domingo, 30 de novembro de 2025

Sobre a minha menina de bigodes

Hoje o post é essencialmente sobre ela, a miúda que trouxe o mais belo dos sentimentos aos meus, aos nossos dias. Foi encontrada juntamente com um irmão na zona da Batalha, no Porto, indefesos, cegos de nascença, sujinhos, à sua sorte. Ela nasceu sem globos oculares. Teriam uns três meses quando alguém não lhes ficou indiferente e proporcionou-lhes alimento, cuidado e um teto onde pudessem experimentar uma vida diferente daquela que lhes estava destinada. Foram colocados para adoção, um casal amigo ficou com a miúda, mais reguila e comilona, o irmão foi para outra família. Quis o destino que eu não ficasse com ela logo que foi proposta para adoção, mas seis meses depois, tinha ela dez meses, acabou por entrar generosamente na minha vida. Tenho uma enorme gratidão por tudo o aprendi com ela e continuo a aprender. É verdadeiramente especial, de uma sensibilidade e ternura fora de série e, durante muito tempo, combinava todo o seu afeto e carinho com um lado travesso, inocente, de quem sabia muito bem como me fazer rir e admirar todas as capacidades que desenvolveu à custa da cegueira. É, atualmente, a gata mais velha que tive. Tem 14 anos e, desde há uns dois anos e qualquer coisa os hábitos traquinas foram desaparecendo, dando lugar a uma dependência ainda maior do nosso colo, carinho, descanso. Já não procura objetos para brincar, nos poucos momentos brincalhões ela praticamente exige a minha participação. Às vezes tento estimulá-la para ser mais ativa, nem sempre tenho sucesso. Se for para mimo está tudo bem. Ela mesma retribui com massagens, abraços apertados, turras, esfoliações intensas no meu rosto, temos momentos a duas de grande cumplicidade. Quando se deita em cima de mim, agora sente necessidade de pousar o focinho sobre o meu rosto. Antes bastava-lhe ter as patinhas a tocar-me na cara. Algumas rotinas mudaram, já não tenho uma sombra a acompanhar cada passo que dou. Estar deitada é a sua ocupação quase plena. Sempre que montava a árvore de Natal tinha a minha assistente em ação, a entrar e sair do túnel onde a árvore fica empacotada, a testar a qualidade dos ramos com a boca, a roubar uns elásticos, a personalizar a decoração da árvore retirando elementos que achava excessivos, a espalhar pela casa as provas dos seus crimes durante as semanas em que o elemento natalício ficava exibido na sala. Há dois anos começou a deixar a árvore descansar no seu canto, mas a parte da entrada e saída da embalagem ainda continuava, no dia da montagem. Hoje nem sequer acordou em toda a preparação da árvore. Entristeceu-me fazer essa constatação. Fisicamente não são ainda notórios sinais significativos do envelhecimento. A cor da pelagem está praticamente igual, a densidade do pêlo talvez esteja um pouco mais reduzida. Os bigodes já não são tão longos e as suas gengivas estão praticamente despovoadas. Tem dois pequeninos dentes superiores e um pequeno molar que me parece também brevemente cair. No que toca aos dentes, os problemas começaram cedo. A mãe dela deve ter tido uma gravidez miserável. Por possivelmente sentir desconforto na boca desde novinha, nunca vi a minha menina mastigar os alimentos. Habituou-se a comer como se engolisse comprimidos, um a um. Tirando a falta de olhos que nunca foi um drama para ela, os problemas dentários, uma infeção urinária e três deslocamentos de rótula resolvidos em minutos, a saúde dela tem estado bem. Daqui a dois meses vai fazer novamente análises para ver se continua tudo em ordem. Estou consciente de que ela está em idade geriátrica, mas continua a ser para mim a minha menina, a quem quero proporcionar tudo o que está ao meu alcance para que seja feliz e saudável. O seu coração maravilhoso continua a ver com a clareza de sempre e espero que continue a bater forte e certo, durante muito tempo.