domingo, 19 de novembro de 2017

Malditos domingos

Vi o meu pai a sucumbir à vida num maldito domingo à tarde, outros dois domingos, sensivelmente à mesma hora, foram brindados com um dilúvio que ditava o fim de dois filhos meus. Hoje foi um desses dias.

Vim há pouco das urgências e o que resta no meu útero são coágulos. Estou com uma hemorragia como nunca tive. Cada movimento que faço é sinónimo de jatos de coágulos e sangue.

Depois das perdas que tive na quarta-feira elas cessaram e tudo corria harmoniosamente até ao início desta tarde em que, ao limpar-me, o papel ficou todo pintado. Duas horas mais tarde veio o inacreditável. Jorros e mais jorros de coágulos, um escorrer contínuo de sangue, sempre que dou um passo sai mais um jato. À partida o processo vai deixar o útero sem vestígios de gravidez.

Antes de ser chamada para o gabinete da médica fui à enfermeira que me perguntou se era a primeira gravidez. Disse-lhe que era a terceira, então quis saber que tipo de parto tive nas gravidezes anteriores. Quando respondi que nenhuma chegou ao fim ela lembrou-se que já lá tinha estado. No consultório após a confirmação do aborto, a médica aconselhou a que enquanto tivesse oportunidade de fazer ciclos de tratamento para não desistir. Este foi o passo mais longo que dei até ao momento, uma vez que já foi visto um saco. Preciso que chegue o dia 23 para dar um pouco de luz a toda a confusão que tenho dentro da cabeça.

Estou com dores e a desfazer-me. Por que é que tenho de passar por isto?

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Gostava de estar otimista, a sério que gostava

A tensão mamária chegou, o peito encontra-se ainda maior do que o habitual, o meu coração está dilacerado. Não consigo estar de outra forma. As perdas de sangue têm vindo a aumentar e se até ontem só se manifestavam vermelhas de manhã, sempre após o repouso noturno, hoje acordei com dois pequenos coágulos. Fiquei alarmada, não em demasia, até às 17h. O pior veio nessa altura quando passei a pingar sangue e caiu um coágulo com algo que me pareceu o meu pequeno saquinho. Estou de rastos, não tenho coragem de fazer beta ou outra ecografia até ao dia 23. Não há nada que consiga fazer para reverter a situação se realmente o que expulsei foi o nosso mini-nós.


O meu marido disse que se de facto abortei novamente temos de repensar o que realmente queremos e vamos fazer. Se optamos por uma pausa (na minha idade não faz sentido, não se deve ter lembrado), se arriscamos logo que possível outra FIV ou se ficamos por aqui. Apoia-me se me sentir psicologicamente pronta para continuar ou dar por terminada a maldita luta. Ele fica perplexo como é possível com 12 embriões e 5 transferências não resultar. Comigo não seria de esperar outra coisa.

Com toda a honestidade, se no dia 23 se confirmar o aborto, a minha disposição atual é encerrar definitivamente este assunto.

Para nós, enquanto casal, é algo que nos envolve há 6 anos, com muito sofrimento. Para mim, é uma questão que me perturba mensalmente há 23 anos. A maior parte da vida tenho convivido sistematicamente com a anormalidade que transformou o meu desenvolvimento numa coisa completamente artificial. Dei por mim hoje a pensar que gostava que o tempo avançasse uns 12 anos para estar na menopausa e finalmente sentir-me "em casa".


Hiperestimular novamente com 38 anos, fazer um determinado número de transferências, perder mais sabe-se lá quantos filhos, condicionar a vida em função de uma causa perdida vai ser demasiado para mim. Chamem-me fraca ou desistente, não me importo. Só quem calçou os meus sapatos pode emitir um juízo de valor. Não duvido das minhas competências como mãe, ia falhar em muitas coisas como qualquer ser humano, mas acho que teria tudo para cumprir muito bem esse papel. Vou viver com a eterna mágoa de não crescer a esse nível, nem de possibilitar que o meu marido tenha outro filho que possa amar. Tenho de ser racional e o mais sensato está à vista. Penso que será a primeira vez que vou desistir de algo e vai ser justamente naquilo que eu mais perspetivava que fosse fazer sentido na minha existência.

Possivelmente vou concluir no dia 23 que não podia ter falhado mais na escolha do nome deste blogue. Não o vou fazer desaparecer, é um registo de uma parte da minha história. Tenho de pensar que rumo dar a este espaço que tão bem me tem feito.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Para já, hipótese 2

Esta manhã voltei a ter sangue vermelho, ao longo do dia tornou a ser castanho. Regressei há pouco das urgências e, pela primeira vez, vi um saco gestacional. Tem 4 mm, segundo as médicas o seu tamanho é compatível com o tempo de gestação. Como entrei nas 5 semanas ainda não foi possível ver mais nada. As trompas estavam limpas, por isso tenho comigo apenas um mini-nós. Não há nada que possa fazer a não ser aguardar pelo dia 23 para ver se a evolução continua a ser regular. A forma do saco é normal, nunca gostei tanto de ver uma mancha preta num ecrã. Mal a médica começou a fazer a ecografia vi-o, foi mesmo especial, tenho pena que o meu marido estivesse do outro lado da cortina.

Disseram que já estou a tomar tanta coisa que não é necessário acrescentar mais nada. Segue-se outro período de 11 dias tal como o tempo de espera pelo beta. Este sim, vai parecer interminável. Nunca passei por um momento assim, nem acredito que tenho um saquinho! Eu vi-o, estava lá!

Aproveito mais uma vez para agradecer todas as mensagens e apoio, vocês são incansáveis e mais crentes que eu. Tenho levado tanto pontapé em relação a este assunto que me custa acreditar que alguma coisa boa possa acontecer. Quero tanto que as próximas 35 semanas me tragam alegria...

Peço desculpa por todo o alarmismo, devia ter-me contido, mas estas perdas não diferem dos episódios tristes do passado. Agora é continuar o dia-a-dia.

domingo, 12 de novembro de 2017

Confusão mental

Estes fenómenos (par)anormais tiram o equilíbrio que tanto prezo. O sangramento de ontem começou repentinamente em tons de vermelho, tive algumas dores menstruais e cheguei a pensar que iria começar o dilúvio. O fenómeno apocalíptico não aconteceu, foi substituído pelo fim das dores e um corrimento castanho que perdura. Dificilmente isto terminará bem, vai acontecer como na TEC 2.

Que ideias já tive acerca disto?

1 - acabou, à semelhança das outras vezes;
2 - é daqueles sangramentos fantasma que ninguém sabe ao certo o que significam, mas que não comprometem a gravidez;
3 - o meu útero está a passar por um processo de mega expansão;
4 - tratava-se de uma gravidez gemelar que ficou reduzida a um embrião;
5 - houve algum descolamento.

A hipótese 1 parece-me a mais óbvia. Mantenho toda a medicação que inclui 1 ovinho de Progeffik a cada 8h. Pior que a espera pelo beta são os dias que antecedem a primeira ecografia em que nunca foi encontrado nada que se assemelhasse a vida. O dia 23 nunca mais chega. Se calhar até lá a natureza dá o golpe final para não restarem dúvidas.

sábado, 11 de novembro de 2017

Sem surpresas...

À semelhança da primeira gravidez, quatro dias depois do beta despeço-me das horas que privei com o meu filho. Sem qualquer aviso prévio, chegou o maldito fluido vermelho. As dores menstruais estão também a começar a manifestar-se. Daqui a menos de uma hora devem vir os jorros com os resquícios de ex-vida que me fez companhia desde o dia 27 de outubro.

Não vale a pena alimentar ilusões com betas na próxima semana, porque a hormona ainda vai continuar por cá uns dias. Já sei que dia 23 vão querer que faça colheita para dar por encerrado o assunto.

Estou furiosa com a vida.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Estranho estado

É a terceira gravidez em pouco mais de um ano e o que me apraz dizer sobre o assunto? Não tenho aquela fome louca das outras vezes, o intestino trabalha bem melhor que o habitual. Aquelas dores fortes incomodam-me cada vez menos e de há dois dias para cá sinto uma leve náusea. A tensão mamária ainda não se manifestou, a gastrite desperta às vezes. Estou naquela fase em que duvido de que haja vida a crescer dentro de mim por ainda ser muito cedo detetar outro tipo de manifestação. Vou fazer outro beta em meados da próxima semana. Já fiz as contas de valores previsíveis para os próximos dias. Acho que está mais que na hora de conseguirmos ter o(s) nosso(s) filho(s).

Mantenho o mesmo ritmo de trabalho, o que me deixa abstraída de pensamentos e sentimentos sobre o resultado desta TEC.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

De pés assentes na terra

Antes de desenvolver o que quer que seja quero agradecer, do fundo do coração, todas as felicitações e sinais de esperança de quem é mais que bem vindo a esta humilde casa. Vocês conseguem trazer-me aquele calorzinho aconchegante de que precisava nesta altura. Não tenho passado por momentos fáceis, a revolta tem andado a consumir-me e a tornar-me insensível.

De facto, fazendo todos os cálculos comparativos dos positivos obtidos até então, este é o melhor resultado. Poderei na próxima semana fazer outro beta para ter uma ideia intermédia de como estão a correr as coisas enquanto não chega o dia da ecografia. Não quero, contudo, ficar obcecada nem deslumbrada. Isto é um tímido começo que rapidamente pode terminar. Tenho de ser contida nas expectativas mas ao mesmo tempo deixar de lado a tendência derrotista que me leva a achar que vai correr sempre mal. Quando se está escaldado é difícil ver que o sol também pode nascer para nós.

Admito que suspeitava da gravidez, custou mais foi saber o valor. Mesmo tendo ideia de que viria um positivo estava determinada em avançar para outra FIV para a consciência ficar definitivamente tranquila. Uma das áreas da minha formação de base é a Química e é nela que neste momento estou a depositar as minhas esperanças para que o meu filho não seja rejeitado.

Beta -TEC 5

Estranhamente não sonhei com nada relacionado com o dia de hoje.

Fiz colheita, soube o resultado e não sei o que pensar. O valor foi 62,74. Tudo bem que só passaram 11 dias. A médica estava mais otimista que eu. Dia 23 faço a ecografia e até lá vou limitar-me a cumprir as coisas sem refletir muito sobre o assunto. Disseram que nem sempre vai correr mal, oxalá estejam certas. Mantenho toda a medicação, serenidade e neutralidade para não me deixar afetar muito.

Dia 11 - TEC 5

Está a terminar o processo FIV e suas respetivas TEC. Recapitulando no que se transformou, aqui vai uma síntese:

- Hiperestimulação;
- Punção de 25 folículos - fevereiro 2016;
- 3 degeneraram;
- 13 fecundaram;
- 10 criopreservados em D3;
- 2 criopreservados em D5;
- 1ª TEC maio 2016 (2 embriões) - negativa;
- 2ª TEC setembro 2016 (2 embriões) - gravidez bioquímica;
- 3ª TEC janeiro 2017 (2 embriões) - negativa;
- 4ª TEC maio 2017 (2 embriões) - AE às 8 semanas (embrião com desenvolvimento muito lento);
- 5ª TEC outubro 2017 (2 embriões) - descongelados 4 últimos embriões.

As perdas de sangue desapareceram, foram mesmo muito reduzidas, quase nem se notaram. Hoje ainda tive daquelas dores fortes mas não tantas vezes como ontem.

Venha de lá o resultado para poder assumir um pouco mais o controlo à vida, ou não...

Não estou nada nervosa com isto, é estranho. No dia da TEC fiquei calada durante algum tempo, talvez por ter sido confrontada com a realidade de já não haver mais embriões. A verdade é que fui bastante sortuda por ter conseguido transferir 10. Cheguei a um patamar que muitas mulheres gostariam de atingir e não têm essa possibilidade. Posso não ter posto uma criança no mundo mas durante algumas semanas tive a oportunidade de ter células de 10 filhos nossos em contacto comigo. Tenho pena que os outros dois mini-nós não tenham conhecido um ambiente diferente do laboratorial. Para mim eram todos muito especiais, a minha dúzia de pequenos lutadores.

Às 8h00 vou fazer a colheita, por volta da hora de almoço devo saber o resultado. Daqui a umas horas dou novidades.

domingo, 5 de novembro de 2017

6 anos

Em novembro de 2011 tomámos a decisão de enfrentar o fantasma da infertilidade que pairava à minha volta desde 1994. Partimos logo para o pedido de ajuda especializada. No meu caso seria perda de tempo ficar aquele período regulamentar nos chamados "treinos" infrutíferos antes de pensar em procurar soluções.
Vários cancelamentos, negativos, abortos e 12 embriões depois, eis-nos em vésperas de saber o resultado da última TEC possível para a FIV realizada há 1 ano e 9 meses.

Naquela altura ainda tinha 31 anos, daqui a uns dois meses completarei 38. Se há alturas em que me sinto muito próxima de concretizar o nosso sonho, noutros momentos parece que vejo a esperança a escapar por entre os dedos. Não tem sido nada fácil, é a maior dificuldade que tenho enfrentado na vida. A nossa rotina, o meu percurso profissional, muitas das escolhas que temos feito giram em torno dos tratamentos e da possibilidade de passarmos a ser mais moradores em casa. Quando se faz o balanço de todos os sacrifícios não se vê nada. Quer dizer, vê-se o desgaste provocado pela medicação, pela frustração, tudo aquilo de que se abdicou em prol de uma ideia.

Apesar de tudo, não me arrependo de ter embarcado nesta aventura. Aprendi há muito tempo que há coisas que não surgem de mão beijada, carecem de muita luta. A realidade é que nem sempre se conseguem alcançar. Se me perguntassem há 6 anos se achava que o processo ia ser mais fácil, eu tinha consciência de que ia dar muito trabalho e desilusões.

Passou mais de meia década e o meu colo está vazio.

Dia 10 - TEC 5

Precipitei-me ontem quando falei da ausência de perdas. Para já são muito ténues mas estão lá. As dores fortes não se restringem apenas aos segundos que sucedem depois de me levantar. Se estiver em pé, aparecem mesmo que não faça nada de especial. Optei por passar a tarde deitada. Por enquanto, mesmo que esteja sentada, ainda não tenho dores.

Antevejo semanas de incerteza.

Dia 9 (update)

Pouco depois de ter publicado o post anterior fui colocar Progeffik. Quando cheguei à casa de banho vi um pequeno vestígio de sangue acastanhado. Veio umas horas mais tarde que da outra vez. Espero que não se repita o que aconteceu na última TEC, se é para passar pelo mesmo, prefiro logo um negativo.

sábado, 4 de novembro de 2017

Dia 9 - TEC 5

A contagem decrescente está a terminar. Não houve sinais de sangramento mas repetidas vezes, quando me levanto, sou invadida por uma dor bastante aguda no baixo ventre, que incide um bocadinho à direita. O corrimento líquido incolor e inodoro já se instalou e a gastrite deu alguns sinais. Se acho que o resultado vai ser positivo? Não! Tive outrora dores com resultado negativo, assim como o corrimento líquido. A tensão mamária é cada vez mais tardia e ainda é impercetível.

Pensei que a toma prolongada do corticóide me fosse deixar com um ar insuflado como quando era criança e tinha de usar a bomba para a asma. Curiosamente não noto que esteja fisicamente diferente em relação à TEC 4, por exemplo. Na TEC 3 o volume abdominal aumentou significativamente, contudo essa mudança deveu-se apenas à medicação, como veio a ser confirmado no beta.

Em 3 dias, por esta hora, o mistério estará desvendado. À semelhança do que referi em outras ocasiões um positivo não me basta. Não sinto confiança suficiente para lançar foguetes e achar que o assunto está resolvido. Tanta coisa pode acontecer...

Apenas a quem me acompanha por aqui e num dos locais onde trabalho dei conhecimento da existência desta TEC. Mais ninguém que eu conheça sabe. Depois de tanta desilusão o meu marido quis que mantivéssemos de fora a família e amigos no acompanhamento de transferências até haver algo concreto e com uma margem de conforto significativa para podermos anunciar uma boa nova. Esse dia poderá nunca chegar porém manteremos a mágoa entre nós.

Dia 8 - TEC 5

Aproxima-se o dia do beta e os níveis de ansiedade são mínimos. Em raras ocasiões tenho dores idênticas às menstruais que duram alguns segundos apenas. Tenho-me queixado tanto do abuso químico a que estou sujeita mas gostava que a minha malinha fosse despejando nas próximas semanas, era muito bom sinal.

Mais uma vez surge a vontade de fazer planos para os próximos tempos mas, como tem sido costume nestes 6 anos, é complicado. Será fácil resolver essa questão se o resultado do beta for negativo e encerrar definitivamente a luta. Tenho de pensar se estou disposta a abdicar de cerca de mais 2 anos de um curso" normal" de vida em benefício de outra saga. A ver bem as coisas, nem sei ao certo o que é isso da normalidade na vida. Se o meu futuro passar pelo envelhecimento sem conhecer o real sentido da maternidade vou ter de aprender a conhecer-me, porque tenho vivido para uma causa fictícia. Tenho privado com o improviso com tanta frequência, logo eu que gosto de sentir controlo sobre o meu quotidiano. Parece que anda tudo do avesso, respondo a solicitações constantes, no entanto sinto-me incapaz de pedir ajuda. Sempre tentei desenrascar-me o melhor que conseguia pelos meus meios, porque quando precisava de realizar alguma coisa que pressupunha a participação de outras pessoas, deparava-me com laxismo ou falta de sentido de responsabilidade. Esta dependência de um sistema que envolve várias pessoas para a concretização do objetivo de sermos pais é exatamente o oposto do que tenho feito na minha existência e isso deixa-me ainda mais frustrada. Isto está a testar os meus limites de tolerância que, diga-se de passagem, têm uma amplitude significativa.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Dia 7 - TEC 5

Aproxima-se aquele período em que na última transferência me apercebi do início das perdas de sangue. Só aconteceu na TEC 4, se algo semelhante suceder, será por volta de sábado. Não houve nada de diferente em relação a ontem, aqueles instantes de pressão súbita no útero ocorrem, no máximo, umas três vezes por dia.

Amanhã terá passado uma semana, não tem sido complicado passar o tempo. Os mini-nós resistentes, made in fevereiro de 2016 chegaram a conhecer um 2017 sinistro. Tenho as minhas sérias dúvidas de que fiquem por cá até julho de 2018. Por vezes parece que estou a fazer um estudo científico em que a cobaia que nunca dá em nada sou eu, mesmo assim persisto... persisto... sempre a cometer o erro parvo de me sujeitar ao que é praticamente óbvio: a infertilidade está a ganhar-me a léguas e não a irei vencer.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dia 6 - TEC 5

Dia 1 de novembro, especialmente para quem vive no norte, sabe o que isso significa. Pelo menos deu para distrair do estado pré-beta e privei algum tempo com a minha mais recente sobrinha de 4 patas, uma pequena rebelde que gosta de deixar as suas marquinhas. É irresistível como o facto de só olharmos para ela é motivo suficiente para partir para o ataque. Tinha saudades de estar com uma gatinha tão pequenina.

Os efeitos da medicação começam a sentir-se. Ligeiro aumento do volume mamário, uma vez por outra alguma pressão no útero devido ao estado "nuvem fofa" em que se deve encontrar. Não é nada que nunca tenha acontecido antes, foi assim em todas as transferências.

Estou a meio do percurso desta TEC, o tempo tem passado relativamente rápido, provavelmente por estar quase sempre ocupada. Tem sido nestes diários que tenho dedicado um pouco dos meus pensamentos TECofílicos. E não, ainda não tomei aquela decisão, nem me tenho debruçado sobre o assunto.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Dia 5 - TEC 5

Eis-me! Boa noite e obrigada! É mais ou menos isto...

O trabalho rola, a rotina medicamentosa está completamente instalada, a vida segue controlada ao minuto para não descarrilar, pois desenvolvo a minha atividade em vários sítios. Não há muito tempo para analisar se o coração continua a bater, ainda que de forma irregular, como descobri há uns meses, se há pontadas, tensão ou algum sinal de fumo que indique que algo se passa. Ainda bem que está a ser assim, preciso de concentração, porque o meu trabalho é essencialmente intelectual. A única "queixa" que tenho é que no final da manhã senti cansaço na zona dos gémeos, como se tivesse tido cãimbras durante a noite. Acumulo medicação diversa que pode interagir e tem os seus efeitos secundários. Com tanta coisa que tomo estou admirada por me sentir tão bem aliás, a gastrite praticamente não se tem manifestado.

Há alguns pensamentos que tenho sobre o rumo desta TEC. A sequência do meu histórico tem sido: negativo - positivo - negativo - positivo. O que me parece lógico, porque procuramos sempre um sentido para este caos interior é que, obviamente, é a vez do negativo. Se, por alguma exceção, voltar a ser positivo, remato automaticamente a ideia com um destino fatal que ainda não experienciei e, nesse âmbito traço diversas possibilidades que não vale a pena referir neste momento. Como se pode ver, nunca concluo o cenário com um final idílico, não consigo.

Mantenho o processo de procrastinação, porque falta-me descobrir o momento ideal para tomar a minha decisão definitiva. Então vou adiando... adiando... Ups! A deadline é daqui a uma semana! Preocupa-me mais esse aspeto do que o resultado do beta, o que é estranho. Tenho de fazer um esforço para ponderar o futuro, analisando o passado. Há alturas em que me irrita ser adulta e esta é uma delas.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Dia 4 - TEC 5

Mais um dia passou em que praticamente deu para esquecer que fiz uma transferência. É muito melhor enfrentar o período que antecede o beta se nos distrairmos o máximo possível. Salvo indicação contrária, não voltaria a repetir aqueles dias consecutivos de repouso no sossego do lar, em que a cabeça não faz mais que procurar sintomas, pensar no número de células dos embriões, ficar indecisa entre fazer ou não teste de gravidez. A meu ver, é um tremendo erro. Nem falo dos benefícios físicos da movimentação.

"O psicológico", muitas vezes empregue erradamente como substantivo, quando o que se pretende é falar da condição psicológica, tem uma fatia preponderante na forma como encaramos todos os processos associados ao tratamento da infertilidade. Não estou a ter apoio especializado nesse âmbito, nem tenho conhecimento no terreno que me permita dizer que o mesmo me traria benefícios. Acredito que haja quem lhe reconheça vantagens, assim como quem lhe seja averso por ideias pré-concebidas, como por experiências negativas ou ausência de melhorias. No meu caso, simplesmente não sinto necessidade.

De uma coisa tenho conhecimento de causa, isto não é pêra doce. É uma verdadeira provação que põe em causa toda a harmonia e estabilidade que procuramos. Abala relações, pode destruí-las ou torná-las mais coesas, mexe com a dinâmica do casal, as relações familiares, de amizade e até mesmo com o ambiente profissional. Ou seja, toda a esfera que circunda os agentes envolvidos é revirada e o Eu sente uma sobrecarga difícil de suportar, que pode piorar quando surge o insucesso. A infertilidade dói e é subestimada. É preciso mais sensibilidade para dar um real apoio àqueles corações que sangram de cada vez que tropeçam em mais uma pedra.

Fisicamente comigo está tudo igual, não há sinais de sangue. A minha revolta atenuou um bocadinho, talvez por ter escrito este post.

domingo, 29 de outubro de 2017

Dia 3 - TEC 5

Estive numa festa de aniversário de um menino maravilhoso que nasceu no mês anterior ao início da minha novela no mundo da infertilidade. Muitas crianças estiveram presentes, a maioria mais novos que ele, com idade para serem amiguinhos das várias crias que eu já poderia ter posto no mundo, desde que entrei nesta luta. Não me incomodou partilhar o mesmo espaço, talvez por estar mentalizada que essa dinâmica frenética faz parte de um mundo paralelo ao meu em que a biologia decretou que sou persona non grata. Pouco depois de chegarmos fomos surpreendidos com um jogo em que eu e o meu marido, na qualidade de recém casados, tivemos de segurar uma pequena bola com as nossas testas enquanto percorríamos uma pista desenhada no chão. Ouvi por duas dolorosas vezes, alto e bom som, por parte de alguém que não faz a mínima ideia da nossa história "de cada vez que a bola cair são trigémeos que vêm!" Claro que não houve qualquer maledicência na expressão daquelas palavras, é apenas fruto da assunção de que as pessoas estão automaticamente aptas a pôr cá fora ranchos de filhos com a mesma facilidade com que se bebe um copo de água. Contudo, na fase em que me encontro, preferia não ter de me lembrar novamente da minha especificidade.

Pelos vistos fiz uma transferência na sexta-feira passada, até vi os dois pontinhos brilhantes a serem colocados no apartamento. Não há nada a assinalar sobre o assunto. Ainda não sinto efeitos da medicação, por vezes a gastrite faz as suas gracinhas mas, regra geral, estou bem. A única coisa que tenho reparado é que passo a vida a abrir embalagens de medicamentos. Tenho um necéssaire destinado apenas a caixas dedicadas à infertilidade que não fecha de tão abarrotado que está. O meu corpo é um contentor de pequenos cilindros e ovinhos que se vão consumindo num organismo que, de natural, já tem muito pouco.

sábado, 28 de outubro de 2017

Dia 2 - TEC 5

Nada como fazer uma vida, o mais normal possível, para esquecer que mais uma TEC entrou no meu currículo. Ando tão alheia ao processo que só hoje me apercebi que o beta está marcado apenas 11 dias após a transferência. Isto é o 8 e o 80. Da última vez foi 15 dias depois.

Faço diariamente um esforço para me recordar de tudo o que tenho de tomar ou se, eventualmente, já tomei. Não costumava ser assim.

Sei que tenho uma decisão a tomar. Estou só a procrastinar um bocadinho para não correr o risco de me precipitar.

Gostava de estar otimista, carregada de esperança, mas não consigo. É só mais um processo que se instalou no meu quotidiano, até estava a estranhar passar tanto tempo ausente da sala de espera do piso 3. Desenvolvi um género de Síndrome de Estocolmo em relação a estes rituais. Recuso-me a equacionar como estarão os embriões, acho que não faz sentido. Quero manter-me neutra, a roçar o fria, como mecanismo de defesa. Evito depositar emoções coloridas pois a infertilidade tem pintado o ânimo em tons de cinzento. Disse em tempos que a desprezava, nada mudou.

Ontem esqueci-me de atualizar a terapêutica que mantenho. É então Eutirox 100, 3 comprimidos de Estrofem, 1 comprimido de Acfol, Projefikk a cada 8h, 1 comprimido de Cartia, 1 comprimido de Lepicortinolo e terça repito 1 comprimido de Molinar. Coisa pouca...