segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Dos neurónios que ainda andam por cá

Estou numa pausa de alguns minutos no meu estudo. Com a suspensão da atividade letiva presencial nos estabelecimentos de ensino, gerou-se uma reviravolta inicial na forma como iríamos ser avaliados, na sequência de um despacho emitido pela Presidência da instituição onde estou a estudar. Foi de tal modo absurdo que rapidamente deu origem a uma petição em que, alunos e professores, se insurgiram contra o mesmo. Essa reação acabou por ser levada em conta e a época de exames passou por ser adiada apenas uma semana em relação ao calendário inicial, em vez de transitar para o final do 2.º semestre, como foi indicado no tal despacho surreal.

Para já as coisas estão globalmente a correr (muito) bem, exceto uma cadeira que não faço a mínima ideia com o que contar. Nunca me aconteceu em tantos anos ir para uma avaliação de uma unidade curricular sem ter conhecimento do resultado da frequência anterior. Quinta-feira passada fiz o terceiro teste sem saber a nota do segundo. Essa avaliação foi realizada no dia 17 de dezembro, hoje é dia 1 de fevereiro e nada sabemos. Se isso acontecesse no exercício da minha atividade profissional daria lugar a várias reclamações e pedidos de satisfação por parte de alunos, encarregados de educação, direção e eventualmente direção regional, se fosse realizada exposição por alguém. Organizei o meu cronograma de forma a efetuar estudo antecipado para essa cadeira no caso de ter de ir a exame, porque já estou a prever que só teremos conhecimento dos resultados em cima do acontecimento e não quero ser apanhada de surpresa. Não é algo que me deixe satisfeita mas mais vale jogar pelo seguro.

Posso estar com os segundos contados em tudo o que faço diariamente mas há algo de que não me consigo descolar que é dos anos que antecederam esta etapa. Acho que me envolvi demasiado e é estranho não fazer mais parte da minha rotina. Passou meio ano desde que tudo terminou e revivo esse tempo como se tivesse começado ontem. Pensei que o manter a cabeça, o mais ocupada possível, fosse dissipar lentamente os pensamentos mas não está a resultar. Não é arrependimento ou um sofrimento desmedido, porque estou resolvida, mas há um bloqueio que não me deixa viver um dia sem pensar em todos os outros que me trouxeram até esta fase da vida. Disse várias vezes que o que vivi foi uma espécie de tortura e houve momentos muito violentos que não sei como consegui encará-los com lucidez, sem desmoronar por completo. Preciso de dias mais solarengos, menos confinados, pois fechei-me ainda mais na minha casca com esta maior clausura.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Terráquea há 41 anos

Este planeta passou a sofrer ocupação da minha parte há 41 anos. Continuo em amadurecimento e espero não azedar com o passar dos anos.
A colheita de 80 tem umas notas de esquisitice, um travo a observação e um aroma analítico, o que a torna fora do normal.

O bebé que nasceu de rosto arranhado, porque vivia com permanente urticária, transformou-se num espécime sui generis, que se cansa de si mesmo. Viva o envelhecimento e o autoconceito!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Mudança de país em criança - a minha experiência

Desde muito pequena sou fascinada por gatos, não sei porquê. Quando ainda vivia fora do país deliciava-me a ver os gatinhos de uma senhora que vivia em frente ao meu prédio. Eu e a minha irmã perguntávamos muitas vezes à nossa mãe se quando viéssemos para Portugal iríamos ter um gato. Ela prometia-nos que sim, então a motivação para deixarmos a vida que conhecíamos para trás aumentava com a esperança de que íamos concretizar um sonho. No verão de 1988 deu-se a vinda para um país cuja língua compreendia e falava com alguma fluência mas que eu não sabia escrever. Recordo-me perfeitamente da primeira palavra que escrevi em português. A minha mãe estava a preparar as caixas para a mudança e ela identificava, por fora de cada uma, a categoria do conteúdo. Houve uma em que perguntou se queria que fosse eu a escrever: brinquedos. Não soletrou, esperou que com os conhecimentos que tinha de francês e a componente oral de português que eu dominava, chegasse à conclusão da forma como a palavra se escrevia e consegui. Esse momento marcou-me, talvez porque representou o início da despedida de uma vida que sabia desde sempre que seria provisória naquele local. França foi o país onde nasci e construí uma pequenina parte da minha essência. Ainda faço por preservar alguns costumes que me trazem uma sensação de um conforto que me remete a tempos que iriam deixar de existir. Estávamos restritos à nossa bolha familiar causada pela distância geográfica às raízes dos meus pais, embora tivesse também família a viver perto de nós, lá em França.

A vinda para cá foi uma espécie de Regresso ao Futuro mas ao contrário. A aldeia onde nos fixámos (no Minho), por exemplo, fica a uns escassos 3 km de uma freguesia de outro concelho onde a distribuição de eletricidade só começou a ser feita por volta de 1990. Lá na minha terrinha só havia uma estrada em alcatrão cujo troço tinha cerca de 700 m, o resto era em terra batida. Na escola primária os miúdos levavam "bolos" nas mãos com réguas de madeira grossa (nunca percebi o motivo para chamarem as reguadas de bolos), puxões de orelhas, vergastadas com canas de milho onde calhasse, chapadas na cara (daquelas em que a mão é lançada, vinda bem de trás). Na cataquese o padre batia com uma cana de milho se alguém olhasse para o lado. Havia vários costumes e crenças que não compreendia. Quando uma criança tinha uma dor num dente era normal colocar-lhe um algodão embebido em aguardente e mandá-la para a escola assim, logo pela manhã. O chocolate sabia-me a sabão, porque o que se vendia habitualmente cá era um sucedâneo. Vários dos produtos que eu consumia em França começaram a tornar-se populares por aqui, muitos anos depois de ter vindo. Com os desenhos animados era a mesma coisa. Após confrontar-me com a realidade portuguesa acabei por me adaptar, no entanto, causava-me confusão a importância que se dava a coisas que a meu ver eram totalmente descabidas, sem o mínimo de raciocínio crítico. Perceber que há quem tenha convicção que os piolhos surgem por geração espontânea ou por se comer a parte da castanha onde ela germina, continua a deixar-me incrédula.

Nunca tinha ouvido falar de bruxedos, maus olhados e de rituais para combater malfeitorias planeadas por terceiros, que envolvem sal, dentes de alho, patas de coelho, fitas vermelhas penduradas nos retrovisores dos carros e muitas outras coisas.

Sei que em todo o lado há crenças dos mais variados tipos, baseadas sabe-se lá em quê. O que está aqui a ser analisado é o ter recebido em tão pouco tempo, tanta informação diferente e acostumar-me a uma realidade distinta, que me parecia um retrocesso civilizacional.

Durante um ano fui conhecida na escola como a Patrícia Francesa. No ano seguinte deixei de o ser, porque passou a haver o Filipe Francês :) Muitas vezes na hora do recreio eu era o extraterrestre que estava ser descoberto pelos colegas e que servia de robô tradutor. Aquilo que mais ouvia era "como é que se diz... em francês?" As minhas coleguinhas de turma adoravam ver o material escolar que usava. Enquanto eu sentia que vivia num passado que não me era familiar onde nasci, elas viam em mim o futuro. Este contraste é muito interessante e representativo de algumas sensações que temos, por exemplo, quando viajamos.

Em pouco mais de um mês aprendi a escrever português. Devo-o a uma excelente professora que tive na 3.ª e 4 .ª classes. O primeiro texto que li para a turma era sobre a Covilhã, logo na primeira aula. Dei conta nessa altura que tinha dificuldade em dizer "lhã".

No início não percebia o que é que o pronome "lhe" fazia acoplado a um verbo, como no caso de "deu-lhe", então perguntei à minha professora que tinha algum conhecimento e interesse em francês, qual era a equivalência que tinha.

Não conseguia dizer em condições o nome Rui e uma prima ria-se à brava à conta disso. Tinha tendência para o pronunciar como se houvesse um acento tónico na letra i.

Aprendi muito sobre Portugal naqueles dois anos na primária e não me canso de dizer quão fabulosa foi aquela professora. Na mudança de país é habitual atrasar-se um ano na escola. Em condições normais deveria integrar a 3.ª classe mas fui inicialmente para a 2.ª. As professoras que tive eram medianas e não puxavam suficientemente por mim. Agiam como se estivesse no mesmo patamar dos meus colegas quando eu não tinha um conhecimento adequado da língua. A diretora da escola (responsável pela turma de 3.º ano) achou que a minha adaptação estava a ser rápida e beneficiaria mais se não atrasasse. No primeiro período estava na 2.ª classe, terminadas as férias de Natal passei para a 3.ª, que era a turma dela. Foi o melhor que me aconteceu, não tenho dúvida.

Nesse verão em que vim para Portugal, uma gata vadia que estava numa casa desabitada em frente àquela onde residia, teve filhotes. Eu e a minha irmã ficávamos agarradas à rede que a vedava a ver os pequenotes a brincar. Numa tarde, ambas fomos à casa de uma prima que vivia na vizinhança e, quando chegámos a casa, tínhamos uma surpresa. A nossa mãe apanhou o primeiro minorca que veio brincar com um pauzinho que ela começou a mexer, junto ao postigo onde se refugiavam. A promessa foi cumprida e a minha admiração por gatos tornou-se incomensurável.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Bizarro? Para mim, não.

Em 2009 uma estação de rádio de Guimarães promoveu o sorteio de um "Funeral de Sonho". Não faltaram candidatos e, se quisesse, o feliz contemplado poderia ceder o seu prémio a alguém (ainda vivo).

Alerto que o conteúdo deste post poderá ser creepy para alguns e quero, desde já, dizer que não há mensagens subliminares ou qualquer intenção da minha parte em atentar contra a minha vida. Estou muito bem, mesmo!

Diria que após a morte do meu pai e perante tudo o que aconteceu, desde o velório dentro de casa (durante dois dias) até ao momento sublime da missa do funeral em que me contive para não mandar calar a abécula (a criatura que exercia funções de sacerdote da terrinha) ou atirar-lhe um castiçal à testa, penso às vezes no meu "funeral de sonho". O meu pai dizia que queria ser enterrado no quintal e compreendo a perspetiva dele.

À semelhança do meu casamento, gostava que houvesse minimalismo. Não me sinto confortável com focos apontados a mim em vida, não será na morte que vou querer mediatismo. Desejo que ninguém tenha trabalho comigo depois de já cá não estar a azucrinar ninguém, logo a cremação é a melhor alternativa. Há muito que digo que a minha última residência vai ser num pote mas, pensando melhor, se for possível não ceder cinzas a familiares prefiro, para não terem de pensar o que fazer com elas. Ir para um cemitério vai também contra o meu ideal.

Se é para seguir num tapete rolante para o forno do tanatório, não é necessário um caixão todo rebuscado. NÃO QUERO uma cerimónia religiosa, bem como qualquer símbolo religioso! Acerca de flores, também dispenso. Se normalmente não consigo aguentar muito tempo no meio delas, há que manter-me fiel a mim mesma depois de apagar (ainda desato a espirrar ou a ficar cheia de congestão nasal). Roupa preta, desaprovo. Fiquei traumatizada de ver a minha mãe, anos a fio, a combinar preto com preto.

Quem quiser desrespeitar-me, é só fazer o contrário disto tudo. Não terá nenhuma consequência, porque não vou andar a assombrar ninguém. Olhando bem para a minha lista de exigências, pareço uma daquelas celebridades que quer um camarim com ar dos Himalaias, uma banheira com água do Kilimanjaro e 750 toalhas dobradas com orientação para norte.

Acerca da abécula que falei mais acima, dois anos depois do funeral tornei a estar numa missa presidida por sua excelência, numa situação profissional, noutra freguesia, porque não aguentou muito tempo na minha. Como a estupidez daquele ser é crónica, começou outra vez a fazer aquilo em que ele é melhor, que é ser um palerma. Saí porta fora, em plena missa, enquanto ele continuava com o seu sarcasmo a roçar a má formação, dirigido aos alvos daquele dia. Depois de mim, várias pessoas abandonaram a igreja, incrédulas com a boçalidade daquele energúmeno que viram pela primeira vez.

Se temos possibilidade de idealizar enquanto as nossas faculdades mentais estão boas, porque não? Há duas ou três pessoas a quem já partilhei para saberem o que fazer quando chegar a altura, se tiverem realmente intenção de ir de acordo com a minha vontade.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Venha 2021, seja lá o que isso significa

Nós somos como livros, analisamos a vida como se ela fosse dividida em capítulos. Estes podem estar associados a períodos um pouco alargados, a anos concretos, a acontecimentos.

Antes de termos entrado em 2020 eu olhava para o número e achava-o bonito. Não sei se por ter nascido num dia par de um ano par enfim, coisas sem qualquer importância. Apesar de simpatizar com o aspeto do número, sabia que a carga associada à entrada no ano em causa ia ser decisiva no projeto da minha existência que se veio a tornar um flop. O encerramento desse fracasso ocorreu com alguma atribulação fruto da pandemia, de uma forma seca. Não caí sobre uma rede, esbardalhei-me diretamente no chão, rastejei até encontrar algo a que me agarrar e tenho estado a reerguer-me. Há mazelas das quais me estou a recuperar, porque não vivi a infertilidade com ligeireza. Poucas semanas depois do tombo comecei a lutar pelo plano de recuperação que andava a delinear, caso se confirmasse que todo o meu esforço tinha sido em vão e consegui dar-lhe início.

Para mim a entrada num novo ano implica praticamente a mudança para um incremento de um ano na minha idade. Daqui a uns dias o meu contador muda para 41 e estará quase concluído o primeiro semestre do projeto que tentará transformar em dias um pouco melhores aqueles que irei viver no seio da família.

Em 2020 parei de tentar ser mãe, a minha filhota do coração licenciou-se e começou a trabalhar, fui tia pela primeira vez, comecei nova licenciatura, passei ainda mais tempo em casa. 

Não vou fazer grandes resoluções de ano novo. Ambiciono concretizar com sucesso os meus compromissos diários, ter força para suportar adversidades que espero que não surjam e ser agradavelmente surpreendida com coisas inesperadas.

Quero, acima de tudo, saúde para todos.

Bom 2021!

domingo, 27 de dezembro de 2020

Entrevista completa (Semana da Tiróide - maio de 2020)

Estava a organizar algumas coisas no computador e na pasta de vídeos tinha arquivada a entrevista que dei à agência de comunicação que realizou a campanha da Semana Internacional da Tiróide. Quando fiz a publicação da campanha que foi divulgada em diferentes canais de comunicação, disse que iria colocar aqui a versão completa trabalhada pela agência.

Como estava com auriculares (camuflados pela longa cabeleira de confinamento) não se ouvem as questões mas dá para entender o conteúdo por aquilo que estou a dizer. A única edição que fiz neste vídeo foi a junção das respostas, porque havia alguns momentos sem qualquer interação, quando estava a ouvir as perguntas que me eram colocadas. Não há banda sonora, nem nenhum efeito. A gravação foi realizada com o meu telemóvel, enquanto decorria uma chamada por Skype (no computador), com a entrevistadora e o operador de câmara que me orientou nas partes técnicas.

Para conseguir anexar a entrevista no Blogger tive de reduzir o tamanho do ficheiro, pelo que a qualidade do vídeo não é a melhor.

Dois meses depois da entrevista estava a aguardar pelo beta da última transferência.



Tenho outro post em "dívida", não me esqueci de que tenho uma promessa pendente.
Porquê remexer nisto? Não é um retrocesso. Seria preocupante se fizesse de conta que nada aconteceu antes de agosto de 2020. É um fragmento da minha história que me transformou. Somos feitos de circunstâncias.
 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

5 anos na blogosfera

Não é que passaram 5 anos?! Inaugurei este espaço numa fase em que se estava a gerar um turbilhão de insanidade e absurdo, uma espécie de tornado que tornou a minha vida num caos e, removidos os destroços, vejo o sol a espreitar por entre as nuvens. Até ao momento a pandemia não me está a abalar de forma tão avassaladora como os 8 anos e 8 meses que me fizeram criar este baú.
Pensei em tempos que uma cria minha viesse a ter acesso a estas palavras para que pudesse perceber um pouco a sua história. Isso não vai acontecer. O blogue será o álbum das fotografias que não consegui tirar mas que ousei imaginar. As únicas memórias físicas que conservo são exames, protocolos, justificações. No meio de tantos papéis há zero ecografias. A única impressão de ecografia em que toquei foi há 3 anos, dois dias antes da aspiração, que trouxe da urgência de obstetrícia (piso 4) para entregar no piso 3. As imagens mostravam fragmentos da minha menina.
Não decidi quando me vou libertar dos papéis. Tenho de o fazer, não me ajudaram e não vão acrescentar nada.

A única serventia que poderão ter será para fins de investigação. Se alguém precisar deles, que me diga. Cedo-os com todo o gosto.

Espero que num futuro não muito distante se consigam dar respostas às muitas dúvidas que ainda há sobre (in)fertilidade. Mas, como já referi, se não formos interventivos nos estudos as coisas não andam para a frente. Fiz o que pude por mim e contribuí no que pude, pelos vossos.

Bom Natal

Este ano em moldes diferentes mas com um desejo igual ao dos outros anos: que todos estejam bem. Este estar bem é muito mais do que apenas na saúde física.

Bom Natal a quem passa por esta casinha, esteja em Portugal ou além fronteiras.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Em contrarrelógio

Contrarrelógio é o sinónimo que traduz Bolonha combinado com Covid. Não sei qual será a minha perceção sobre o tempo se a palavra Covid deixar de fazer parte do nosso quotidiano e souber o que é estudar no século XXI sem aulas e avaliações à distância, motivadas por uma pandemia.

24 horas são insuficientes para tudo o que há a fazer diariamente, tenho até remorsos de dormir, basicamente porque o tempo para estudar é quase inexistente. A quantidade de tarefas praticamente diárias e o tempo que é necessário dispensar-lhes, absorvem substancialmente aquilo que pensava que ia conseguir fazer que é, estudar. Pelos vistos é uma exigência de Bolonha e da avaliação "contínua" que lhe está inerente. O problema é que com avaliações das quais só esta semana tive folga, o estudo para cada cadeira é feito a correr, como tudo o resto. Há aulas que parecem uma prova de ciclismo. Compreendo a rapidez, porque com aulas teóricas de 50 minutos, tem de se dar matéria como se o mundo acabasse no dia seguinte.

Benditos feriados que possibilitaram diversificar um pouco o leque de estudo. Como as aulas iniciaram apenas a 6 de outubro (graças ao Covid), as férias de Natal começam a 24 de dezembro. A interrupção dura 5 dias úteis e logo a 6 de janeiro retomo a saga semanal de avaliações e tudo o que é necessário executar diariamente, culminando com quatro avaliações na última semana de janeiro.

Tenho permanentemente tendência para comparar a atualidade com a experiência universitária que tive há muuuuito tempo, na era pré-Bolonha e está a ser bastante diferente. Em termos de grau de complexidade não estou a sentir dificuldades de maior. Há, para já, apenas uma cadeira que me está a preocupar. Se não fosse este desejo de que os dias tivessem o dobro do tempo para poder dedicar-me a tudo, da forma que eu queria, sentir-me-ia com sensação de missão controlada. Não tenho o mesmo entusiasmo de há 22 anos, pois estou a correr um tremendo risco mas estou extremamente comprometida com este objetivo. As máscaras, os distanciamentos, os curtos tempos presenciais e os Zooms com 70 pessoas identificadas com pequenos ecrãs negros, não ajudam às dinâmicas sociais. Há pessoas da minha turma que não sei se algum dia vou conhecer. Sei o nome de pouco mais de meia dúzia, porque as oportunidades para trocar impressões são escassas. É muito estranha esta época que estamos a viver.

Meti-me nisto e vou cumprir tudo, da melhor forma que conseguir. Acho que nesta missão não vou falhar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

9 anos

Fui ler o que escrevi há um ano e há coisas às quais hoje consigo dar uma resposta. Houve embriões euplóides mas nem essa aparente vantagem lhes valeu. No ano em que entrei na casa dos 40 encerrámos a nossa luta. O melhor de nós não chegou e não aguentámos mais desilusões. Apesar do desgosto, foi possível terminar dentro do período que me era mais favorável para a mudança de página, não tornando o estrago emocional ainda maior.

Perdi muito desde que começámos esta história, mais do que imaginava quando tudo começou. Só saberia disso vivendo-o, por isso não me arrependo. Aquilo que lamento realmente é que os meus filhos tenham partido sem culpa de nada. Cresci, mudei, acredito que, em parte, devido à falta de sentido em tudo o que nos envolveu neste caminho incerto da infertilidade. Não consigo encontrar uma explicação lógica para o que sucedeu e que ninguém se atreva a dizer que o destino estava traçado para que assim fosse.

Há 9 anos havia algo dentro de mim que me dizia que o meu percurso não ia ser banal e de fácil resolução. Excedeu exponencialmente a estranheza que já sentia por não funcionar como o padrão que conhecia. Em determinadas alturas odiei-me, agora só tenho de aceitar a anormalidade que me caracteriza.

Em várias ocasiões falei dos sonhos. Na noite passada sonhei que tive uma consulta com a Diretora do serviço para ter a alta presencial que não chegou a acontecer. Não voltei a sonhar que estava grávida ou que já era mãe e não sabia, como tantas vezes aconteceu.

Todos os dias penso neste passado surrealista. Por outro lado, continuo sem qualquer dúvida de que era a altura de parar. Não há nenhum "e se?" latente numa qualquer pasta oculta da minha mente.

No ano passado estava a fazer fisioterapia, atualmente continuo lesionada mas consigo fazer uma vida praticamente normal. De vez em quando o meu tornozelo começa a latejar sem mais nem menos, mesmo que tenha estado pouco tempo de pé. Ainda na semana passada aconteceu isso e inchou ligeiramente.

Com o termo dos tratamentos decidi investir em mim, voltei a estudar e daqui a uns dias começam avaliações. Apesar de praticamente não existir qualquer ócio na minha vida, sinto-me mais tranquila do que quando havia listas de espera, tinha de aguardar por chamadas ou andava no lufa-lufa dos tratamentos. Agora detenho um controlo sobre mim que antes não possuía.

Daqui a um ano não farei nenhum post sobre 10 anos. Este é o remate da saga dos aniversários relacionados com a infertilidade. Mais uma amarra está libertada. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Bodas de couro ou trigo

Há 3 anos, numa quinta-feira, e após uns breves minutos frente ao Conservador, assinámos o contrato que selou uma união que existia há vários anos. Foi um momento só nosso, porque assim entendemos. O que houve nessa manhã, até eu ir trabalhar no período da tarde, foi do que mais prezo na vida: paz e sossego. Como gosto de serenidade! O ato oficial em si foi isso mesmo, as horas que se seguiram foram uma continuação desse estado de alma e a hora de jantar foi também pautada por uma sensação de leveza indescritível. Estávamos ali, um para o outro. Temos pouquíssimas e péssimas fotos do momento. O Conservador ofereceu-se para registar, com um dos nossos telemóveis, algumas memórias daquele ato solene. Percebemos que acumular funções de fotógrafo não é uma boa solução para ele. Não importa, porque a minha mente tem tudo registado. Marcámos a cerimónia para as 9h da manhã, porque inicialmente estava previsto realizar uma TEC nesse dia, pelo que às 12h já deveria estar de bexiga cheia no hospital. O plano era casarmos, passarmos uns breves minutos a dois, voltarmos a casa para trocar de roupa e seguir para o HSJ. Como me foi dada a indicação para iniciar o Progeffik um dia depois do que tinham planeado inicialmente, a TEC acabou por realizar-se no dia seguinte. No dia do meu casamento estava um sol maravilhoso. O frio não deu ar da sua graça e depois de sairmos da Conservatória fomos ao nosso sítio, onde tudo começou. Em seguida aproveitámos para caminhar lentamente pela marginal, despida de gente e sentimos a brisa do mar calmo. Naqueles minutos, para nós, não havia mais nada no mundo além daquele espaço.
No dia seguinte, a médica que fez a transferência brincava comigo a dizer que poderia contar que engravidei no casamento e a verdade é que o resultado foi positivo. Engravidei da minha menina. Foi a gravidez mais "evoluída" que tive e o aborto visual e fisicamente mais marcante do meu histórico.

Não importa qual a boda que está a ser celebrada. Como em qualquer relação há uns dias melhores que outros, independentemente de haver ou não um ato legal envolvido. Um dos pilares que, a meu ver, sustenta uma união é a capacidade de não ceder às primeiras adversidades e ter maturidade para saber crescer em conjunto. As centenas de páginas que antecedem este post ilustram um enorme rol de percalços, decisões, contrariedades, episódios ruins que poderiam abalar fortemente a nossa vida a dois. Não foram um mar de rosas, isso garanto. Houve clivagens que poderiam ter comprometido a nossa estabilidade de forma irreversível. Conseguimos suster-nos. Venham de lá mais bodas com saúde, compreensão, respeito e amor mútuos para que daqui a muuuuiitos anos sejamos aqueles velhinhos que estão de mãos dadas, não só para impedir a queda de um dos dois mas porque se veem como peças um do outro.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Em ambientação

Está instalada a dinâmica das aulas, estou em fase de habituação e a tentar antecipar-me em tudo o que me é possível para poder perceber se tenho dúvidas em alguma coisa, antes que se avolume o trabalho. As terças-feiras são duras. Apesar de me encontrar no conforto do lar, toda a manhã é passada com ensino online, à tarde repete-se a dose, tendo a agravante dessa aula ter sempre um questionário para responder em grupo. Este começa ainda dentro do período da aula e estende-se na(s) hora(s) seguintes, porque tem de ser submetido até uma ou duas horas após o seu termo. Ontem, por exemplo, o dia começou às 9h10 e terminou às 19h, sendo que aproveitei o tempo de almoço para adiantar mais algumas coisas. Depois de jantar ainda estive à volta de um projeto para uma das unidades curriculares. Todas as terças vão ter esta dinâmica.

Além disso, ainda tenho a vida para lá do curso ocupada parcialmente com algum trabalho remunerado e o outro que passa despercebido.

É dose... Ou não, pois há correntes que defendem que o trabalho intelectual é trabalho da treta e que apenas as aulas bastam para cumprir os requisitos. No fundo, só o trabalho braçal cansa. Conheço as duas vertentes e sei dar-lhes o devido valor. Não posso é esperar que pensem como eu.

O patamar que estou a estabelecer para mim, não é de cumprimento de mínimos. Pretendo que o curso que me traga uma mudança para melhor e, para atingir esse objetivo, qualquer segundo é precioso.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Fantasmas

Já aqui relatei que a minha família paterna (tios e tias) tem sido fustigada com doença oncológica em várias partes. Nuns casos o diagnóstico foi realizado em fase metastizada como, por exemplo, no meu pai, mas não foi o único nessa situação.
Agora é um tio materno que está a enfrentar essa provação. Aparentemente o carcinoma está circunscrito, tem 40 mm, sem metástases. Não bastava o choque da terrível notícia, vem também a incerteza da influência do Covid na resposta do SNS. O meu tio não sabe como, quando e onde vai ser operado. Está já a deparar-se com demora num exame.

A minha mãe diz que há vários familiares do seu lado materno que tiveram cancro, todos do foro gastrointestinal. Os meus avós tanto paternos como maternos, pelo contrário, faleceram com idade avançada, sem evidências de que tenham sofrido de cancro.

Este fantasma influenciou, em certa medida, o desejo de que a entrada na maternidade não fosse muito tardio. Não sei se o meu caminho vai passar por travar, na primeira pessoa, a luta contra a coisa peçonhenta. Quis proteger a minha cria da possibilidade de sofrer desde tenra idade por causa da mãe.

Lembrei-me de um pormenor sobre a dor dos filhos. Tinha algum receio de ter uma filha. Cheguei a estar grávida de uma pequena bonequinha e afligia-me que no futuro se deparasse com os mesmos problemas que eu do ponto de vista reprodutivo ou que fossem até piores. Pesquisas recentes apontam que uma das causas da SOP poderá ser a exposição excessiva do feto à AMH, daí não se terem descoberto causas genéticas para a síndrome. Sei o que senti com a minha adolescência atribulada e o que sofri com a infertilidade. Receava que uma filha minha passasse também por essa experiência.

sábado, 3 de outubro de 2020

Rufam os tambores

Terça-feira será o regresso às aulas. Não vai acontecer como seria ideal, as circunstâncias atuais assim o obrigam. Cerca de 50% da atividade letiva decorrerá na modalidade online. O material necessário está pronto a ser usado (também não é preciso grande coisa), a cabeça está fresquinha, a motivação bem alta, só falta começar!

Entraram 60 e tal alunos pelo concurso nacional de acesso ao ensino superior. Não sei quantos há de contingentes especiais. Foram criadas 11 turmas com horários distintos para acautelar o distanciamento. Pelo que parece, para já, o horário é bastante jeitoso. Apesar de não ter solicitado o estatuto de trabalhador-estudante, vou manter ocupado parte do tempo disponível com atividade independente que já desenvolvia. Deverei também voltar a prestar serviços numa instituição onde passei dias muito felizes.

Vai ser estranho estar tão perto do HSJ a tentar concretizar um projeto de vida que surgiu depois de, o que me levou lá, ter falhado. Estou lentamente a cortar o cordão umbilical que me uniu àquela parte da Circunvalação.

O maior desafio vai ser conciliar a vida familiar, com o trabalho (ainda que poucas horas semanais) e o curso. Desta vez não estou sozinha a 400 km de casa.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Alergias, pain in the ass...

Falar de mim e de alergias é indissociável. Somos unha e cutícula desde o terramoto de 1755. Os problemas respiratórios começaram também por aí, ou seja, mal vim ao mundo. A minha mãe dizia que na primeira consulta que tive depois de nascer, o médico percebeu após a auscultação que ia ter dificuldades respiratórias ao longo da vida.

A asma não me proporcionou uma infância digna de memória. Naquela altura o inverno era sinónimo de problemas, noites mal dormidas por causa das crises, serões a jogar às damas com o meu pai para me acalmar e distrair daquele sufoco permanente. As alergias propriamente ditas manifestavam-se de forma mais branda do que veio a verificar-se mais tarde. Durante muito tempo foi a asma que me tirou qualidade de vida. Sempre que realizava o teste Prick, diziam-me que a reação cutânea aos alergénios não era suficientemente forte ao ponto de necessitar fazer imunização com vacina.

E assim fui vivendo, com primaveras chatas (detesto primavera), pingo no nariz, espirros incessantes, por vezes febre, asma que ia e vinha, um coro de mil e um gatos a miarem dentro de mim entoando a casa, noite dentro, enquanto a família tentava dormir com todo aquele ruído, o ar abatido e preocupado dos meus pais por me verem em sofrimento, as consultas infrutíferas, os litros e litros de xaropes ruins e inúteis, as bombinhas de sabor inconfundível, centenas de comprimidos também inúteis e por fim a resignação porque, mais cedo ou mais tarde, o clima iria ser mais favorável para mim. Veio a adolescência, o episódio do corte de relva que relatei no início do blogue, que desencadeou uma mudança na minha vida e aos 18 anos a ida para a universidade, a 400 km de casa.

Nos primeiros anos longe de casa, as primaveras não foram muito diferentes daquilo a que estava habituada. A partir do 3.° ano as coisas mudaram para muito pior. Ficaram tão más que qualquer movimento que realizasse implicava logo de seguida largos minutos de adaptação por parte do meu corpo, que se traduziam numa sessão de espirros infindável, acompanhada de um dilúvio nasal. Nunca saía de casa com menos de 4 pacotes de lenços de papel que esgotava num ápice. Imaginem estar num anfiteatro com 3 ou 4 cursos a assistir a uma aula, enquanto uma máquina de espirrar não parava de incomodar. Era eu, fartinha de mim, com vontade de cavar um buraquinho de vergonha e meter-me lá. Quando o corpo achava que estava devidamente ambientado ao espaço, instalava-se algum sossego. Terminava a aula, tinha de me levantar para sair e começava tudo outra vez. Mesmo que numa sala tivesse de mudar de uma cadeira para outra ao lado, voltava a adaptação ao espaço com espirros infinitos e o nariz a escorrer sem parar. Em casa usava caixas de Kleenex que rapidamente terminavam. A pele das narinas ficava inflamada por tanta fricção, as conjuntivites deixavam-me os olhos num estado que parecia que tinha estado noites consecutivas a chorar, os cornetos nasais hipertrofiavam de tal forma que não entrava ar. Tinha vontade de fazer duas coisas: arrancar o nariz, fruto da intensa comichão que sentia e pegar nos meus olhinhos, coçá-los com um garfinho e pousá-los em algum sítio até que a tortura da primavera tivesse terminado. Os pulmões, esses, voltaram a queixar-se. A meio de uma aula teórico-prática começou a atuação do coro de Santo Amaro dos Felinos. Estava a fazer uma atividade de grupo com umas colegas que ficaram abismadas a olhar para mim quando ouviram aqueles sons, múltiplos mios de diferentes tons, a saírem de dentro da minha caixa torácica. Pensei para os meus botões "Patrícia, estás de volta às tuas origens". Foi o arranque para o regresso das crises de asma que tinham ficado adormecidas durante uns tempos.

Quando ligava para casa queixava-me do meu estado, estava exausta de viver daquela forma e perguntei se os meus pais estavam com condições financeiras que permitissem que recorresse a consultas de imunoalergologia privadas. Era impossível que os testes não fossem taxativos a confirmarem que as alergias estavam bem instaladas e podiam ser tratadas. Apesar do meu pai já estar de baixa, por causa do cancro, foi feito um esforço adicional para suportar a despesa. Não fazia sentido esperar pelos poucos fins de semana que vinha ao norte para ter consultas, então procurei na cidade onde estudava, uma clínica onde houvesse a especialidade.

Encontrei uma médica da qual gostei muito e realizei mais uma vez o teste Prick. Quando a minha pele manhosa foi picada para entrar em contacto com aquelas gotas seguiram-se uns minutos que pareciam um filme de ficção científica. Primeiro gerou-se vermelhidão local, depois inflamação nas zonas onde estavam os extratos aos quais era alérgica mas não se ficou por aí. Formou-se um conjunto de ramificações vermelhas como se pequenas toupeiras andassem debaixo da pele a cavar túneis. Na sala de espera, ao meu lado, havia uma senhora também a fazer o teste. Comparou o braço dela ao meu e disse que claramente ela não tinha alergias. Voltei para o consultório, foram feitos contornos às zonas reativas com esferográfica, decalcados com fita adesiva e colados no meu processo. Seguidamente realizei análises para avaliar as classes de alergia em que me inseria, fiz uma espirometria numa cabine (experiência extenuante que não apreciei) e iniciei terapêutica. Os níveis de alergia eram variáveis sendo que me encontrava na classe 6 para alguns tipos de gramíneas (a mais grave). Passei a tomar comprimidos, usava dois inaladores, fazia pulverizações no nariz e ainda gotas nos olhos. Gastava perto de 50 euros mensais em medicação mas voltei a ter uma vida praticamente normal. Havia efeitos secundários mas eram perfeitamente suportáveis. Tinha tremores nas mãos minutos após fazer as inalações, andava permanentemente rouca, as narinas ficavam extremamente secas ao ponto de começar a ter feridas no interior e sofrer algumas hemorragias, mas nada disso era mau em comparação com o estado em que tentava viver antes. Daí em diante, antes de iniciar o outono e a primavera, fazia a preparação medicamentosa para enfrentar essas estações. 

Quando chegou a altura de realizar o estágio perguntei à imunoalergologista se podia fazer vacina, porque ia precisar de usar a voz diariamente. A médica disse que como tinha várias alergias, esta solução não seria muito eficaz, mas dado que estava na classe 6 para as gramíneas, podia tentar imunizar-me a estas. Avancei então para as vacinas. Isso implicava ir durante 5 anos, a cada 4 semanas, ao centro de saúde de bolsa térmica em mãos e um plano de emergência escrito numa folha, para ser picada alternadamente 8 a 10 cm acima do cotovelo. Nos 30 minutos seguintes à administração da vacina tinha de ficar na sala de espera em vigilância, porque havia o risco de desenvolver um choque anafilático. A folhinha que trazia comigo tinha descrito como proceder no caso de se dar o choque. A vacina que fiz chamava-se Alergo Merck Formogoid Depo. Era preparada especificamente para mim em Espanha. Tinha de entrar previamente em contacto com o laboratório para encomendar mediante o envio da receita, era expedida refrigerada (não me recordo se era um estafeta que trazia a casa ou se eu ia buscar aos CTT) e o custo era de aproximadamente 150 euros. Dava para várias aplicações e podia pedir o reembolso de 50% do valor ao Estado. Acabava por ser mais económica que a parafernália de medicamentos que fazia. Havia o inconveniente de durante cerca de 3 dias após a administração, o braço estava inchado, quente e com uma urticária quase incontrolável, principalmente enquanto dormia. Nos primeiros 3 anos em que foi aplicada senti-me uma pessoa nova. Não me apercebia dos efeitos da primavera, abandonei toda a medicação que tomava. Nos dois últimos anos do tratamento com a vacina comecei a notar que, apesar de ainda estar a fazer imunização, os sintomas estavam timidamente a regressar. Ocasionalmente precisava de fármacos. Terminei a vacina em 2008 e desde então tenho vindo a piorar. Desenvolvi novas alergias, a asma tem-se mantido calma, apesar de ter regressado nos meses de junho, nos últimos 3 anos.

Ontem tive uma consulta e voltei a realizar o teste Prick. Ainda estou com alguma inflamação no braço e urticária. Reagi a ainda mais alergénios do que há 19 anos e, apesar de ter feito imunização às gramíneas não resultou ou o preparado da vacina era para outro tipo de gramíneas. A médica conseguiu deduzir por uma reação em concreto que não vivi sempre em Portugal e estive no norte da Europa. C'est vrai! Je suis né près de Paris et j'y ais passé plusieur années. Divido a minha vida em vários períodos, o primeiro foi passado fora de Portugal. Vão seguir-se análises sanguíneas tanto para avaliar a tolerância aos pólenes, fungos, ácaros, como para aferir alergias alimentares, porque reajo ao kiwi e também ao melão e meloa se estes estiveram bastante maduros. O teste cutâneo não é muito eficaz para avaliar alergias alimentares. Não deu nada para o kiwi, por exemplo. Tenho de fazer o inalador da asma de forma regular, já tenho comigo o pulverizador para o nariz que deverei usar quando começar o congestionamento, vou fazer vacina para a gripe se conseguir apanhar alguma na farmácia, vou tomar outra vacina na forma de comprimidos para complementar a da gripe, uma vez que tenho anualmente infeções respiratórias (este ano que passou não aconteceu, tinha feito vacina da gripe e depois houve o confinamento). Vou reavaliar a questão da asma com nova espirometria 🙄 Antes da espirometria serei chamada para me enfiarem um cotonete gigante até ao cerebelo, se não se generalizarem os testes rápidos de que andam a falar na comunicação social.

Como não podia deixar de ser, as hormonas e a tiróide vieram à baila. E porquê? Tenho alergia ao sol. Um dos sintomas é uma urticária violenta mal acabo de me expor ao sol. Se quiser fazer praia, uma burka será a indumentária mais segura para mim. Desisti de me resfastelar debaixo do astro rei, porque a tortura que vivia nos dias seguintes não compensava o estado malhado em que ficava. Quando ouso expor as minhas peles ao ar estou coberta com um pareo do meu tamanho, de cor clara, para não cozer. Atualmente, uma caminhada ao sol que dure mais de uma hora, em que esteja de manga curta ou cava, termina com urticária nos braços durante uns dias e um escaldão como se tivesse passado mais de meio dia com Lúcifer. E isto sob o patrocínio de um protetor solar 50+ de filtro mineral. A causa, fiquei ontem a saber, pode dever-se a uma tiroidite em que anticorpos do tipo igE vão atacar a tiróide libertando histamina. E a histamina causa o quê? Urticária! No teste Prick que fiz ontem reagi em força à histamina. Outro efeito das hormonas está relacionado com a asma. Quando as mulheres estão na adolescência, as mudanças hormonais podem traduzir-se no desaparecimento da asma ou na sua exacerbação. Quatro meses antes da menarca, no famigerado corte de relva, tive uma crise asmática muito forte que gerou todo um verão penoso. Sou daqueles casos que a asma não vai largar. Só espero que fique como está e não piore, que vivo muito bem como ela é atualmente.

E assim se escreve um loooongo post com pouco conteúdo mas que interfere no meu dia a dia.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

22 anos depois

Voltei a entrar no Ensino Superior! Fui colocada no curso que queria e estou mesmo feliz, porque tenho uma esperança imensa de que servirá como guindaste para me retirar do buraco onde me enfiei. À semelhança de várias outras coisas (nomeadamente tratamentos), esta decisão não foi motivo de entusiasmo por parte da minha mãe. Nada que me surpreenda. Há pessoas que têm medo de se desviar um milímetro que seja da sua zona de conforto, mesmo que esta não esteja a ser muito favorável. Não me atiro de cabeça para as coisas, ela já devia ter percebido isso há décadas. Pondero mil e uma vezes aquilo que pretendo fazer e se achar viável, avanço.

Vou estudar no Porto, num contexto totalmente diferente daquele que vivenciei há 22 anos, quando me desloquei para uma cidade a 400 km de casa, na qual tive de aprender a desenrascar-me. Irei, desta vez, conviver com jovens millenials, ávidos de redes, fotos, filtros e informação instantânea.

Tenho um plano alinhavado para tentar colmatar a desvantagem que a idade me vai trazer face aos "miúdos" que vão ingressar no mercado de trabalho daqui a 3 anos. Irei fazer os possíveis para, durante o curso, reunir um conjunto de mais valias que me podem abrir portas, sem que olhem à minha data de nascimento. 

Pelo que acompanhei nos últimos 4 anos, com a minha filhota do coração, o ensino superior está diferente. Decidi que me vou manter old school, não abdicando das esferográficas e apontamentos incessantes nas aulas, para não ceder à tentação de passar horas a visualizar apresentações multimédia sem fim e esperar que os ficheiros sejam disponibilizados numa qualquer plataforma. Tenho esperança de que, por se tratar de uma engenharia, se continue a valorizar a realização de exercícios. A minha onda não é e nunca foi "marrar". Detesto papaguear conteúdos e não tenho paciência nenhuma para memorizar textos, entro em stress só de pensar que posso ter um bloqueio por não me lembrar de uma palavra. Acho que a maturidade me vai trazer vantagens na forma como vou abordar o estudo, sabendo rentabilizá-lo de forma mais eficiente do que quando era mais jovem. Não sei se à semelhança do curso que a minha filhota tirou, a aposta em frequências/exames, quase integralmente com questões escolha múltipla, se alargou a todas as áreas. Quando fiz a licenciatura não era muito habitual, porque predominando cadeiras de Matemática, Física, Química, a resolução de problemas que envolvessem cálculo era muito valorizada nos instrumentos de avaliação. O processo de Bolonha introduziu mudanças. Quando concluí a licenciatura, falava-se que no modelo Bolonha ia ser privilegiada a realização de trabalhos. Vi pela minha enteada que ela era entupida de trabalhos, reflexões, artigos, a um nível sádico. Qualquer coisa era pretexto para fazer mais um trabalhinho. Tenho esperança, mais uma vez, que por estar a realizar um curso na área de engenharia, não vá ser bombardeada de forma tão exagerada. Imagino que relatórios de atividades experimentais vão ser muito frequentes, fiz imensos na licenciatura.

Há algo que me está a deixar curiosa que é o meu desempenho em conteúdos escritos. Já disse algumas vezes que agora sofro de verborreia. Eu não era assim, muito pelo contrário. Diziam que era sintética mas concisa. Vejo atualmente que as minhas exposições escritas são muito detalhadas e espero que não se torne um obstáculo para mim.

A questão geracional vai também ser interessante. Enquanto estudei tive uma colega com 37/38 anos e admirava a sua capacidade para conjugar a vida familiar com o curso. Era casada, tinha um filho com 6/7 anos, havia alturas em que também trabalhava, estava a construir uma casa e tinha um aproveitamento esplêndido. Agora vou estar no papel de colega mais velha, com idade para ser mãe da "miudagem" que vai estudar comigo. Poderei vir a ter professores mais novos que eu. Se tal vier a acontecer, quem sabe as nossas vidas não se terão cruzado no passado, por força da minha profissão?

Precisava de uma notícia como esta.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Tabus e melindres

Falar de infertilidade pode significar derrubar o mais forte e alto dos muros, sem saber com o que contar do outro lado. Se chega uma altura em que se toma uma das decisões mais difíceis que é parar, o constrangimento em partilhar pode tornar-se colossal. Afinal de contas não se desiste de um filho, não é o que se diz?
Melindra ouvir/ler que alguém pôs termo à realização de tratamentos por livre e espontânea vontade? Acho que não tenho incitado ninguém a fazê-lo. Defendo há muito tempo que devemos definir até quando nós sentimos que é viável, persistir naquilo que desejamos com todas as forças, que é que dê certo. É absurdo pensar nisso? Não me imaginava a tentar até ao limite do que o meu corpo permitisse, continuar sem realizar esse grande sonho e ter perdido a oportunidade de ser feliz de outras formas. A mágoa está cá dentro, sim, não se esquece mas penso que vou a tempo de conseguir viver dias muito melhores do que aqueles que me atormentaram desde muito, muito cedo, a propósito da infertilidade.

Perdoem-me aqueles que acham que dá sempre certo. Oxalá fosse assim, nem me dava ao trabalho de partilhar tudo isto sabendo de antemão que o filho estava garantido.

Na página de uma apresentadora em ascensão li comentários de pessoas a lamentarem o facto dos programas televisivos das tardes divulgarem apenas histórias tristes, quando a maior parte dos seus telespectadores sofre de depressão. Pediam para dar destaque a histórias felizes. Estou também a dar conta noutros locais que o assunto do terminar livremente a realização de tratamentos pode ser visto como uma impertinência, causa alguma urticária (não compreendo o motivo tratando-se de uma decisão pessoal). Quando fui convidada para participar no extinto Programa da Cristina, passou-me pela cabeça exatamente isto de que estou a falar agora. O meu testemunho não ia ao encontro de quem quer alegria para combater a tristeza/solidão; se quer inspirar em finais felizes ou lutou até que o almejado filho chegou porque ele ia vir e desistir não faz parte do seu vocabulário.

Escrevi um post sobre pressão social, vou dar-me a liberdade de acrescentar à lista a história de que não se deve desistir. É feio? É errado? É sinónimo de fraqueza? Chacina a esperança a quem quer focar-se apenas no bom e descobre que há quem seja capaz de o fazer? Por acaso alguém está disponível ou apto para refazer o meu corpinho e torná-lo funcional? Devo arruinar-me física, emocional e financeiramente e enclausurar-me até ao fim dos meus dias com uma tristeza profunda, por ter sido incapaz de gerar e manter vida dentro de mim? Devo esconder que a Ciência ainda falha, porque há muito por descobrir?

Já cantava o senhor Jon Bon Jovi na música It's my life "I just want to live while I'm alive". Eu estava moribunda por tudo o que suportei, para depois de tudo o que consegui aguentar, o filho não ter chegado. O título do blogue não podia ser mais descabido para a minha história.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Projeto ETHICO - apelo

Já anunciei este projeto, participei nele e foi uma experiência que me fez pensar em coisas sobre as quais ainda não tinha refletido.

Foram realizadas até ao momento 34 entrevistas, faltam ainda 16 para os investigadores atingirem o patamar estipulado para o estudo. O que é necessário? Um computador/tablet/telemóvel, internet, algum tempo (comigo foram quase duas horas) e franqueza.

O Mário (investigador que realiza as entrevistas), deixa-nos à vontade para o tratarmos por tu. É de uma acessibilidade incrível. A entrevista flui naturalmente, sem sentirmos qualquer pressão ou acanhamento.

Poucos dias antes de ser entrevistada, tinha participado na realização do vídeo para a semana dedicada à tiróide, promovido por outras entidades. Foram duas experiências distintas e senti-me realmente bem, porque no caso do projeto ETHICO não havia a questão do tempo a limitar os raciocínios.

Tanta gente tem possibilidade de dar o seu testemunho! Basta ter realizado FIV/ICSI. Ao contrário do que acontece em muitos questionários em que as respostas são limitadas e pouco abrangentes, aqui é possível falarmos da nossa perspetiva. Não sei como vão tratar a informação, imagino que não vá ser fácil, mas também não nos compete esse trabalho :) Quase sempre que há projetos de investigação com colheita de dados através de questionário em que considero viável participar, faço-o. Acontece, no entanto, que numa parte significativa há uma ou mais questões cujas hipóteses de resposta não se enquadram ao meu caso. Quando isso acontece, envio um e-mail ao investigador. Ainda há pouco tempo preenchi um formulário sobre o impacto emocional do Covid no acompanhamento das unidades de PMA. Não havia nenhuma opção que permitisse indicar que se realizou tratamento durante este período. Contactei a investigadora alertando-a para isso.

Se temos condições de contribuir para estudos e neste caso, sentados no conforto do lar, porque atualmente as entrevistas não são presenciais, porquê não sermos parte ativa?

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Dia da natalidade ou dia da grávida

Há cada ironia! Andei completamente ao lado desta efeméride da qual só tive conhecimento esta manhã.

Associei sempre esta data a outro acontecimento.

Se o meu pai estivesse vivo, celebraria 72 anos.

Outro facto curioso é que o boletim de vacinas da minha menina de bigodaça tem como data estimada de nascimento 09-09-2011.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

(Re)começo

Passou pouco mais de um mês desde que terminei a viagem a nenhures. Sinto-me leve por já não ter de me preocupar com todas aquelas coisas que absorviam o desenrolar dos meus dias. Não esqueci, porém. Isso nunca acontecerá. Acho que ainda não houve nenhum dia em que não tenha dedicado uns segundos a pensar no que aconteceu, durante os vários anos que antecederam a chegada a esta etapa. Sabia que seria assim.

Atualmente encontro-me em espera e expectante. Candidatei-me ao ensino superior no contigente especial de quem já é titular de curso superior conferente de grau. Há uma única vaga em jogo e sentir-me-ei perdida se não for colocada, porque não tenho planos alternativos. Decidi que este é o único ano em que irei tentar entrar. Se não conseguir será extremamente difícil encontrar trabalho noutra área. Não posso continuar com os pequenos serviços que ainda realizo que mal dão atualmente para pagar a fatura da eletricidade. A vantagem é que são perfeitamente exequíveis online, sem haver riscos de contágio com Covid ou outras maleitas e não tenho despesas associadas a transporte. O contrato da substituição que estava a fazer terminou no dia 31 de agosto e o que poderá surgir de pseudoestável daqui a umas semanas ou meses, será uma ou mais substituições ou trabalhos a tempo muito parcial que ajudam a pagar o condomínio, a água e um bocadinho da prestação da casa. Até ao dia 15 deste mês saberei se posso acender uma nova luzinha de esperança, desta vez em busca de dias melhores no que diz respeito à vertente profissional.

Tive a consulta de gastroenterologia que tanto aguardava desde o final do ano passado e foi confirmado o diagnóstico de Síndrome do Intestino Irritável. O médico não deu importância à situação, quase me mandava embora dizendo para eu aguentar e resignar-me a ela. Quando lhe disse que me causava transtornos enquanto trabalho, a postura dele mudou ligeiramente. Sei que isto vai continuar a interferir no meu bem estar mas em momentos mais complicados há um medicamento que ajuda a "normalizar" a função intestinal. Estou a terminar as cápsulas prescritas que tive de tomar duas vezes por dia durante o último mês e há diferenças notórias. Não sei durante quanto tempo irei permanecer bem.

Durante o período de confinamento reparei que começou a aparecer na minha bochecha esquerda algo que parecem ser sardas. Há cerca de um mês na parte superior do nariz detetei uma manchinha acastanhada e na última semana alastrou ao longo da cana, desabrochou na testa e na bochecha direita. Acho que estou a ficar com melasma. Não estou grávida, por isso descarto essa causa. Sou alérgica ao sol, logo evito estar exposta ao mesmo. Li que o hipotiroidismo pode desencadear o surgimento dessas manchas. Pode ser também o meu corpo a dizer que estou a envelhecer ou, quem sabe, o resultado de anos de cocktails hormonais.

A situação epidemiológica afetou um pouco o quotidiano cá por casa. Antes, já costumava passar muito tempo no meu palácio. Atualmente, além das saídas necessárias para abastecer a despensa (quinzenalmente), visitar a família mais próxima e tratar de assuntos realmente importantes, basicamente ponho os pés na rua para fazer caminhadas com o meu marido por zonas aqui à volta, onde praticamente não passamos por ninguém. Saímos umas duas vezes para dar uma volta de carro, junto à praia e passámos um fim de semana fora, longe de multidões. Não perspetivo que os próximos meses sejam um mar de rosas, atendendo aos números das últimas semanas, dentro e fora de Portugal.

Já me ia esquecer de contar que quando fui à farmácia entregar o arsenal de agulhas, seringas, frascos e cartuchos que usei nos tratamentos, voltei com tudo para casa. O projeto "Seringas só no Agulhão" está suspenso (tenho de averiguar se a situação se mantém). Qual o motivo? Sim, o bicho... A desculpa universal que é usada para tudo, desde março. Enquanto não houver alterações mantenho armazenada a minha caixa de Menopur 1200UI a abarrotar de material que devia ser devidamente eliminado.