segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Ideias acerca do eterno porquê

Tive o momento libertador que precisava, a dois, que deu algum alento para pensar no que me poderei focar em seguida. Ainda tenho 6 embriões, o que significa algumas hipóteses de dar outro rumo a estes finais infelizes.

Aquilo que antevejo é que chegando o mês de abril o hospital deve entrar em contacto para dar início ao ciclo de preparação da TEC 4. Eventualmente vão bater na tecla do Decapeptyl, substituir este pela pílula depois de lhes refrescar a memória sobre a minha relação com aquele injetável. Claro que vou manter a minha proposta de recorrer ao velho Provera. Enfim, imagino que vão acrescentar zero, transformando-me outra vez naquele enlatado igual a tantos outros. Peço desculpa pela abordagem mas é mais ou menos assim que tem acontecido.

Como não estou disposta a repetir fórmulas que não funcionam vou dar umas 3 a 4 semanas ao hospital para fazer a tal análise do processo, em equipa, que quero acreditar que vá efetivamente acontecer. Não havendo nenhuma comunicação da parte deles durante esse período vou eu fazê-lo para colocar as questões que queria ver esclarecidas hoje e ver a viabilidade de investigar outra coisa que me ocorreu esta tarde.

O meu corpo tem reações estranhas e exageradas em algumas situações. O sistema imunitário reage demasiado em situações simples, o que me faz pensar se os embriões não estarão a ser interpretados como um corpo estranho que deve ser expulso sem dó, nem piedade. Depois de uma breve pesquisa vi que o organismo da mulher, em condições normais de uma gravidez, "desativa um chip" que habitualmente rejeita elementos quando não os considera como sendo dele. Esta alteração imunológica permite que o embrião se desenvolva no ambiente materno, apesar de 50% do seu código genético não ser oriundo da progenitora. A pensar nesta possibilidade, nas ovodoações tenta-se garantir compatibilidade entre os genes da dadora e recetora para que as falhas de implantação ou abortos espontâneos sejam minimizados.

Quando andei a fazer despiste às trombofilias apresentei alterações nos linfócitos em número e morfologia, que foi interpretado pela hematologista como uma infeção à qual não deu importância. E se não for irrelevante? Haverá alguma relação com esta ideia da rejeição dos embriões? Realizei as análises cerca de 6 semanas após o aborto, quem sabe aquele parâmetro ainda era uma consequência que estava a ser detetada. Estarei a ter um raciocínio descabido?

Após mais algumas pesquisas vi que em Portugal não se fala muito desta temática (para variar) mas no Brasil há muitas referências. Existe um teste chamado Crossmatch que vai avaliar esta questão da incompatibilidade da mãe com o embrião. Não há consenso relativamente a este assunto, no entanto verifica-se que quando o resultado desse teste é negativo é possível criar uma vacina com os linfócitos do pai, aplicada num mínimo de 3 doses espaçadas, de maneira que o organismo da mãe produza os anticorpos necessários para combater aquela resposta indesejada. O embrião passa depois a ser aceite como algo que é totalmente compatível com a mãe. A literatura sugere que esta técnica poderá trazer alguns inconvenientes como o desenvolvimento de doenças autoimunes na recetora da vacina, nomeadamente lúpus. Poderei estar a entrar num raciocínio que nada tem a ver com a minha situação, mas é algo que desejo abordar no hospital. Se aquilo que "googlei" estiver correto, o HSJ é o único hospital público do país que realiza esta análise.

Outras ideias que também vagueiam pela minha cabeça são possíveis anomalias genéticas dos mini-nós. Não sei até que ponto estando eles criopreservados será viável realizar DGPI sem saber o que procurar ainda. O polimorfismo do PAI-1 detetado anteriormente e que foi ignorado, se calhar deve ser tomado em conta.

Para já são estes pontos que desejo esclarecer para perceber se há alguma lógica no que digo e se há abertura do hospital para ir um pouco além em relação ao que tem sido feito. Não quero que me fechem a porta daqui a um ano saindo com a sensação de que o HSJ é mais limitado do que pensava. Para isso bastou-me o Pedro Hispano, mas fui obrigada a passar por esse para aceder ao que considerava o supra-sumo público da infertilidade no norte.

Como se pode ver não fiquei satisfeita com aquele telefonema de breves segundos desta tarde. Obviamente o resultado não me deixou feliz mas, acima de tudo, a comunicação que eu esperava cara a cara com quem de direito não chegou a existir, suscitando-me mais dúvidas do que aquelas que tinha. Vou ter de resolver essa parte para traçar os próximos planos que estão ao meu alcance.

Outra questão que me surgiu foi a espera de 4 meses para nova TEC. É para dar descanso ao corpo? Aproveitar este tempo para delinearem algum plano de intervenção? Excesso de serviço no hospital? Aposto mais na última hipótese, mas poderá ser o meu mau feitio a dar de si.

Resultado do beta - TEC 3

A colheita de sangue foi feita e devido ao elevado volume de serviço que há hoje no hospital, em vez de voltar lá, soube agora por telefone.

Negativo

Numa chamada muito rápida a enfermeira disse que o resultado foi negativo, a próxima TEC será em maio e entretanto a equipa vai analisar o meu processo.

Não tive oportunidade de colocar as questões que queria esclarecer. Não sei o que vai dentro do meu peito, se desilusão, raiva, vontade de desistir, arrependimento por me ter metido nisto. Acho que não vai haver um final feliz, sou uma inútil que anda a gastar os recursos do Estado que podiam ser canalizados para casais com verdadeiro potencial. De que me serve ter obtido o fabuloso número de 12 embriões se as transferências não dão certo? O que está tão errado para ter já perdido 6 filhos?

A dita análise do processo deve ser para decidir que depois de esgotadas todas as TEC tenho alta. Já não sou nova, não me deve ser dada oportunidade para voltar à lista de espera e repetir esta saga. O fim está a chegar.

Ponho-me agora a pensar nos médicos que ao longo da vida foram dizendo que a solução era fácil e rápida. Conheciam-me tão mal...

Passa-me muitas vezes pela cabeça que os malditos ovários que só me têm causado aborrecimentos, ainda me vão brindar com mais uma surpresa desagradável do foro oncológico. Era irónico demais isso acontecer e nada impossível dado o historial de neoplasias em variadíssimas partes do corpo, do lado paterno.

Queria ficar no meu cantinho a carpir mas mal tenho forças para isso e ainda vou trabalhar no final da tarde.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Dia 13 - TEC 3

Cá estou em mais uma véspera de beta. Sinto-me extremamente tranquila, sem expectativas nenhumas, nesta maldita rotina que já se instalou. A fome desapareceu e se ontem foi um dia penoso no esófago, hoje houve bandeira branca, felizmente.

Às 8 horas lá estarei para fazer a colheita de sangue. Se for como das outras vezes, à hora do almoço, volto ao hospital para estar face to face com a diretora do serviço, que por acaso até foi quem realizou esta TEC. Cada transferência teve uma médica diferente, só falta passar por uma para rodar pelas quatro.

Se o resultado for negativo vou dedicar um pouco de tempo a mim para recuperar do acumular de medicação e tentar arrebitar um bocadinho. Num ano o meu corpo transformou-se bastante e a minha condição anímica tem vindo a diminuir gradualmente.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Dia 12 - TEC 3

Se ontem havia uma alegria infantil a tomar conta de mim, hoje já não estou da mesma forma.

Sinto uma dor contínua no esófago e o fundo da garganta parcialmente obstruído devido ao refluxo. Acho que aquilo que tem acontecido nos últimos dias não é mais que o acumular de efeitos secundários da medicação.

Não auguro muitos motivos de felicidade na segunda-feira. Continuo assombrada com a ideia de que os 12 mini-nós não serão suficientes. Supondo que esteja correta vou perguntar à médica se findas as 6 TEC com insucesso regresso à lista de espera para FIV ou me dão alta por ser um caso perdido. Tenho de saber também se há um plano alternativo para a próxima transferência que passe por investigar/testar alguma coisa diferente. Não sei se a filosofia do hospital é jogar sempre com a mesma estratégia até que dê certo ou acabem as possibilidades. Se em tempos via uma luzinha no fundo do túnel agora vejo-a a sumir. Não deveria estar a pensar e escrever estas coisas mas tive sempre necessidade de traçar todos os cenários bons e maus, como forma de controlar o desespero momentâneo.

Gostava de estar otimista mas é deveras difícil.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Dia 11 - TEC 3

A palavra do dia é: FOME!

Queria tanto não me prender demasiado a isso mas é difícil quando esta sensação transcende o meu estado habitual. Acordo de madrugada com fome, acabo de fazer uma refeição e continuo esfomeada. Não como este mundo e outro porque tenho de me manter lúcida.

Mais importante que me concentrar na fome é manter os pés aparafusados à Terra sob pena de dar um tombo monumental na segunda-feira. Segundo a minha lógica continua a probabilidade de 50% de isto correr bem. Aquela criaturinha que gosta de dizer que vai ser negativo continua a rondar, não a ignoro.

Acumulo mais de 5 anos de uma busca incessante, uma paciência desmedida, uma esperança vinda não sei de onde, uma teimosia que me mantém de pé, uma convicção de que tudo o que tem acontecido vai valer cada exame, injeção, comprimido, amostra de sangue, hora, suspiro, dor, má disposição, lágrima e sacrifício que dediquei durante aproximadamente 14% da minha vida.

É tempo de chegar o final feliz, porra!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Dia 10 - TEC 3

Posso estar a ser demasiado presunçosa mas acho que as notícias de segunda vão ser boas. Oxalá não esteja enganada...

De manhã, bem cedo, ainda estava na cama e senti fome. Isso só me aconteceu no pouco tempo em que estive grávida. Depois de uma refeição continuo com fome, tal como da outra vez. A diferença é que na TEC anterior só começou a acontecer depois do beta, assim como as dores provocadas pela gastrite.

Nas TEC 1 e 2 sentia pontadas na barriga, ao contrário desta vez, é aquilo que mais estou a estranhar. Não queria estar constantemente a fazer comparações mas é inevitável.

Seria maravilhoso não ficar desiludida.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Dia 9 - TEC 3

Cumpro calendário novamente nesta lenta espera. Já posso riscar mais um dia, dia após dia restam apenas 5 para escrever novidades boas, más ou assim-assim.

O que me diz o corpo? Diz-me que estou inchada no peito mas principalmente na zona abdominal. Pareço até grávida, é essa a realidade. Espero que estas mudanças físicas tenham uma razão de ser que não apenas o resultado dos efeitos secundários da medicação. Será frustrante passar por estas metamorfoses se a produtividade for nula.

A gastrite vai-se manifestando a partir da tarde, até dormir. Tem sido uma companheira desagradável. Mais valia estar só.

Há algo que tem acontecido desde que fiz a transferência, ao qual não tenho dado muita importância mas é inédito. Tenho um corrimento completamente líquido, sem qualquer tipo de viscosidade, incolor e inodoro. É uma quantidade significativa contudo não sinto a sua saída. É muito estranho, tal nunca me aconteceu.

Pela primeira vez tive a sensação que houve duas ou três pontadinhas no fundo da barriga ao levantar-me.

Amanhã é quinta-feira, a semana tem passado a um ritmo interessante mas podia ser mais rápido!

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Dia 8 - TEC 3

Não observei nada que se aproximasse do tom vermelho, o que me deixa tranquila (ou não).

Tive uma enxaqueca durante uma parte significativa do dia, de vez em quando aquela dorzinha nas costas ou no fundo da barriga que antecede a chegada do período. Essas sensações foram substituídas pelo regresso da minha amiga gastrite, ao final da tarde. Aquele ardor persistente ao longo do esófago e que me é tão familiar veio para me lembrar que é um excelente indício, à luz de um antigo médico de família que tive. É sinal que estou viva!

50% do processo já passou, segue-se a fase em que a espera começa a durar uma eternidade. Não há fadas madrinhas a quem possamos pedir uma varinha mágica, daquelas que não tritura sopa, e faça desaparecer estes dias que bloqueiam a chegada de 30 de janeiro. Por outro lado esses mesmos dias são importantíssimos para o desenvolvimento dos mini-nós, caso ainda continuem fortes comigo. E é isto, antíteses atrás de antíteses. Não há linearidade nas respostas do corpo às diversas medicações, nos sentimentos associados a estes procedimentos, nos sintomas. Nestes períodos o meu cérebro adquire a forma de um ponto de interrogação.

Amanhã há mais, até lá vou continuar por cá a usufruir da minha gastrite.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Dia 7 - TEC 3

Estava tudo a decorrer com total neutralidade até chegar a casa, depois do trabalho. Vislumbrei uma muito discreta, quase impercetível, minúscula marca de sangue. O que é isto nesta altura do campeonato? A maior amenorreica que anda por aí tem coisas destas quando se trata de engravidar? Que ironia tramada!

O peito já aumentou de volume, a tensão mamária parece estar a chegar.

Estas flutuações de peso tendencialmente ascendente estão a deixar-me com um aspeto com o qual não me reconheço. Tenho uma parte muito significativa de culpa pela falta de atividades simples que poderia executar. A minha condição anímica bloqueia a vontade de fazer algo por mim. Vou adiando sucessivamente o ímpeto de me mexer colocando na minha cabeça a desculpa que de 3 em 3 meses segue-se nova TEC, o que me deixará limitada. Isto vai ter de mudar, eu sei.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Dia 6 - TEC 3

À semelhança da TEC 2 não há nada significativo a registar relativamente à atividade biológica visível ocorrida hoje. Uma das borbulhas estava gigante, tratei-lhe da saúde, a outra praticamente não se vê.

Tal como das outras vezes também só saberemos o resultado no hospital. Depois do que aconteceu na última transferência seria um erro tremendo meter-me a fazer testes em casa que eventualmente dessem positivo, explodir de felicidade e depois levar um banho gelado com um valor baixo de beta. Prefiro a realidade dos números do que as riscas, smiles ou menções.

Os sonhos têm voltado para me dizer que a infertilidade está presente dia e noite, em todos os meus estados mais ou menos conscientes. Isto suga a minha existência.

Aquelas criaturinhas malévolas que afetam as minhas sinapses dizem que esta TEC vai ser um fiasco. Insistem na ideia de que a perda dos 12 embriões vai ser o castigo supremo para mostrar que não mereço ter filhos. Tenho de pensar nessa possibilidade e ter discernimento suficiente para saber viver com essa realidade, caso venha a acontecer.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Dia 5 - TEC 3

As náuseas que comecei a sentir à noite, ainda antes da TEC, começaram a dar um ar da sua graça em alguns períodos do dia. Tenho duas borbulhas a habitar a face, a sensibilidade nos mamilos está a aumentar um pouco. Ao nível do útero, ovários e arredores, nada a assinalar.

Cerca de 36% do percurso entre a transferência o dia do beta está concluído. Vou tentando manter-me neutra como mecanismo de defesa.

Bolas, estou a habituar-me às TEC...

Dia 4 - TEC 3

Antes de mais, valores altos se sobrepuseram à escrita, ontem. Há alturas em que surgem crises cuja resolução, se estiver ao nosso alcance, poderá ter um pouco do nosso contributo. Enquanto indivíduos temos família, colegas, conhecidos e amigos. Os amigos, em particular, merecem tempo e apoio nos piores e melhores momentos. Foi nesse âmbito que atuámos na altura em que habitualmente estou, frente ao computador, a digitar uns carateres.

A fase pré-beta está a ser mais preenchida o que, de certa forma, ajuda a desviar os pensamentos que normalmente são 80% voltados para a infertilidade. O estado pintas vermelhas do meu marido vai melhorando lentamente, é menos uma preocupação.

A minha terapêutica é escrupulosamente cumprida, vou tentando fazer uma vida normal do ponto de vista físico, embora com as devidas limitações.

Relativamente a algo que possa sentir não houve nada de diferente em relação ao dia 3.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Dia 3 - TEC 3

O dia de hoje foi assinalado por alguns elementos distratores que fizeram esquecer um pouco o momento TEC que estou a atravessar. Aquele que mais se destaca é uma reação alérgica que o meu marido manifestou à amoxicilina. Todo o seu corpinho está salpicado de manchinhas vermelhas e na cara parecia que tinha apanhado um escaldão. Teve de ir ao hospital tratar do assunto e pelo menos no rosto já se começa a notar que a cor está a normalizar um bocadinho. O resto continua a impressionar.

Algo que tenho vindo a reparar há cerca de uma semana e que não aconteceu das outras vezes, é que o Estrofem tem provocado algumas náuseas à noite. A médica recomendou sempre que tomasse um comprimido de manhã e dois à noite já para prevenir essa situação e só nesta terceira TEC é que estou a sentir isso. Não é nada que me deixe sem forças, com vontade de vomitar, mas vai marcando presença.

Daqui a um ou dois dias a tensão mamária deve começar a dar sinais.

A zona pélvica continua em sossego total, não há nada a acrescentar.

Se os mini-nós ainda continuam a fazer a sua magia, é mais ou menos a partir de amanhã que entram numa fase crucial de início de fixação no confortável endométrio que lhes preparei. Deixo que sejam espaçosos porém não migrem para outros lados mais acima, onde não é suposto estacionarem.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Dia 2 - TEC 3

A vantagem de fazer a TEC nesta altura do ano é que não aborrece muito estar recolhida em casa, sem frio. É um luxo a que muitos se encontram privados, em situação precária, só por isso considero-me uma afortunada.

A minha fã número 1 não me largou mais que 5 minutos hoje. A sua função primordial foi a de servir de aquecedor de pernas, optou também por distrair-me algumas vezes com a sua rebeldia matreira e lembrou-me que sabe ser a gata mais querida e atenciosa.

As mini-mórulas de ontem poderão ser os blastocistos de hoje a mostrar ao corpinho da mãe que tudo vai correr bem e que já não haverá mais motivos de preocupação. É tão bom sonhar... não é?

Agora a sério, estou naquela fase dos primeiros dias em que se leva na desportiva, sem grandes alaridos. Ainda para mais sendo a terceira vez, o stress é cada vez mais tardio. Dentro de mim surge uma vez por outra uma voz que sussurra "vai ser negativo, daqui a 3 ou 4 meses vais gastar mais dois embriões". Há alturas que me apetece desligar o botão que desencadeia os pensamentos e só ativar novamente quando realmente dá jeito. Somos os nossos piores inimigos quando os maus pressentimentos nos invadem.

Assim como eu, nestes dias há mais companheiras de luta que estão mais ou menos neste limbo e vão dando aqui um saltinho pela minha casinha virtual. Sei que vocês devem estar a sentir mais ou menos o mesmo. Isto mexe connosco a todos os níveis, não temos o poder da adivinhação e por isso é que custa tanto. Sabendo que uma moeda tem duas faces, se quisermos que em 100 lançamentos saia pelo menos uma vez cara e no fim só sai coroa, a probabilidade de 50% para nós valerá zero. Dizem que as hipóteses de gravidez bem sucedida aumentam a cada tentativa realizada, isso é verdade, só falta saber quando. O melhor a fazer é acreditar que desta vez vai sair cara.

Amanhã deliro mais um bocadinho.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

TEC 3

Ei-nos no quentinho, descansados, prontos para enfrentar os próximos tempos. Sim, mais uma vez, tenho dois mini-nós albergados no fofo endométrio. Os números 5 e 6 estão a conhecer a mamã. Espero que ainda se estejam a familiarizar comigo e não tenham sucumbido entretanto.

Hoje tive dificuldade em conseguir que a bexiga estivesse pronta a horas. Usei a mesma técnica que da última vez mas tardou em resultar. Mantive-me de pé na sala de espera para ver se a gravidade ajudava um pouquinho mas acabei por fazer a TEC sem sentir pressão. Felizmente o útero estava bem visível, foi a transferência menos incomodativa de todas. A TEC propriamente dita não custa nada, a colocação do espéculo é que deu luta da última vez.

Enquanto aguardava que os rins terminassem o seu trabalho a bióloga esteve a falar connosco. Pelo que me apercebi a qualidade dos embriões não devia ser tão boa quanto a dos anteriores. Eles foram descongelados ontem e apresentavam alguma fragmentação que não os tornava muito simétricos. Hoje apresentavam-se como dois pequeninos aglomerados de células, o que significa que estavam a organizar-se e a continuar a divisão celular. Desta vez ela não referiu que realizou eclosão assistida pelo que depreendo que não deviam estar reunidas as condições para o fazer.

Admito que a esperança está a esmorecer, no entanto não posso deixar de pensar que na primeira TEC a qualidade era excelente e o negativo foi bem explícito no beta.

Tive ao longo da tarde a lealdade incondicional da minha menina de longos bigodes, sempre colada a mim. É uma peça muito importante na minha vida.

Ficarei por casa até quinta, sexta volto ao ativo e dia 30 de janeiro é o beta. No meu processo estava 31 mas afinal foi antecipado um dia. Restam 3 palhetas, 6 mini-nós, a usufruir do fresquinho do azoto líquido. Metade dos embriões foram usados num espaço de 8 meses. Isto é assustador, porque vejo as hipóteses a escaparem por entre os dedos.

O que será que me reservam as cenas dos próximos capítulos?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Inspirar, expirar

É assim que devo fazer conscientemente para proporcionar alguma calma ao meu interior. Mais uma TEC se aproxima e com ela novamente a esperança de que será finalmente aquela que vai fazer chegar a maior expressão de Amor.

Não desejo apenas que o resultado seja positivo. Aprendi da pior forma que isso não basta. Aceito uma gravidez cheia de complicações, desde que no final venha a recompensa de pôr no mundo a(s) nossa(s) cria(s) com saúde a todos os níveis. Já agora se me for permitido manter por cá, também sã, para poder ser a melhor mãe que conseguir, agradeço de coração.

À semelhança das outras transferências irei fazer atualizações diárias pelo que aviso, desde já, que certamente isto vai soar a repetição. C'est la vie! Gostava de contar coisas novas e agradáveis, veremos o que me reserva.

Neste momento pré-TEC começo a ter alguma sensibilidade na zona mamilar que deve ser fruto do Projeffik. Em condições normais não costumo sentir isso mas em modo TEC é habitual, embora não tão cedo.

Amanhã não me posso esquecer de tratar da bexiga para às 12h30 estar no ponto. Os nossos mini-nós vão ser fortes e descongelar na perfeição, estou confiante.

Vou ficar em casa até quinta-feira, sexta vou trabalhar. Se os embriões continuarem viáveis até ao fim de semana a nidação deverá ocorrer nessa altura, a eterna ligação poderá estabelecer-se. Resta-me aguardar serenamente pelo dia de amanhã e enquanto isso continuar com a medicação.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

37

Hoje é dia de aniversário, não propriamente de festa, porque as circunstâncias destes últimos dias têm tirado tempo para me dedicar a qualquer comemoração. Fica para outra oportunidade!

Neste momento tenho alguns minutos disponíveis então estou a aproveitar para dar novidades. O conceito de beleza na infertilidade é muito diferente ao que estamos habituados nas situações banais do quotidiano. Na ecografia desta manhã o meu endométrio foi classificado de "belo". Qual exibicionista, mostrou o esplendor da sua espessura de 10,2 mm, trilaminar, altamente convidativo. Diria mesmo, sexy! As minhas entranhas estão charmosas, só falta saber se desta vez a eficiência vai superar toda esta pomposidade. Por mim até poderia parecer o medonho Adamastor, o que interessa é que seja funcional.

Esta espécie de ciclo natural (induzido apenas com Provera) mostra até que ponto os meus ovários são pequenos vulcões adormecidos. As mulheres que fazem preparação de TEC em ciclo natural costumam administrar o Pregnyl dias antes da transferência. Como não ovulo, não preciso de nada disso. Sábado à noite inicio a administração de Projeffik a cada 8 horas. Livrei-me do Decapeptyl, o endométrio espessou ainda mais rapidamente que na TEC anterior, tudo é belo.

Falei com a médica a propósito do polimorfismo do PAI-1 e da influência que este poderá ter no processo. Ela disse que estando a tomar ácido fólico não há problema nenhum.

A data da TEC 3 é dia 17 de janeiro, às 12h30. A primeira foi a 17 de maio de 2016, a segunda a 16 de setembro e agora voltamos ao número 17. O beta está previsto para 31 de janeiro.

Faço 37 anos, comecei esta aventura aos 31, não gosto...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Está a ficar bonito"

É assim que o meu endométrio se encontra. Está com 7 mm, teoricamente já reúne condições para receber embriões, no entanto a médica estabeleceu como meta mínima 9 mm. Felizmente a este nível não tem havido razões de queixa, o endométrio tem colaborado. Aumentei o Estrofem para 3 comprimidos diários.

Quinta-feira, dia 12 de janeiro, data que assinala o meu 37º aniversário farei a última ecografia antes da TEC e o agendamento da mesma. Em princípio será a meio da próxima semana, o que significa que o beta é por volta do dia 30.

Reflexões acerca deste período vindouro:

Estou a entrar na fase de neutralidade de sentimentos. Cumpro calendário, colaboro no que é solicitado, não quero desenvolver emoções. O modo mecanização está ativo. Estes processos integraram a minha rotina e grande parte do que faço gira em torno disto.

No final da semana passada, por exemplo, fui contemplada com uma colocação laboral temporária que pode durar entre 1 a 8 meses, sabe-se lá, a 20 km de casa, que não é nada para quem fazia por vezes 320 km por dia ou 900 por semana. Espetacular, pensaria eu no passado, contudo desta vez foi o pior que podia ter acontecido, por várias razões. Depois de traçar mentalmente todos os cenários possíveis que envolviam a aceitação desta oportunidade acabei por desperdiçá-la. Esta TEC ou outras que lhe possam seguir foram a razão determinante da recusa. Não seria muito propício apresentar-me ontem ao serviço, hoje faltar, na próxima semana ficar uns dias de repouso, isto só para começar. É a segunda vez que rejeito um trabalho por coincidir com o início de uma transferência.

Por mais que diga ao meu cérebro que não vou fazer a minha vida girar em torno deste assunto, a realidade é outra. A situação que mencionei anteriormente é apenas uma parcela, entre várias, que têm condicionado o nosso dia-a-dia. Não me arrependo que assim seja, contudo é triste que tal tenha de suceder.

Ainda temos 8 mini-nós, supondo que os descongelamentos correm bem e as transferências não deem em nada, até ao fim do ano terei acumulado 6 coitos programados com indutor cancelados, 2 IIU também canceladas e 6 TEC, o que para mim já parece absurdo e um sinal a ter em conta.

2017 será um ano de viragem para o bem ou para uma tomada de decisão acerca da continuidade/fim dos tratamentos.


Vou mandar dois beijinhos delicados para as pequenas M e C, que nasceram hoje, e são as crias da Our baby journey, por quem tenho um enorme apreço. Bem vindas a este mundo, desejo que tenham sabedoria para enfrentar as crueldades que este planeta proporciona, tragam esperança às diferentes gerações e sejam um exemplo inspirador para quem vos rodear. Tenho a certeza que a vossa Mãe vos transmitirá valores de excelência e ensinará o caminho da integridade.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A new beginning

Tivesse eu uma bola de cristal e as minhas previsões tinham um ar mais credível. O meu BFF Provera (usando linguagem dos teenagers) e os cálculos altamente complexos não falharam, mais uma vez. Previ que hoje seria o terceiro dia do ciclo, aquele em que iria fazer a ecografia que dava o mote para a preparação da TEC 3. Tenho pena que a minha capacidade preditiva fique apenas por aí...

Após uma caminhada abençoada pela chuva em direção ao hospital esperou-me uma relativamente rápida permanência no piso da Medicina de Reprodução, o que não é nada habitual.

Entrei na sala de ecografia, foi feita a pergunta rotineira da duração do meu ciclo, dei a resposta de sempre e fui para a marquesa incómoda. Enquanto as minhas entranhas eram escrutinadas e me apercebia, pela dor dos toques, que tenho ovários, pensava na palavra humanização. Porquê humanização? Porque há uma carência a esse nível nomeadamente quando põem a tocar a cassete do costume. Terei de fazer uma doação de esferográficas ao HSJ para que possam registar no meu processo que NÃO TENHO CICLOS ESPONTÂNEOS? Sempre que é dia de TEC temos de preencher um inquérito de satisfação no qual podemos fazer observações. Da primeira vez deixei esse campo em branco, se não estou enganada. Na segunda TEC já fiz sugestões. Na próxima farei certamente reparos a alguns pormenores que são repetitivos e desnecessários.

Na consulta subsequente foram prescritas as receitas necessárias. Comecei hoje 2 comprimidos de Estrofem e volto ao Acfol.

O momento que pensava que ia ser o clímax da consulta, o da entrega das análises relativas ao estudo de trombofilia resumiu-se a uma frase de estilo telegráfico, que é o registo habitual: "Está tudo bem". Confesso que estou apreensiva, vou dar o benefício da dúvida, por enquanto.

Dia 10 volto a fazer ecografia. A TEC já não deve coincidir com a data do meu aniversário, porque normalmente o Projeffik começa a ser administrado com 3 dias de antecedência. Poderá ser no dia seguinte ou na semana de 16 a 20 de janeiro. Não importa a data, o mais importante é que tudo dê certo.

Nota final: este cantinho cibernético surgiu em dezembro de 2015, pouco tempo antes de iniciar a FIV que ainda não teve final feliz. Posso dizer que de tudo o que foi acontecendo nestes 5 anos de luta contra a maléfica, este blogue tem sido como que uma mão que toca nos cabelos para transmitir alguma tranquilidade. Precisava libertar na forma de palavras aquilo que ia ficando aprisionado no meu interior. Fico imensamente grata ao perceber que o que partilho leva alguma paz de espírito às mentes que estão tão inquietas ou mais que a minha. Ainda não fui bafejada com a oportunidade de descrever um rumo diferente do insucesso contudo, quando escolhi o nome do blogue, fi-lo com a convicção de que isto vai dar a volta, só não sei quando. O caminho da infertilidade está a deixar-me mazelas. Não está a ser uma pedrinha no caminho, pelo contrário. É um colosso difícil de carregar neste interior cada vez mais inerte.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Polimorfismo do PAI-1

Polimorfismo do PAI-1 (4G/5G) heterozigoto. Ainda estou a tentar perceber o que é e as suas implicações. O facto de ser heterozigótico significa que herdei do meu pai ou mãe. Sendo de apenas um deles é mais favorável do que se fosse de ambos.

O resultado foi-me entregue na confusão do corredor do hospital de dia. A hematologista apenas disse que realmente poderá influenciar os resultados desfavoráveis que houve até ao momento. Deu-me a indicação de que deverei mostrar a quem me acompanha na infertilidade, pois lá saberão o que é mais apropriado fazer.

Resta-me aguardar pela primeira semana de janeiro, que será quando vou fazer a ecografia que antecede a preparação da terceira TEC e saber se há algo de novo a fazer tendo em conta este diagnóstico.