Sei que o conteúdo ao qual tenho dado destaque é pouco apelativo, mas trata-se daquilo com que tenho convivido e, diga-se de passagem, até a mim já me aborrece de sobremaneira. Desde o último post fiz análises, tive consulta com o gastroenterologista, a médica de família e fui submetida a uma manometria esofágica. Vamos por partes: as análises visavam várias vitaminas, cálcio... A vitamina D está baixa, tomarei de forma crónica, mensalmente, uma trivialidade. Do gastroenterologista há uma convicção cada vez maior de que a dor, que segue com 35 crises até à data, se deva a espasmos esofágicos, para os quais há um plano de ataque. Antes do almoço e do jantar tomo uma cápsula de óleo de folha de hortelã pimenta para relaxar o esófago e nas crises um comprimido de nitroglicerina sublingual. Ficou a indicação de realizar a manometria esofágica. No dia seguinte à consulta de gastroenterologia tive consulta com a médica de família para dar o feedback do dia anterior. Ela tinha pedido para questionar o gastroenterologista se ele considerava pertinente a realização de uma cintigrafia de perfusão do miocárdio. Ele descartou completamente causa cardíaca com as evidências já existentes, então não é relevante realizar mais um exame direcionado para esse caminho. Relatei também à minha médica o que foi discutido na consulta com a cirurgiã, nomeadamente algumas afirmações surreais para acrescentar ao leque de bizarrias que ouvi de profissionais de saúde, desde que me entendo por gente. Não sei se já tinha partilhado aqui, mas gosto muito da minha médica de família.
Fiz então a manometria esofágica. Diz-se por aí na web que é um exame minimamente invasivo, em que há um "discreto desconforto". É introduzida uma sonda caracterizada como fina através do nariz previamente anestesiado e blá, blá, blá... Passemos à minha realidade que, recordo, apenas relata o que EU experienciei. Dois a três dias antes do exame não pude tomar nada que interferisse no relaxamento da musculatura esofágica. Ou seja, desde sábado passado até ontem, não tomei cápsulas de hortelã nem nitroglicerina. No fim de semana tive três crises, só para me lembrar da minha impotência. Aguentei as malditas... O exame requer jejum de 12 horas, apenas tomei Eutirox, porque esse é sagrado. Apesar do otorrinolaringologista dizer que tenho uma excelente entrada de ar pelo nariz (discordo) e um pequeno desvio de septo que não é elegível para cirurgia, o primeiro desafio foi descobrir qual a narina mais favorável para introduzir a "fina sonda". Fui anestesiada com um spray nas narinas, que teve um efeito muito reduzido, a sonda foi generosamente besuntada com gel e começaram as investidas. Inicialmente houve uma tentativa na narina esquerda. Não resultou. Depois a direita. Não resultou. A esquerda novamente. Outro falhanço. A direita mostrou finalmente uma pequena janela de esperança. Até se chegar a essa fase, os meus olhos escorreram lágrimas involuntárias e o meu nariz largou um visco que devia ser uma mistura de gel com secreções. Chegou a hora de tentar enfiar a sonda que afinal não era assim tãaaao fina e, para completar o brilhantismo, tinha numa extensão significativa umas pequenas esferas salientes que deviam ser sensores, para gerar uma resistência ainda maior. A dada altura a médica que estava a realizar o procedimento disse que eu tinha narinas finas. A primeira etapa consistiu então em ultrapassar a barreira do nariz. Não fase seguinte era chegar à garganta. Penso já ter referido que tenho cada vez menos tolerância a realizar endoscopias sem sedação. Tenho muitos vómitos e, como há sempre várias biópsias e polipectomias a fazer, agora só faço sedada. Na manometria a sedação não é opção. À medida que a sonda desceu começou a sessão de vómitos. De sangue, restos de coisas, saliva... Engolir a saliva só piora, deitei para fora tudo o que pude. Foi um misto de dor, vómitos, medo de engasgar e sufocar, tentar manter a calma. A última etapa consistiu em encaminhar a sonda até ao estômago. Umas pausas para cuspir e respirar mais um pouco e, finalmente, fixar o tubo com fita adesiva ao nariz. Acho que foram 40 cm de tubo dentro das minhas entranhas. A parte mais complicada estava feita. Não deixei de sentir dor permanente no nariz e garganta, contudo a ausência de vómitos era uma vitória. Reclinei-me na cama e iniciou o exame. São realizados vários períodos em que não se pode engolir saliva, apenas inspirar e expirar pela boca. Foram injetadas pequenas quantidades de água que devia engolir em apenas um gole de cada vez, em ciclos com características distintas. Repetiram-se depois novas deglutições, sentada e, como sinto, desde sempre, dor quando ingiro coisas quentes, foram realizados ciclos com ingestão de água quente. O exame culminou com um "parto", em que a sonda foi removida de uma assentada para ser menos incomodativo. Desde o início da introdução da sonda até ao final, passou mais de uma hora. A manometria está na lista de exames que espero não voltar a repetir. Hoje tenho dor no estômago, a garganta um pouco arranhada e uma ligeira rouquidão. O relatório só deve estar pronto no dia 20 deste mês e a próxima consulta de gastroenterologia é no dia 13 de agosto. A médica que me realizou o exame perguntou-me se fiz alguma ressonância magnética. Disse que não, antes da colecistectomia só fiz ecografia. Ela apontou outra hipótese para as dores. Não é impossível ter cálculos alojados no canal colédoco. Vou falar dessa possibilidade ao gastroenterologista. Estou a ver que este filme ainda vai ter continuação. Em breve haverá novos episódios.
Por enquanto resta-me andar permanentemente acompanhada da nitroglicerina e passar a ser cliente assídua da loja Celeiro para a compra das cápsulas de hortelã. Trinta e poucos euros por 90 cápsulas é mais um luxo para a minha vida extravagante. Tenho de procurar noutras lojas ou farmácias.
Assim vão os meus dias.
Não há por ninguém que tenha uma experiência do género a partilhar? Quem sabe uns espasmos no esófago?
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