terça-feira, 7 de julho de 2026

Mais desenvolvimentos...

Sei que o conteúdo ao qual tenho dado destaque é pouco apelativo, mas trata-se daquilo com que tenho convivido e, diga-se de passagem, até a mim já me aborrece de sobremaneira. Desde o último post fiz análises, tive consulta com o gastroenterologista, a médica de família e fui submetida a uma manometria esofágica. Vamos por partes: as análises visavam várias vitaminas, cálcio... A vitamina D está baixa, tomarei de forma crónica, mensalmente, uma trivialidade. Do gastroenterologista há uma convicção cada vez maior de que a dor, que segue com 35 crises até à data, se deva a espasmos esofágicos, para os quais há um plano de ataque. Antes do almoço e do jantar tomo uma cápsula de óleo de folha de hortelã pimenta para relaxar o esófago e nas crises um comprimido de nitroglicerina sublingual. Ficou a indicação de realizar a manometria esofágica. No dia seguinte à consulta de gastroenterologia tive consulta com a médica de família para dar o feedback do dia anterior. Ela tinha pedido para questionar o gastroenterologista se ele considerava pertinente a realização de uma cintigrafia de perfusão do miocárdio. Ele descartou completamente causa cardíaca com as evidências já existentes, então não é relevante realizar mais um exame direcionado para esse caminho. Relatei também à minha médica o que foi discutido na consulta com a cirurgiã, nomeadamente algumas afirmações surreais para acrescentar ao leque de bizarrias que ouvi de profissionais de saúde, desde que me entendo por gente. Não sei se já tinha partilhado aqui, mas gosto muito da minha médica de família.

Fiz então a manometria esofágica. Diz-se por aí na web que é um exame minimamente invasivo, em que há um "discreto desconforto". É introduzida uma sonda caracterizada como fina através do nariz previamente anestesiado e blá, blá, blá... Passemos à minha realidade que, recordo, apenas relata o que EU experienciei. Dois a três dias antes do exame não pude tomar nada que interferisse no relaxamento da musculatura esofágica. Ou seja, desde sábado passado até ontem, não tomei cápsulas de hortelã nem nitroglicerina. No fim de semana tive três crises, só para me lembrar da minha impotência. Aguentei as malditas... O exame requer jejum de 12 horas, apenas tomei Eutirox, porque esse é sagrado. Apesar do otorrinolaringologista dizer que tenho uma excelente entrada de ar pelo nariz (discordo) e um pequeno desvio de septo que não é elegível para cirurgia, o primeiro desafio foi descobrir qual a narina mais favorável para introduzir a "fina sonda". Fui anestesiada com um spray nas narinas, que teve um efeito muito reduzido, a sonda foi generosamente besuntada com gel e começaram as investidas. Inicialmente houve uma tentativa na narina esquerda. Não resultou. Depois a direita. Não resultou. A esquerda novamente. Outro falhanço. A direita mostrou finalmente uma pequena janela de esperança. Até se chegar a essa fase, os meus olhos escorreram lágrimas involuntárias e o meu nariz largou um visco que devia ser uma mistura de gel com secreções. Chegou a hora de tentar enfiar a sonda que afinal não era assim tãaaao fina e, para completar o brilhantismo, tinha numa extensão significativa umas pequenas esferas salientes que deviam ser sensores, para gerar uma resistência ainda maior. A dada altura a médica que estava a realizar o procedimento disse que eu tinha narinas finas. A primeira etapa consistiu então em ultrapassar a barreira do nariz. Não fase seguinte era chegar à garganta. Penso já ter referido que tenho cada vez menos tolerância a realizar endoscopias sem sedação. Tenho muitos vómitos e, como há sempre várias biópsias e polipectomias a fazer, agora só faço sedada. Na manometria a sedação não é opção. À medida que a sonda desceu começou a sessão de vómitos. De sangue, restos de coisas, saliva... Engolir a saliva só piora, deitei para fora tudo o que pude. Foi um misto de dor, vómitos, medo de engasgar e sufocar, tentar manter a calma. A última etapa consistiu em encaminhar a sonda até ao estômago. Umas pausas para cuspir e respirar mais um pouco e, finalmente, fixar o tubo com fita adesiva ao nariz. Acho que foram 40 cm de tubo dentro das minhas entranhas. A parte mais complicada estava feita. Não deixei de sentir dor permanente no nariz e garganta, contudo a ausência de vómitos era uma vitória. Reclinei-me na cama e iniciou o exame. São realizados vários períodos em que não se pode engolir saliva, apenas inspirar e expirar pela boca. Foram injetadas pequenas quantidades de água que devia engolir em apenas um gole de cada vez, em ciclos com características distintas. Repetiram-se depois novas deglutições, sentada e, como sinto, desde sempre, dor quando ingiro coisas quentes, foram realizados ciclos com ingestão de água quente. O exame culminou com um "parto", em que a sonda foi removida de uma assentada para ser menos incomodativo. Desde o início da introdução da sonda até ao final, passou mais de uma hora. A manometria está na lista de exames que espero não voltar a repetir. Hoje tenho dor no estômago, a garganta um pouco arranhada e uma ligeira rouquidão. O relatório só deve estar pronto no dia 20 deste mês e a próxima consulta de gastroenterologia é no dia 13 de agosto. A médica que me realizou o exame perguntou-me se fiz alguma ressonância magnética. Disse que não, antes da colecistectomia só fiz ecografia. Ela apontou outra hipótese para as dores. Não é impossível ter cálculos alojados no canal colédoco. Vou falar dessa possibilidade ao gastroenterologista. Estou a ver que este filme ainda vai ter continuação. Em breve haverá novos episódios.

Por enquanto resta-me andar permanentemente acompanhada da nitroglicerina e passar a ser cliente assídua da loja Celeiro para a compra das cápsulas de hortelã. Trinta e poucos euros por 90 cápsulas é mais um luxo para a minha vida extravagante. Tenho de procurar noutras lojas ou farmácias.

Assim vão os meus dias.

Não há por ninguém que tenha uma experiência do género a partilhar? Quem sabe uns espasmos no esófago?

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Espero que seja em breve

Nem sei bem por onde começar. A saga das dores continua a infernizar-me. Já fiz a endoscopia, várias biópsias durante a mesma, foram removidos mais 4 pólipos, permanecendo uns quantos pequeninos que daqui a uns tempos terão de sair. As dores essas, têm passado por algumas nuances. Agora não se limitam ao repouso. Tive uma vez, às 7h da manhã, ao começar a trabalhar, mas até foi fácil de suportar, outra a caminho do trabalho, enquanto conduzia às 6 e qualquer coisa da manhã, perto da Ponte da Arrábida, uma vez à tarde, como passageira e o pináculo de duração e intensidade foi ontem, 15 minutos depois de jantar. Bateu o desespero, não sabia quão mais doloroso se podia tornar e estive 10 minutos em completa agonia. Cinco minutos depois desse sofrimento atroz, veio nova ronda, igualmente dolorosa, contudo mais breve.

No início da tarde tinha tido mais uma consulta a propósito deste inferno que me atormenta há 2 anos e meio. Como havia a dúvida se o que estou a ter são crises cardíacas ou espasmos no esófago, porque a dor de um enfarte é idêntica à dos espasmos, a minha médica de família disse para ligar para o 112, assim seria possível avaliar marcadores específicos para o despiste de evento cardíaco dentro de uma janela horária razoável. Ainda em pleno sofrimento consegui falar com os operadores que me atenderam e durante a chamada a dor desapareceu. Cerca de 15 minutos depois chegou um carro da VMER, o médico fez-me um ECG, passado pouco tempo veio uma ambulância e segui para o hospital. O médico do INEM disse que estava com a pressão arterial elevada, que poderia ser motivada pelo stress da situação, mas estava convicto que a dor não seria de origem cardíaca. Fui à triagem às 21h50, foi-me atribuída pulseira amarela e fui atendida por um médico cerca de 1h40 depois da triagem. Mais uma vez suspeitou-se de espasmos no esófago, no entanto, fiz análises e um raio-X para descartar pneumotórax. Fiquei com mais uma evidência de que a parte cardíaca não está relacionada com as dores, nem tinha nenhum pneumotórax. Fiz medicação e por volta das 3h da manhã saí da urgência.

Os próximos desenvolvimentos vão acontecer nesta semana que se aproxima, em que vou fazer mais análises, tenho consulta de gastroenterologia e consulta com a médica de família.

Esta tarde tive também consulta com a cirurgiã que me fez a colecistectomia. Falei desta situação e foram uns minutos bastante emocionais. Confesso que é desesperante não ter ainda um diagnóstico definitivo, não saber quando volto a agonizar e esta mudança de padrão na forma como acontece preocupa-me, principalmente porque conduzo maioritariamente em autoestrada, VCI e se sou acometida por algo com a dimensão de ontem, será muito difícil não ter um acidente. A médica acha que estou com uma depressão, não é a primeira pessoa que mo diz. Aquilo que realmente sinto é cansaço pela imprevisibilidade, pela agonia que não sei até onde pode ir e quanto tempo vai durar e preciso verdadeiramente de um diagnóstico definitivo para poder perceber como melhorar. Antes da colecistectomia tive 16 crises em dois anos, nestes quatro meses e meio tive outras 16. Atendendo a que isto se assemelha a um enfarte, como é que se consegue aguentar com leveza 32 "enfartes"? Não é algo sobre o qual só falei com os médicos após a operação, já me queixava antes das dores excruciantes, só que o bode expiatório dos cálculos na vesícula faziam desvalorizar e praticamente não prestar atenção ao que eu dizia acerca deste assunto. A verdade é que até eu mesma pensava que essa fosse a causa.

Mudando de assunto... A minha menina andava nos últimos tempos com um comportamento diferente. Voltou a miar com alguma frequência com volume significativo, começou a deitar-se no chão, encostada ao dispensador automático da comida. Reparei também que quando a chamava, não fazia o habitual que era levantar a cabeça e após dizer-lhe "anda cá", vinha direitinha na minha direção. Relembro que a minha gata nasceu sem olhos, mas o seu sentido de orientação é fenomenal. Agora, por mais que a chamasse, ora não ouvia, ou quando ouvia girava a cabeça para o lado esquerdo e a orelha direita não reagia ao som. Além disso, tinha dificuldade a encontrar-me. Comecei a perceber que provavelmente a mudança para junto do dispensador fosse para sentir a vibração da comida a cair para a taça, uma vez que já não ouvia quando estava refastelada na sala, por exemplo. Pensei que o hipertiroidismo pudesse ter voltado, além da perda auditiva, principalmente no ouvido direito. Levámo-la ao hospital veterinário onde é acompanhada, fez análises e, felizmente, não há alterações na tiróide. Não se pode dizer o mesmo da parte renal. Está no estadio 2 de doença renal e com início de hipertensão. Em relação aos ouvidos, tem uma inflamação no ouvido esquerdo e uma otite, de origem bacteriana, no direito. Estou a tratá-la, sexta-feira vai colher urina e depois será agendada nova monitorização da pressão arterial para se averiguar a viabilidade de iniciar terapêutica para hipertensão. A ração também vai ser alterada, daqui a algum tempo, quando a comida que ela ainda tem estiver quase a terminar, iremos fazer a transição para a nova (que deve ter mais umas pepitas de metais nobres, porque é ainda mais cara).

Durante muitos anos, não tinha despesas veterinárias de maior, pois foi sempre saudável. Também não era habitual falar-se de seguros de saúde para animais então, até há algum tempo, não reflectia acerca da pertinência deste tipo de proteção. Ela vai fazer 15 anos em setembro, já não existe a possibilidade de contratualizar um seguro. O luxo de ter um animal de estimação repercute-se no IVA de 23% que é cobrado em praticamente tudo o que envolve o cuidado com eles.

Mete-me dó vê-la a queixar-se algumas vezes de dor. Ao mesmo tempo não perde aquelas demonstrações de carinho connosco, o querer o nosso colo, o perdão fácil, mesmo quando lhe limpo os ouvidos e injeto o corticoide no lado direito, os cada vez mais raros momentos em que mostra que ainda há uma miúda rebelde dentro do corpo sempre estendido no sofá, no chão, num colo, numa cadeira, colada ao dispensador ou a beber água, deitada.

sábado, 2 de maio de 2026

Rescaldo da cirurgia

Regressei ao trabalho no dia 12 de março, ainda sentia alguma dor nas incisões e condicionamento na realização de determinados movimentos, principalmente a agachar-me. Durante perto de um mês depois do regresso não me senti a 100%, mas as melhorias foram sendo cada vez mais evidentes. Do ponto de vista gastrointestinal, só há umas três semanas comecei a normalizar. Até aí, quase todos os dias, mal terminava de almoçar, tinha de ir à casa de banho, porque o intestino reagia imediatamente. Nunca tive constrangimentos nas outras refeições.


Referi em posts anteriores que antes da cirurgia era acometida por dores excruciantes que me acordavam de madrugada. Tive dezasseis episódios desses antes da colecistectomia e estava convencida de que seria dos cálculos. Sim, cálculos, afinal eram três, tendo o maior dois centímetros. A vesícula ultrapassava os 14 cm e, segundo a cirurgiã, estava mesmo na hora de a tirar. Na consulta pré-operatória o cirurgião referiu que a dor poderia de facto dever-se ao estado da vesícula, mas só depois da cirurgia se iria perceber se era ou não. Se a dor voltasse ponderar-se-ia refluxo ou alguma condição cardíaca. Cerca de uma semana após a ida ao bloco pareceu-me que ia iniciar o aperto no peito, mas como ainda estava agrafada, desvalorizei e pensei que pudesse ser o incómodo nas incisões, porque os dias iam ficando cada vez difíceis de suportar, principalmente no corte na zona da boca do estômago. Dois dias depois voltei a ter a mesma sensação e julguei, mais uma vez, que era impressão minha. Cerca de um mês depois da colecistectomia, para meu completo desalento, despertei com a dita cuja, em seu pleno esplendor. Fiquei completamente arrasada. Na semana seguinte, seguiram-se outra vez minutos de agonia em que, mesmo que me levante o aperto persiste, acabando por passar. Desde então, em dois meses, tive sete crises. Depois da segunda vez fui a uma consulta no centro de saúde. Comecei a tomar pantoprazol, passei a dormir com duas almofadas, fiz um ecocardiograma com Doppler e uma prova de esforço. Aparentemente não há nenhuma condição cardíaca que justifique as dores. Note-se que, desde essa consulta, senti a dor cinco vezes.

Fui esta quinta-feira a um gastroenterologista que me disse poder estar a ter espasmos no esófago. Suspendi o pantoprazol e estou a tomar uns comprimidos para modular a acidez. Ele disse para elevar a cabeceira da cama, mas como a estrutura não tem pés, comprei hoje uma almofada em cunha com a elevação recomendada. Vou fazer uma endoscopia no dia 3 de junho (espero eu, porque é dia de greve geral, não sei se a clínica onde vou vai aderir) para se avaliar se há uma situação de esofagite ou outra questão. O último exame a realizar, caso se justifique, é uma manometria esofágica. Confesso que há noites em que tenho receio de dormir. Desperto muitas vezes, fico imenso tempo acordada. Durante a semana levanto-me diariamente às 5h50, normalmente deito-me às 22h30, ou até antes, e tenho dormido entre duas a três horas por noite. As dores de espasmos esofágicos são muitas vezes confundidas com angina de peito. A frequência aumentou significativamente desde a cirurgia. As dezasseis vezes que senti antes foi num período de cerca de dois anos e em apenas dois meses já foram sete. Esta situação desanimou-me. Por um lado estou contente por não andar constantemente enjoada, como era antes. O intestino está a readaptar-se, o que é bom. Noto que não é preciso abusar na ingestão de gordura para sentir indisposição, mas nesta fase ainda é normal. O regresso daquela dor... Desiludiu-me muito.

Não sei o que aí vem, espero que haja um veredito bem sustentado. A dúvida permanente deixa-me apreensiva. Espero que não seja mais um episódio com ausência de respostas, como já aconteceu naquele passado que motivou a criação deste espaço.

Já agora, alguém desse lado passou por algo semelhante?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

4.° dia pós-colecistectomia

Como sempre, o que narro representa exclusivamente a minha experiência.

Ontem fui trocar os pensos. Desde as primeiras horas comecei a apresentar vermelhidão onde os adesivos impermeáveis se encontravam colados. Já esperava esta reação, sempre que faço análises tiro o penso quase logo em seguida e, mesmo assim, o tempo é suficiente para ficar com marcas na pele. A cicatrização está a ocorrer favoravelmente, por outro lado estou com outro tipo de adesivos por causa da irritação na pele que já criou pequeninas feridas. Por não estar com pensos impermeáveis tenho de tomar banho "à gato" se é que me entendem. Estou agrafada, não sei se em todas as incisões. As dores que sentia ao movimentar estão a reduzir. A ingestão de gorduras encontra-se abaixo de 1 g/100 g de alimentos, no entanto ontem passei mal a seguir ao almoço. Tive diarreia acompanhada de muita dor, uma má disposição e fraqueza crescentes que culminaram a vomitar. Seguiu-se um alívio que durou menos de 5 minutos, interrompido por mais diarreia... Fui deitar-me, não tive mais indisposição o resto do dia.

Desde domingo caminho durante a manhã em espaços fechados, espero que daqui a uns dias as condições meteorológicas mo permitam fazer ao ar livre. Hoje, após o almoço, voltou a diarreia. Está a ser uma redescoberta e uma readaptação. O lado positivo é que, para já, aquele enjoo quase permanente que sentia, antes da cirurgia, está a deixar de fazer parte do meu quotidiano. Não tive também as dores excruciantes que me atormentavam de madrugada.

Quinta-feira volto a trocar os pensos.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Era uma vez...

uma vesícula habitada por uma pedra. Esta sexta-feira 13 foi removida do corpo de uma criatura, saturada da sua existência. O dia tardou a chegar, mas finalmente aconteceu.

Todos os profissionais foram maravilhosos, sem exceção. O despertar da anestesia deu-se de forma atribulada, com um engasgamento bem sufocante, que já tive várias vezes ao longo da vida adulta, situação sobre a qual estou a aguardar consulta para tentar perceber a sua origem. Acordei com dor, fui medicada duas vezes, porque não aliviava. Estava também com rouquidão devido à intubação. Durante a cirurgia sonhei muito, não me consigo recordar do conteúdo. No recobro, onde estive pouco mais de duas horas, a pressão arterial foi diminuindo, assim como a saturação que chegou aos 92%.

Levaram-me para o quarto, acabei por lá estar sozinha, o que me possibilitou descansar de forma mais tranquila. A bexiga encheu subitamente, como ainda era cedo para fazer o primeiro levante, conheci pela primeira vez a estranha sensação do uso de uma aparadeira, deitada. Para o meu cérebro quebrar o gelo pensei nas incontáveis vezes em que as minhas entranhas foram inspecionadas, e no quanto a minha dignidade fora perdida, muito tempo antes. Imaginei também que reter a urina mais algumas horas até poder levantar-me iria aumentar o risco de ter uma infeção urinária. Fiz o que tinha a fazer, não foi agradável, o futuro trar-me-á situações piores. A racionalidade tem de prevalecer à pudidícia.

À uma da manhã fiz o primeiro levante para ir à casa de banho, foi tranquilo, tinha poucas dores, acordei várias vezes durante a noite mas, regra geral, descansei melhor do que estava à espera. Às 7h10 tomei medicação, em seguida chá e bolacha maria e tive alta antes das 9 horas.

Tenho quatro pequenas incisões, sinto comichão na zona dos adesivos, tomo analgésicos a cada 4 horas, estou condicionada nos movimentos e mais dorida que no hospital. Amanhã vou ao centro de saúde trocar os pensos. Tenho indicação para caminhar, o que tenho feito, devagar, não posso fazer esforços, durante uma semana não deverei ingerir gorduras e, até ao momento, o intestino não deu sinal de vida. Terei de fazer medicação caso continue inativo. No dia da cirurgia senti enjoo devido aos analgésicos que fiz no recobro e ontem à tarde também estive bastante enjoada.

Quando estou em repouso no sofá a minha terapeuta felina não sai do meu colo, tem outro colo onde se deitar e costuma frequentar, mas agora acha que a sua missão é não sair de cima de mim. Em 2021 também fez questão de acompanhar todo o meu isolamento no quarto, quando tive COVID. Enquanto escrevo este post ela está com o queixo pousado no meu braço.

É a primeira vez que estou de baixa médica. Espero que a minha qualidade de vida melhore relativamente à situação em que me encontrava. Estou a fazer reset ao meu sistema, pouco a pouco irei reiniciá-lo. Daqui a umas semanas deverei ter algumas informações sobre o que se passava cá dentro.

Cinco minutos antes de ir para o hospital recebi uma chamada espetacular do hospital veterinário. A minha menina não tem doença renal! Fui muito mais feliz para a cirurgia.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Sexta-feira 13

Ontem recebi uma chamada do hospital sobre a antecipação da data da colecistectomia. Sexta-feira, 13 de fevereiro, será o dia (só acredito depois de acordar da anestesia). Uma colega de trabalho disse-me que poderá ter havido rejeição por parte de alguns utentes devido ao simbolismo da data. Não descarto essa hipótese, só tenho a dizer que azar mesmo, é continuar a suportar a vesícula. Aceito de muito bom grado removê-la esta semana, se é à custa de superstições alheias, pois que seja.

Hoje estou mais animada em relação à saúde da minha menina. Desde que ela fez todas as análises e ecografia, o miar persistente acabou. Só o faz quando quer ir à caixa de areia, mas desde sempre teve necessidade de avisar o povo que o seu corpinho tem necessidades supremas. Tinha ficado acordado com a veterinária repetir as análises à T4 para se averiguar se de facto estava com hipertiroidismo. Felizmente está tudo bem a esse nível, a hormona está dentro da normalidade. Fez também outra colheita para se confirmar se está com doença renal e em que estádio. Saberei o resultado ainda esta semana. Não estou tão confiante em relação a essa parte, acredito que esteja no início.

Ela teve uma infeção urinária há sete anos, desde então come ração da marca Hill's Prescription Diet c/d Urinary Stress Feline + Metabolic. Durante algum tempo dei-lhe a versão sem componente de controlo do peso mas, em poucas semanas, passou de 4,200 kg para 6,300 kg. Ficou inerte e deixou de brincar. Percebia-se que tinha vontade de fazer as suas macacadas, mas devido ao aumento abrupto de peso, estendia-se no chão e só mexia as pontinhas dos dedos para tentar alcançar os brinquedos. Pesquisei sobre outras alternativas e vi que existia a versão metabólica. Falei com o veterinário acerca da inércia repentina, do aumento rápido de peso e ele justificou com a idade (tinha 7 anos na altura). Não fiquei convencida com a resposta e perguntei se podia experimentar a versão metabólica. Ele respondeu afirmativamente, então comecei a adaptação ao racionamento. Bastou perder 500 g para voltar a ser a menina rufia de outrora. Atualmente pesa 5,450 kg, apesar de, há anos, ingerir comida correspondente a um gato com pouco mais de 4 kg. Não sei qual o custo de um seguro de animais domésticos, a idade da minha miúda já não permite subscrever nenhum. Desconheço se compensa verdadeiramente. A alimentação dela é avultada, encomendo online a partir de uma loja espanhola. Em tempos conseguia por um valor mais ou menos "simpático" numa loja, também online, nacional, mas o preço foi disparando e a rutura de stock cada vez mais frequente. Procurei outras lojas mais certas do ponto de vista da disponibilidade além de mais económicas, acabei por fidelizar-me a essa loja espanhola com a qual nunca tive qualquer problema. Em lojas físicas é difícil conseguir encontrar a ração, além de que um rim começa a ser pouco para pagar o ouro que deve estar na composição daquele repasto. Uma eventual mudança para uma ração destinada a problemas renais é ainda mais cara. Felizmente tenho tido possibilidade de custear todos os encargos permanentes com a alimentação e higiene e, cada vez mais recorrentemente, despesas com consultas/exames.

Wish me luck! Espero que da próxima vez que escrever neste espacinho tenha uma peça a menos.

Volto em breve!

sábado, 17 de janeiro de 2026

Atualizações

Completei mais uma translação ao Sol na segunda-feira, são 46 anos em que por cá ando. 

Dois dias depois gerou-se fumo branco no Hospital Pedro Hispano, a cirurgia foi finalmente agendada! Dia 30 tenho consulta de anestesia e dia 27 de fevereiro deixo de ser uma ostra que está a gerar uma pérola. Espero que esse capítulo fique bem encerrado e possa voltar a ter, daqui a uns tempos, mais normalidade.

Na quinta-feira levei a minha menina à vacina e aproveitei para falar das alterações que temos verificado no comportamento dela, que indiciam que algo se passa. Desde há uns tempos ela mia a cada 5 segundos, só não o faz quando está deitada ou no nosso colo. Percebemos que aumentou a ingestão de água e a areia satura mais rapidamente. As brincadeiras reduziram muito. Ela fez análises e uma ecografia há 14 meses, nessa altura estava tudo bem. O resultado das análises que fez desta vez indicaram duas situações: aparenta estar a iniciar um quadro de hipertiroidismo e a urina tem baixa densidade, fruto da elevada ingestão de água, que estará associada a doença renal. Hoje realizou uma ecografia para se perceber o estado dos rins e daqui a três semanas repetirá as análises à T4 para se confirmar se o aumento desta hormona permanece. Da ecografia ficou a perceber-se que há uma ligeira alteração nos rins, fez nova colheita de sangue para se averiguar o nível de progressão da doença renal (devera estar num estádio inicial). Na próxima segunda saberei o resultado. A partir daí será realizada a marcação das análises endócrinas e em seguida definido o plano terapêutico. É a primeira vez que estou a passar por esta situação, nunca tive gatos em idade geriátrica. A fase que mais temia está a acontecer. Foi sempre minha prioridade proporcionar-lhe a melhor vida possível, ela representa o que de mais maravilhoso me tem acontecido. Ela é família, ternura, uma eterna fonte de aprendizagem, uma lição sobre tanta coisa bonita, que jamais pensei vivenciar. É para mim um orgulho gigante receber todo o amor que ela sempre manifestou, nunca pensei que fosse merecedora de tal.

É mais que percetível neste blogue que dou mais de 90% de enfoque a conteúdo escrito, em detrimento de imagens. Desta vez, preciso de partilhar uma das milhares de fotografias que tenho deste pequeno pedaço de força que vê com o coração e nunca precisou de olhos para avaliar, julgar, contornar obstáculos, ser grande. Apresento-vos a menina cujos longos bigodes deram lugar a mais discretos sensores, que tem apenas dois microdentes superiores com os quais me agrafa (sou a única pessoa com o privilégio de os sentir), que exibe uns belos caracóis no pêlo da barriga (neste momento depilada por causa da eco), uma cauda digna de ser usada como um espanador do pó, um coração desenhado no pêlo, do qual só me apercebi quando foi tosquiada a primeira vez, a minha alma gémea felina.



Dá para perceber como me sinto.