me grandes sustos. Durante estes dias tenho sentido a minha capacidade respiratória mais débil e espero que na altura em que faça a transferência não piore, para não ter de fazer inalações. Vou, no entanto, pôr as médicas a par da situação. Dia 30 farei novamente controlo da função tiroideia e estou a torcer todos os meus dedinhos para que finalmente a tiróide tenha outra vez a TSH normalizada. Será um problema se não tiver estabilizado. Há perto de um ano que ando a tentar fazer o acerto adequado. Tenho ódios de estimação de algumas partes das minhas entranhas. No topo da tabela estão os ovários, em segundo lugar a tiróide.

A ação vai regressar rapidamente, nos próximos dias deixarei aqui as palavras que vão retratar o final de uma luta com 8 anos e 7 meses.